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domingo, 23 de março de 2014

MOZART ASSASSINADO

“Sento-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher a criança, bem ou mal, havia se alojado, e dormia. Volta-se, porém, no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia nascido um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me sobre a fronte lisa, a pequena boca ingênua. E disse comigo mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa de vida. Não são diferentes dele os belos príncipes das lendas. Protegido, educado, cultivado, que não seria ele? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardineiros para os homens. Mozart criança irá para a estranha máquina de entornar homens. Mozart fará suas alegrias mais altas da música podre na sujeira dos cafés-concertos. Mozart está condenado. Voltei para o meu carro. E pensava: essa gente quase não sofre o seu destino. E o que me atormenta aqui não é a caridade. Não se trata da gente se comover com a ferida eternamente aberta. Os que a levam não a sentem. É alguma coisa como a espécie humana, e não o indivíduo, que está ferida, que está lesada. Não creio na piedade. O que atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, a gente se acomoda, como no ócio. Gerações de orientais vivem na sujeira e gostam de viver assim. O que me atormenta, as sopas populares não remedeiam. O que me atormenta não são essas faces escavadas nem essas feiúras. É Mozart assassinado, um pouco, em cada um desses homens. Só o Espírito, soprando sobre a argila, pode criar o Homem”

Antoine de SAINT-EXUPÉRY. Terra dos Homens, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 138-140.

sexta-feira, 21 de março de 2014

O CAMPO E AS RAÍZES DA CIVILIZAÇÃO

"Queremos simplesmente dizer que entre os ‘sinais’ infalíveis da decadência e da morte de uma civilização encontra-se a desertização dos campos e a acumulação da gente na cidade; a passagem de uma riqueza modesta, mas sólida, que tem solidez inclusive moral e espiritual, à uma dourada miséria interior, coincidente não com o nascimento do homem novo, senão com os abortos em cadeia do homem envelhecido e decadente: massa de nascidos abortados e cúmulo de exibição da desordem, fonte de contaminação e de irreparável desequilíbrio social, tal como hoje se converteu a cidade, inobstante seus inegáveis atrativos. É necessário começar de novo a semear se se quer que nasçam homens-trigo e não homens-joio. Do campo e da solidão é a finura do sentir: o campo é ‘religioso’; do trigo toma a força do coração; da oliva, o azeite, produtor de luz, que espanta as trevas da alma. Por que, precisamente para que a civilização das máquinas e da cidade babélica não se autodestrua e para que conserve o que tem de válido, não se restitui à ‘campina divina’ de Virgílio sua dignidade e seu decoro, sua glória, seu silêncio e sua religiosidade?Religiosidade, sim; também religião. Nada de quanto se vive é mais válido, mais resistente nem mais ‘estático’ que o dinamismo que possui a árvore. A árvore tem raízes robustas, profundas, laboriosas: a árvore se arraiga; a árvore é ‘radical’ como a evidência que não se discute porque está além de toda discussão, porque além das raízes não se pode andar: a raiz é ‘princípio’; é radical no sentido de que dá raiz, disso que não se move e está sempre no mesmo lugar, irrompe a vida que se ramifica. A árvore está sempre no mesmo posto, a espera dos invernos e dos verões, das primaveras e dos outonos, da chuva e do sol, dos ventos e das neves: toda a natureza alimenta suas raízes que, por sua vez, fazem com que a natureza seja natureza. A árvore ensina que sem arraigar não se nasce e não se cresce, não operam as potencias vitais; ensina que quem se desarraiga não vive, morre; e se vai vivendo, é utópico, informe, traidor e, por isso, ‘ímpio’; é um saco vazio que se pode encher de tudo, inclusive de seu próprio vazio; é praça e não castelo, palheiro e não torre. Assim, o homem desarraigado é levado pelo vento como uma brisa de erva seca e, por falta de raízes, destina a curvar-se como as costas dos escravos e, depois, a arrastar-se, astúcia do escravo, como os repteis. A imobilidade da árvore é o símbolo das consciências sólidas precisamente porque têm raízes que lhes fixam e princípios que não se derrubam. Parece como se a árvore fosse o contrário da fé que move montanhas. E o é, seguramente; mas esta contraposição é necessária para a fé autêntica, que, como o pensamento, vive e se nutre de oposições. Sem raízes profundíssimas e vitais, como um penetrar até a profundidade da terra, como uma provocação audaciosa dirigida a alcançar a criação em sua origem imaculada; sem raízes que cravam como um mártir a sua fé, não nasce, não se alimenta a fé que move montanhas, porque as move apenas a fé arraigada, aquela que não se desarraiga e que, ao fim, precisamente quando se agarra à cruz, erradica a erva inútil. A árvore e os pássaros do céu e os lírios do campo, confiam na Providência. Não religião da natureza, senão aproximação religiosa da natureza, fonte que alimenta o espírito religioso, o amor à ordem e às coisas boas para o governo da ordem, que implica uma finalidade que a ultrapassa, a preenche: a faz perfeita".
   
 Michele FEDERICO SCIACCA (1908-1975) 

quinta-feira, 20 de março de 2014

O CAMPONÊS E A CASA

“... para o camponês a casa é um labor dos séculos, na qual, além de uma percepção real da perpetuação da espécie, é o labor mesmo que se perpetua sobre a terra. Porque, no campo, a casa é projetada para que atravesse os séculos como os velhos armários de carvalho que os antiquários, recentemente, saquearam nas velhas casas, e que eram construídos para durar como se costuma construir tudo no campo. Do mesmo modo a casa é reino aonde, desde o primeiro o dia, o homem conhece as duas monarquias: a do pai, no mando exterior, e a da mãe, no mando interior do lar. De tal modo que quando o homem busca uma mulher, não busca apenas uma companheira, mas sim alguém que possa ser uma boa mãe para a casa. Sob essas duas monarquias sagradas, o homem aprenderá a ser, por sua vez, monarca, com a carga de deveres-direitos que isso implica, e a força de capacidades-liberdades que lhe vão sendo concedidas à medida que cresce e amadurece. A casa é também escola, com milhares de ensinamentos que não se encontram em nenhum outro âmbito e lugar de forma tão natural e sem traumas como nela. Lições de coisas, lições de vida, lições de fé, de esperança e caridade, que se dão e que se recebem cotidianamente, lições da pequena história e da pequena geografia do pequeno torrão; o lugar aonde o tio João matou um javali, a arvore sobre a qual antes se dava sal para as vacas,... lições recebidas na própria pele pela voz de testemunhas inquestionáveis, aos que o amor impede mentir e, igualmente, aos que o amor faz crescer. Escola principal sem a qual todas as demais escolas encherão a mente de conhecimentos sem encher o coração”.


José Maria GIL MORENO DE MORA (1926-1979). Salvar el campo, salvar la patria. Verbo, n. 178, pp. 929-930.