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quinta-feira, 27 de março de 2014

A PIOR DAS CORRUPÇÕES

A corrupção estava em todas as partes e a pior das corrupções. Porque tinha origem nas altas esferas governamentais e penetrava e se infiltrava, por assim dizer, em todas as classes sociais; esta funesta corrupção que tudo desorienta e aniquila, que lacera todos os corações, que danifica todos os caracteres, que gangrena todas as inteligências; essa corrupção funesta que deixa o homens sem nenhuma noção do justo, do honesto, do lícito e que, fazendo do interesse pessoal e do gozo material o único objetivo da vida, arrasta os povos como cadáveres ao pé de todas as ambições e de todas as tiranias.

Leandro NICÉFERO ALÉM (1842-1896)Citado na Declaração do Instituto de Filosofia Pratica (Buenos Aires), intitulada: “La Argentina em el Albañal” (04 de julho de 2011).

O PODER PÚBLICO COMO UM EMPECILHO E UM TRAMBOLHO

Nesses oásis, revivendo o tempo das bandeiras, tudo se deve à iniciativa privada. Foi o particular que desbravou a mata, que ergueu as plantações, que estendeu pela terra virgem os trilhos dos caminhos de ferro, que fundou cidades, abriu fabricas, organizou companhias e importou o conforto da vida material. O poder público, pacientemente, esperou os frutos da riqueza semeada. E logo em seguida criou o imposto, como os governadores do século XVIII e a metrópole estúpida, na loucura do ouro, criaram os quintos, os dízimos, dízimas, a capitação e a derrama. Nesse afã, porém, a administração publica faliu, não podendo acompanhar o movimento progressista, ora lento, ora impetuoso. E assoberbado, num afobamento tonto, ficou atrás: é quase um empecilho e um trambolho. No resto do país a coisa se agrava: os homens, de incapazes, tornaram-se desonestos e pela cumplicidade dos apaniguamentos eleitorais, aceitaram com pequena relutância o consórcio das funções administrativas com os interesses mercantis. A fragilidade humana fez o resto, que é a vergonha da nação. Na desordem da incompetência, do peculato, da tirania, da cobiça, perderam-se as normas mais comesinhas na direção dos negócios públicos. 
Paulo PRADO. Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira, 4 ed, Rio de Janeiro: F. Briguiet & CIA, 1931, pp. 206-207.



A COISA NOSSA

“A Coisa Nossa é uma coterie, ou se se quiser, no sentido da gíria brasileira, uma patota, isto é, grupo ou bando que, até se poderia dizer, faz patotadas (...) vivem de e pelo aparelho do Estado. Não diria que são corruptos ou cínicos, quando aceitam favores deste ou daquele a quem um dia favorecerão... Eles têm esses favores que são cumulados como coisa natural: é parte inerente da função receber presentes!”

Oliveiros S. FERREIRA. A Teoria da Coisa Nossa.

O BRASIL É UMA VASTA COMILANÇA

A República, porém, trazendo tona dos poderes públicos, a bôrra do Brasil, transformou completamente os nossos costumes administrativos e todos os "arrivistas" se fizeram políticos para enriquecer... A República no Brasil é o regime da corrução. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e, para que não haja divergências, há a "verba secreta", os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência. A gente do Brasil, entretanto, pensa que a existência nossa deve ser a submissão aos Acácios e Pachecos, para obter ajudas de custo e sinecuras. Vem disto a nossa esterilidade mental, a nossa falta de originalidade intelectual, a pobreza da nossa paisagem moral e a desgraça que se nota no geral da nossa população. Ninguém quer discutir; ninguém quer agitar idéias; ninguém quer dar a emoção íntima que tem da vida e das coisas. Todos querem "comer"... Esse aspecto da nossa terra para quem analisa o seu estado atual, com toda a independência de espírito, nasceulhe depois da República. Foi o novo regime que lhe deu tão nojenta feição para os seus homens públicos de todos os matizes. Parecia que o Império reprimia tanta sordidez nas nossas almas.
Lima BARRETO. A política republicana. A.B.C., 19‑10‑1918. 


A VIGARICE REPUBLICANA

“Dom Pedro II que tinha por avós não sei quantos reis e imperadores, tinha três ridículas casas, no Rio de Janeiro, que eram da Coroa ou da Nação; e uma em Petrópolis, que era dele. Um nosso Presidente qualquer, bacharel qualquer ou filho de um coronel qualquer, tem quatro ou mais palácios suntuosos, recebe vencimentos anualmente quase tanto quanto a antiga dotação imperial; o Estado paga a sua famulagem, enquanto a dele, o Imperador pagava e, por muito favor, custeia unicamente o seu feijão com carne seca, prato de luxo que ele [o Estado] não dispensa porque é hoje iguaria de potestade”.

