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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

AS APOSTASIAS: COMO SURGEM, COMO ACABAM

“Quase todas as apostasias são aventuras vulgares, porém todos os apóstatas acreditam que seu caso é de enorme transcendência para a Igreja. Todas as apostasias começam pretendendo algum bem espiritual, que se quer impor contra as regras divinas. A princípio o orgulho se esconde de mil maneiras, e só aparece quando se esbarra contra a vontade do Superior. Produz-se, então, a obstinação no próprio juízo e, como consequência, a rebeldia contra a suprema autoridade. E nem bem vem a conservar-se a ruptura definitiva, que costuma ser altissonante e aplaudida pelo mundo, vemos que Deus castiga o apóstata, permitindo-lhe cair nessa aventura vulgar, para que sejam vistos os pés de barro daquela estátua de ouro.”
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Hugo WAST (1883-1962), celebre escritor argentino, de quem já fizemos duas postagens neste espaço. Uma delas é o belo texto que traduzimos denominado O homem que nunca havia rezado e a outra é a tradução do primeiro capítulo do seu magnífico e atualíssimo A autobiografia do filhinho que não nasceu.

sábado, 16 de maio de 2015

O HOMEM QUE NUNCA HAVIA REZADO

O celebre novelista argentino Hugo WAST enviou este escrito para uma revista literária mexicana – Abside – em 1957. Até onde sabemos, parece que apenas foi publicado nesta revista não aparecendo em nenhuma de suas obras, pelo que cremos que é praticamente inédito. Fizemos sua tradução especialmente para os leitores de nosso blog.


