quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O HOMEM É QUEM FAZ A HISTÓRIA E NÃO O SEU PRODUTO

Gustave Thibon (1903-2001)

“... aprendemos que as essências são determinadas e que os atos, os acontecimentos são contingentes. Na atualidade nos é ensinado o contrário, a saber: que a natureza humana (se é que se tolera ainda o emprego desta palavra) é fundamentalmente contingente, indeterminada, maleável, enquanto os acontecimentos são necessários e que esses nos ‘informam’, nos re-criam sem cessar. Para esses pseudometafísicos tudo é obscuro no homem (seu ser, que não é definido jamais, se dissolve no econômico e no social), mas tudo é claro na história. Nós não sabemos o que somos, mas sim, sabemos para onde o tempo nos conduz. É o caminho que cria não apenas o objetivo, mas o próprio viajante... Para tal concepção não é o homem quem faz a história, é a história quem faz o homem. O tempo já não é uma tela a preencher, um instrumento oferecido ao homem para exercer sua liberdade, quer dizer, para realizar seu destino temporal e preparar seu destino eterno; não, o homem é instrumento do tempo, a matéria informe e caótica que recebe sua forma e seu fim desse demiurgo... A história assim erigida em ato puro e em potencia criadora, ressuscita em seu proveito as mais obscuras ideologias das idades bárbaras; nessa perspectiva, todos os sacrifícios humanos são permitidos e exigidos: contanto que a carruagem divina prossiga sua rota luminosa, que importam os seres obscuros triturados por suas rodas? Se, com efeito, tudo que é verdadeiro e tudo o que é o bem residem no porvir, os piores horrores do presente estão justificados: é bom tudo o que conduz a esse porvir, tudo o que se encontre conforme o ‘sentido da história’”.


__ Gustave THIBON. Revista Itinéraires, julho-agosto de 1956, núm. 5, pp. 2-3.

Um comentário:

  1. A posição filosófico-metafísica de que a contingencialidade dos acontecimentos históricos repousa num erro capital, a saber: a negação, a priori, de que a criatura racional não é racional e, portanto, absolutamente incapaz de contemplar a ordem natural e suas leis fixas que encerram, teleologicamente, as noções de bem e mal.
    Uma coisa é a faculdade de escolher, outra é a vontade de fazê-lo e ambas realidades encerram-se nesse composto a que denominamos homem.
    Na realidade, a natureza humana é determinada, porém, decaída. A questão aqui é de apetência, apetite, desejo, motivação. Ora, se é verdadeira a premissa que seres racionais e conscientes de si mesmos podem voltar-se par si mesmos, poderia ser real a questão da contingencialidade dos movimentos individuais e coletivos ao longo da história. Com efeito, é certíssimo que o apetite sensível (A VONTADE) pode variar, ora entre o que é reto (razão natural, bom senso), ora repousando nas sugestivas e deleitosas miragens metafísicas desta natureza corrompida. A sindérese é uma característica dos seres racionais e, portanto, aptos à captação da Lei Eterna e Natural e do bem intrínseco que encerram.
    Pode-se afirmar que, em certa medida, não haveria contingencialidade? Creio que aplicando corretamente a lógica do principio de causa e efeito, donde se espera que este traga em si a essência daquilo que lhe deu existência, mitiga-se o contingente, do inesperado, do provável, do possível. O restaria seria apenas os desvios, dada a volatilidade e imprevisibilidade do livre arbítrio. Portanto, o contingente já não o seria, pelo que estaríamos diante de efeitos perfeitamente previsíveis. Os efeitos sempre refletirão suas causas, indicando-as, clarificando-as. O rei está despido e nem se apercebe disso!
    Saindo agora do terreno das abstrações, e firmemente ancorados na São Filosofia e na São Doutrina, podemos agora afirmar que o erro dos “deterministas” é de premissa apenas, ao considerar que a “criatura humana” não pode ser responsabilizada por seus atos e, tampouco, capaz de fixar, em certa medida e em colaboração obediente e reverente com a Graça Divina, o seu destino, e não, como desejam e ensinam os dialéticos-materialistas, um produto do meio. Isto seria esvaziar e mesmo negar a evidência histórica do bem que o homem - obediente a Deus, através das faculdades de que foi dotado pelo Criador, realizou ao longo dos séculos. Como afirmou São Pio X, Deus é acessível ao homem pela razão.

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