Lima BARRETO (1881-1922). citado por Francisco Alves Barbosa em “A vida de Lima Barreto”.

domingo, 23 de março de 2014

A SOBERANIA DO POVO É SATÂNICA

"A guerra é sem trégua e sem piedade entre a Revolução e os que permanecem fiéis a Deus sobre a terra, porque a Revolução é uma tentativa de organização do mundo sem Deus e contra Deus. É o mais formidável dos erros. É a heresia total". (Pe. Charles Maignen. "La souveraineté du Peuple est une hérésie")
Em relação ao ponto que tocamos, a heresia é flagrante e fora de dúvida. Pois a soberania do povo é incompatível com o dogma do pecado original e da mancha primitiva do homem. Se, com efeito, o mal existe no homem desde o seu nascimento, se o homem traz em si más tendências que não podem ser combatidas nem freadas senão pela graça e uma autoridade esclarecida, como ensina o cristianismo, é absurdo proclamar o homem incondicionalmente soberano e independente. É o que proclamam em alta voz Jean Jacques Rousseau e todos os filósofos ou doutrinadores da revolução. É o que, seguindo seus passos, reconhecia faz pouco tempo Edouard Herriot, como postulado fundamental: “A democracia tem por fundamento um grande ato de fé na bondade da ‘natureza humana’”.
Contra o dogma do pecado original, a soberania do povo erige, pois, o da bondade e o da retidão naturais, da “imaculada concepção” do homem, segundo a célebre expressão de Blanc de Saint-Bonnet. 
A soberania do povo permite que Lúcifer se levante novamente contra a ordem divina e satisfaça ao mesmo tempo seu espírito de vingança e sua eterna malícia. Com a reivindicação da “imaculada concepção” do homem visa descontar a decadência que seguiu a falta de nossos primeiros pais. E o Tentador evidentemente experimenta uma sutil satisfação ao renovar para nós a queda primitiva, fingindo querer nos livrar de suas conseqüências e ao fazer cada um de nós tropeçar como nosso primeiro pai e pelo mesmo motivo. Pois a causa e o estimulo da rebelião original foi a soberba: “Sereis como deuses!” A afirmação da soberania individual e popular procede da mesma tendência; está marcada intrinsecamente pelo mesmo vício; não se poderia admiti-la nem tampouco praticá-la sem dar provas de uma vaidade ao mesmo tempo criminosa e cômica e de uma insurreição deliberada contra a ordem das coisas tal como foi estabelecida por Deus em castigo a falta e, por conseqüência, sem incorrer em uma nova pena.
 A soberania do povo é satânica enquanto pretende expulsar Deus da sociedade e proclamar contra Ele os falsos Direitos do Homem, exatamente como Lúcifer pretendeu substituir a Deus no Céu e proclamar contra Ele os falsos direitos dos anjos rebeldes. É satânica enquanto nega explicita e insidiosamente os dogmas essenciais da fé cristã: o da queda original e da mancha radical do homem e o de que toda autoridade reconhece sua fonte exclusiva, sua regra e seus limites em Deus. É satânica, por conseguinte, enquanto baseia toda organização política e social na insubordinação e na soberba e faz deste pecado, pai de todos os vícios, a mola propulsora de toda atividade das nações. É a heresia de nosso tempo, dizia o Cardeal Gousset, que se fez um bom profeta. Será tão daninha e tão difícil de extirpar como o jansenismo. Será mais ainda, pois ultrapassa imensamente em malícia e extensão.
Marcel de la BIGNE DE VILLENEUVE (1889-1958). Satan en la Ciudad. Buenos Aires: Editorial Nuevo Orden, 1965, pp. 86-89.

domingo, 16 de março de 2014

A BOA REPÚBLICA

Pierre Gaxotte (1895-1982)
“A boa República se dissipa assim como uma miragem. Em uma violenta reação do bom senso, os eleitores podem escolher às vezes homens respeitáveis, honrados, conhecidos por sua moderação; quando isto ocorre, se dá conta com assombro de que nada há mudado; e então volta a se lançar cegamente para a extra-esquerda, até que chegue o dia em que farto, decepcionado, desanimado, não tem o incomodo sequer de votar”.

Pierre GAXOTTE. La buena republica. Acción española: antologia.