Ia morrer: No sorriso artificial de todos, que tratavam de enganá-lo anunciando-lhe uma próxima melhora, via que ia morrer.
Não tinha fé, nem caridade, nem esperança.
Nunca havia rezado e se jactava disso, como de uma façanha; não tinha apego à vida, nem temor da morte.
Dentro de uma hora, de duas, no máximo três, deixaria de viver.
Pediu que se afastassem para dormir um pouco e fechou os olhos.
Queria espiar os mínimos detalhes de seu próprio perecimento: uma imensa curiosidade; algo pueril, incrível.
A curiosidade do incrédulo que quis deliberadamente construir seu próprio Deus, para adorar sua própria obra, que é como adorar-se a si mesmo. Ao final, ver como se porta esse Deus.
Sua doença era uma anemia sem dores, que lhe deixava livre o espírito para espiar a chegada da morte. Queria estar acordado, porque se dormia, não despertaria nunca mais.
Já não tinha fé nem em si mesmo, seu único Deus.
Relampejava em seu cérebro uma duvida fastidiosa: se para além da cortina negra que logo iria descorrerse, haveria algo distinto do que havia pensado. Para assistir ao ultimo minuto de sua vida e o primeiro de sua morte, com lúcido entendimento, havia se negado tomar qualquer droga que pudesse enturbiárselo.
Sua curiosidade começava a inquietá-lo. Como que se encontraria quando o braço descarnado da morte descorriera a negra cortina? Veria o que antes nunca quis ver? Um Deus talvez? Mas não um deus feito por suas mãos, senão esse Deus eterno, onipotente, ao qual nunca havia rezado?
Tantas vezes afirmou diante dos homens que Deus não fazia falta para compreender nenhuma das coisas do universo, que acabou por creerlo; e sem a existência de Deus houvesse dependido dele, quer dizer, se tivesse em suas mãos apagar do universo esse Deus desnecessário, o faria tranquilamente.
Imediatamente pensou que morrer não era passar ao outro lado de uma cortina negra. Posto que não tinha força nem sequer para mudar de lado em sua própria cama, morrer seria cair a plomo em um abismo escuro e afundar sem ruído em uma água cenagosa, pestífera, que se cerraría sobre sua cabeça.
Fora um ou outro, além dessa cortina ou na profundidade dessa ciénega hedionda, não se depararia, de repente, com essa Luz que ele havia apagado no mundo, Luz que lhe clarearia as coisas que já não poderia mudar, porque já concluído o tempo para ele?
Um suor gelado banhou seus membros e a língua se lê pego ao paladar.
Tentou gritar e pedir que lhe trouxessem alguém com quem falar secretamente nestes últimos minutos, em que ainda podia mudar sua eternidade.
Mas de sua garganta não saiu mais que um estertor.
- Ainda está vivo. Ouviu que alguém dizia, tocando seu pulso.
Sim, estava vivo e queria que entendessem que precisava o que sempre havia rechaçado, algumas vezes com escárnio (burla) e desprezo e outras com tal ódio e fúria que agora ninguém proporia. E sua língua já estava morta.
 Lembrou-se que pertencia a uma sociedade de incrédulos que haviam se comprometido a não pedir auxílios religiosos na hora da morte e não atender a pedidos que algum deles fizesse naquela aflição, porque seria sinal de reblandecimiento cerebral. Retratavam-se antecipadamente dessa possível debilidade quando estavam no pleno domínio de sua inteligência e de sua vontade.
Ele se encontrava prisioneiro daquele juramento e rodeado de amigos que não o escutariam, ainda que gritasse a noite toda.
Havia renegado a Luz e a Luz havia se retirado dele. Havia pecado contra o Espírito.
Com suas próprias mãos havia construído seu deus, um deus em que já não acreditava. E já, tampouco, sentia pavor senão pavor do que encontraria. Oh, se fosse certo que para além da morte não existisse nada! Eis aqui que ele, pregador do Nada, agora acreditava que havia mentido para os outros e havia mentido para si mesmo.
Ouviu o médico que em voz baixíssima disse: - Já está morto!
E essa sentença prematura gelou de tal modo seu coração sem caridade, que não pode engendrar um só pensamento cristão. O tempo acabou. Deu um grito espantoso, que não chegou a sair de sua garganta, e caiu a plomo na água negra e pestilenta.
A escuridão era tão imensa, que ao seu lado as mais sombrias trevas do mundo pareceriam luminosas.
Neste momento sentiu a voz de um anjo que cantava o Nome que está acima de todo nome, o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. E ocorreu o que disse São Paulo, que ao ouvir-se o nome de Jesus todo joelho se dobra nos céus, na terra e nos infernos.
E se abriu a porta de bronze que nenhum fogo funde, e o homem que nunca havia rezado por não ajoelhar-se ante ninguém, entrou de joelhos nos infernos.
Oh, prodígio! A escuridão era ali muito mais densa, mas os olhos do condenado a transpassavam como flechas vermelhas; e viram que ali havia penetrado a voz do anjo, e aquele mundo de impenitência o escutava de joelhos. E mais além, muito mais além, divisou ao que por toda a eternidade ia ser seu rei e senhor, rodeado de uma multidão de sombras pálidas, muito tristes, ajoelhadas. E compreendeu que o diabo formava sua escolta predileta com o que nunca havia rezado e que só nos infernos se ajoelhavam.
E compreendeu também uma coisa terrível, que ele mesmo dava fé: que nenhum só deles havia sido verdadeiro ateu. Todos, no segredo de sua obstinação, haviam acreditado em Deus, mas não haviam confessado para não humilhar-se ante Ele, nem na escuridão de um aposento. Agora, ao dobrar seus joelhos com espantoso rugir de ossos, sentiam o pior dos tormentos do inferno [Nota: a privação de Deus]; mas sua obstinação era tão grande, que se pudessem escapar por algum resquício das irredutíveis portas, nenhum deles se arrependeria, por não rezar ao que nunca haviam rezado.
Suas almas estavam irremediavelmente secas para o Amor que nasce na humilde oração.
Foi tão horroroso seu desespero que deu um alarido e ouviu seu médico dizer: - Me equivoquei! Ainda vive! Mas logo perecerá. 
Entendeu que havia sonhado aqueles horrores e se arrependeu de sua insensatez. E com esforço desesperado conseguiu articular estas palavras: - Traga-me um sacerdote!
Uma pobre empregada, que não estava sob o juramento dos incrédulos lhe obedeceu. Trouxe-lhe o sacerdote, cuja mão consagrada rompeu a couraça de barro que envolvia seu coração; seus pecados se desprenderam de sua alma, como escamas, e pela primeira vez rezou.
Morreu uma hora depois e entrou no céu de joelhos, chorando de jubilo. E pode ver a face de Deus.


Hugo WAST (Gustavo Martinez Zuviría) 

terça-feira, 8 de julho de 2014

AUTOBIOGRAFIA DO FILHINHO QUE NÃO NASCEU


Embora não seja característica do blog a publicação de textos longos, mas sim de citações curtas ou medianas, por sua beleza e profundidade oferecemos aos amigos a primeira parte da tradução do obra livro do insigne novelista argentino Hugo WAST(1883-1962), “Autobiografía del hijito que no nasció” (Bs. As.: Theoria, 1961), que narra o empolgante diálogo entre um pequenino ser no ventre materno e o seu Anjo da guarda. Trata-se de um brado contra o horrendo crime do aborto, pecado de malícia peculiar, como a sodomia, que clama aos céus por vingança.


