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quinta-feira, 27 de março de 2014

O BRASIL É UMA VASTA COMILANÇA

A República, porém, trazendo tona dos poderes públicos, a bôrra do Brasil, transformou completamente os nossos costumes administrativos e todos os "arrivistas" se fizeram políticos para enriquecer... A República no Brasil é o regime da corrução. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e, para que não haja divergências, há a "verba secreta", os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência. A gente do Brasil, entretanto, pensa que a existência nossa deve ser a submissão aos Acácios e Pachecos, para obter ajudas de custo e sinecuras. Vem disto a nossa esterilidade mental, a nossa falta de originalidade intelectual, a pobreza da nossa paisagem moral e a desgraça que se nota no geral da nossa população. Ninguém quer discutir; ninguém quer agitar idéias; ninguém quer dar a emoção íntima que tem da vida e das coisas. Todos querem "comer"... Esse aspecto da nossa terra para quem analisa o seu estado atual, com toda a independência de espírito, nasceulhe depois da República. Foi o novo regime que lhe deu tão nojenta feição para os seus homens públicos de todos os matizes. Parecia que o Império reprimia tanta sordidez nas nossas almas.
Lima BARRETO. A política republicana. A.B.C., 19‑10‑1918. 


A VIGARICE REPUBLICANA

“Dom Pedro II que tinha por avós não sei quantos reis e imperadores, tinha três ridículas casas, no Rio de Janeiro, que eram da Coroa ou da Nação; e uma em Petrópolis, que era dele. Um nosso Presidente qualquer, bacharel qualquer ou filho de um coronel qualquer, tem quatro ou mais palácios suntuosos, recebe vencimentos anualmente quase tanto quanto a antiga dotação imperial; o Estado paga a sua famulagem, enquanto a dele, o Imperador pagava e, por muito favor, custeia unicamente o seu feijão com carne seca, prato de luxo que ele [o Estado] não dispensa porque é hoje iguaria de potestade”.

Lima BARRETO (1881-1922). citado por Francisco Alves Barbosa em “A vida de Lima Barreto”.