I – O que meu Anjo conta 

Já faz alguns instantes que sou um ser humano. Meu corpo ainda é tão pequeno que não pode ser visto pelos olhos de ninguém, mas minha alma já é tão grande como sempre será. Deus a criou para mim, no mesmo momento em que eu comecei a existir. Deus me ama como se eu fosse uma pessoa perfeita. Deus segue criando inumeráveis almas todos os dias, para todos os seres, filhos dos homens, que são chamados à vida. Meu Anjo me disse que nascerão tantos seres quanto necessários para repovoar o céu, despovoado em um terço de seus habitantes pelo Diabo.
Estas coisas profundas para uma pessoa tão pequena como eu foram as primeiras que meu Anjo da guarda ensinou. Devo explicar que tenho um Anjo da guarda escolhido entre os inumeráveis Anjos que permaneceram fiéis ao serviço de Deus.
Melhor ainda! Meu Anjo da guarda ensinou que Deus me ama desde toda a eternidade, como se não houvesse existido outro ser senão eu. E que por mim realizou infinitas maravilhas. E assim o fez para todos os seres humanos e seu Filho morreu por cada um deles, como se fossem únicos no mundo, para salvá-los da guerra que o Diabo faz aos homens.
Eu apenas entendo tudo isso, mas ele sempre me repete e trato de reter tudo. Sem embargo, confesso que fico cansado. Queria dormir.
Meu Anjo me fala sem ruído e sem palavras. É como um fluído que me penetra. Compreendo perfeitamente. Meus ouvidos, todavia não estão formados.
Ele me disse que eu sou um menininho. Ou uma menininha. Ele não sabe ou não quer me dizer. Entendo que ele sabe muitas coisas, mas que não convém me contar tudo. Ele guarda de mim uma infinidade de segredos para quando eu for maior.
Disse que se me falar demais, meu pequeno corpo vai se cansar. E é verdade, volto a sentir vontade de dormir um pouco mais.
Será minha primeira noite no seio de minha mamãe, que ainda ignora que eu existo.
Meu Anjo me disse que é melhor que ela siga ignorando.
Por que não é bom que uma mãe saiba que seu filhinho ou sua filhinha já existe?
Estou cansado. Será o primeiro sono da minha vida no suave e tíbio seio de minha mamãe. Que escuridão, meu Deus! É porque meus olhos ainda não se formaram? 

II – Meu corpo vai crescendo. 

Meus ouvidos recolhem alguns rumores de fora.
Quem é meu anjo? Como se chama?
A cada novo dia, meu Anjo me desperta com uma oração. Eu ainda não posso aprendê-la porque não tenho memória. No entanto parece-me que meu corpo já não é tão pequeninho e que chego a perceber alguns rumores que vem de muito longe.
Tudo o que está fora deste rincãozinho tíbio e suave aonde vou me criando é longe para mim.
O Anjo disse que um dia tudo isso me parecerá próximo e que então ele mesmo, que agora me cuida e me ensina, terá que distanciar-se de mim.
Isto me encheu de preocupações, o que significa que meu cérebro já começa a se formar.
Não me atrevo a perguntar ao meu Anjo como ele poderá estar longe de mim algum dia, se Deus lhe mandou ser sempre meu guardião companheiro, e como algum dia eu deixarei de estar onde estou agora, porque haverei me desenvolvido completamente.
Não sei como expressar estas coisas raras que me ocorrem e que fariam sorrir aos homens, se pudessem escutá-las; mas nem eles, nem sequer meu Anjo, as escutam, como se apenas eu mesmo me entendesse. A língua em que eu falo deve ser a língua dos Anjos que se aprende em um momento. Falando, sinto que sou uma pessoa. Ou seja, alguém que tem uma alma distinta das outras almas, uma alma que agora conversa com o Anjo e que depois conversará com os homens, conversará com minha mamãe, com meu papai e com meus irmãozinhos.
Meu Anjo me contou, e isto me deixou muito feliz, que eu tenho dois irmãozinhos, que muito tempo atrás viveram como eu, formando-se como eu estou me formando, de pouco a pouco, e agora são duas preciosas criaturas: ele tem seis anos e ela cinco. Disse-me também que eu poderia ter muito mais irmãozinhos, mas que todos morreram antes de nascer. Meu Anjo disse que meu papai odeia seus filhinhos pequenos.
Não compreendi o que isto significa, mas prestei atenção aos rumores de fora e percebi uma voz que me parece ser de minha irmãzinha. É o mais maravilhoso que eu senti em minha vida.
Contei isto ao meu Anjo e ele me disse que devo ter sonhado, pois meus ouvidos ainda não são aptos para escutar as coisas do mundo. Ouvira a ela, talvez, como posso ouvir aos anjos?
Tive outro sonho e não quis contar a ele, porque me parece que o ofenderia. É certo que eu não saiba meu próprio nome porque não me chamarei de nome algum até que eu seja ou um menininho ou uma menininha e me batizem, como ele me explicou. Mas o meu Anjo seguramente tem um nome, distinto do dos outros anjos. Por que não me contou? Eu apenas sei que o Anjo da guarda de minha mamãe chama-se Absalón, mas seu próprio nome ele tem me ocultado. Me ensina muito!
Disse-me que ainda que eu seja pequeníssimo e ele seja um Anjo poderosíssimo que todos os dias vê a Deus e a Santíssima Virgem face a face, ele não pode penetrar minha alma, aonde somente Deus penetra. Cada alma humana é como uma fortaleza fechada não só aos Anjos, senão também para os demônios, que não podem entrar nela se o dono dessa alma não lhe abre uma porta, ou uma janelinha, uma frestinha ao menos, para poder começar a seduzi-la com maus pensamentos.
Coisas muito difíceis de entender, mas que não esqueço quando meu Anjo me diz três vezes.
Mas por que digo meu Anjo, se não conheço o seu nome e estou começando a pensar que este Anjo não é o meu e que eu estou como que abandonado no mundo?
Estou morrendo de sono e vou dormir sem cumprimentá-lo. Não acredito que me pertença. Devo confiar meus segredos a quem possa contá-los a outra pessoa, ainda que essa pessoa seja minha mãe? 

III – Duvido que meu Anjo seja meu.

Já posso me mover um pouquinho.
Não esqueci nenhuma das inumeráveis lições que vem me dando o meu Anjo, melhor dizendo, este anjo. Ele afirma que sou muito inteligente, um pouquinho orgulhoso e reservado, pois não lhe conto todas as coisas que penso.
É verdade. Como vou contar que cada vez mais aumenta a minha suspeita de que ele não é meu Anjo da guarda, mas sim um intruso, e que devo tomar muito cuidado ao me comunicar com ele?
Escuto-o e aprendo. A melhor lição que me deu é a de que Deus me ama desde antes que eu existisse com um amor imenso e que a Santíssima Virgem é Mãe de Deus e também minha mãe, outra mãe que me quer mais que a que agora me leva em seu seio.
E a pior lição, que me fez estremecer de medo, é que meu papai odeia seus filhinhos não nascidos e preferiria que morressem ou que não nascessem nunca.
– Então odeia a mim? – Perguntei.
– Seu papai ignora que você existe. És tão pequeninho ainda. Ai de ti se ele soubesse! – Contestou-me o Anjo.
– E quando eu ficar maior e ele souber que eu existo, me odiará?
– Não sei; nós anjos não somos profetas. Muito temo que quando saiba que existes, ocorram coisas tremendas.
– Meu papai também tem Anjo da guarda?
– Sim, como todos os seres humanos, como a Santíssima Virgem, que teve um grande Arcanjo.
– Como se chamava esse grande Arcanjo?
– Gabriel, e foi ele quem anunciou que ela seria a mamãe do Filho de Deus, que chamamos Jesus e que é teu irmão e também irmão de todos os seres humanos que nasceram e que hão de nascer, como você.
Ao saber que eu sou nada menos que irmão de Jesus e que a Santíssima Virgem é também minha Mãe, me sinto orgulhoso e me atrevo a interrogá-lo sobre aquilo que me desperta tanta curiosidade:
– O Anjo de minha outra mamãe, a mamãe da terra, se chama Absalón. E como se chama o meu Anjo?
Então ele me responde:
– Não quero te dizer, mas você se empenha em saber tudo. Eu sou Absalón, o Anjo da guarda de sua mamãe.
– E o meu Anjo da guarda como se chama? Onde está?
– Você ainda não tem um Anjo só para ti. O de tua mamãe que sou eu cuida dela e cuida de ti. Depois, quando você vier à luz do mundo, Deus mandará um Anjo que será teu enquanto você viver e te levará ao céu quando você morrer.
– O dia em que eu vier à luz do mundo! Exclamo com desilusão. – E quando vai ser isso?
– Você é muito curioso! – Responde-me o Anjo de minha mãe.
Estou certo de que se fosse o meu próprio Anjo da guarda não acharia ruim que eu lhe perguntasse tantas coisas, porque me ensinar é seu ofício e não deve se cansar nem se negar a me responder.
Fico humilhado e triste e durmo cansadíssimo. 



... continuará.