A liberdade
não se desviou subitamente para o mal. A evolução foi se fazendo
progressivamente. Segundo parece, o ponto de partida foi a benévola concepção
humanista segundo a qual o homem, senhor do mundo, não leva em si gérmen algum de
maldade, e tudo o que de viciado aparece em nossa existência é simplesmente
fruto de sistemas sociais errôneos que devem ser corrigidos. Olhai, há algo que
é deveras estranho: o Ocidente, aonde as condições sociais são melhores, tem
uma criminalidade indiscutivelmente elevada e nitidamente mais forte que a
sociedade soviética, com toda sua miséria e sua ausência de leis...
A imprensa
(emprego a palavra “imprensa” para designar todos os meios massivos de
comunicação) goza, naturalmente, também ela, da maior liberdade. Mas como usa esta
liberdade? Já o sabemos: guardando-se bem de transgredir os marcos jurídicos,
mas sem nenhuma verdadeira responsabilidade moral, se falsifica os fatos e
deforma as proporções. Por acaso o
jornalista e seu jornal são verdadeiramente responsáveis diante de seus
leitores ou diante da história? Quando, por exemplo, ao publicar uma
informação falsa ou ao tirar conclusões errôneas, enganaram a opinião pública
ou fizeram que o próprio Estado desse um passo em falso, por acaso os vimos
reconhecer publicamente sua culpa? Não, evidentemente, porque isso iria contra
a venda… Você pode apostar que agora, com renova altivez, escreverá o contrário
do que afirmou antes.
A necessidade de dar uma informação imediata com firmeza obriga a
preencher os espaços em branco com conjecturas, a fazer eco de rumores e
suposições que logo não serão desmentidos e permanecerão, portanto, na memória
dos leitores. Todos os dias, quantos juízos apressados, temerários, presunçosos
e falazes, que obscurecem o cérebro dos ouvintes, e ali se fixam! A imprensa
tem o poder de falsificar a opinião publica, e também de pervertê-la. Vemos
assim como coroa aos terroristas com os audazes lauréis de Eróstrato, como
revela assuntos secretos ainda quando pertencentes à defesa nacional, como
viola impudicamente a vida privada das celebridades ao grito de: “Todo o mundo tem direito a saber tudo”.
Este é um slogan mentiroso para um século de mentira. Porque acima deste
direito há outro, hoje perdido: o direito que o homem tem a não saber, o
direito a que não encham sua alma criada por Deus com fofocas, falatórios e
futilidades. Aquele que verdadeiramente trabalha e cuja vida está bem ocupada,
não precisa para nada desta onda superabundante de informações embrutecedoras.
A imprensa é o lugar privilegiado aonde se manifesta esta
precipitação e esta superficialidade que são a enfermidade do século XX. Foi
proibida de ir ao coração dos problemas; não está ai para isso, senão para
oferecer formulas sensacionalistas.
E, com tudo
isso, a imprensa se converteu na força
mais poderosa dos Estados ocidentais, mais poderosa que os poderes executivo,
legislativo e judiciário. Vejamos: em virtude de que lei foi escolhida e a
quem presta conta de sua atividade? No Leste comunista, um jornalista é abertamente
nomeado pelo Estado, como todo funcionário. Mas, que eleitores decidiram que os
jornalistas ocidentais tenham uma posição tão preponderante? Por quanto tempo a
ocupam e quais são seus poderes?
Acrescentemos
por fim uma peculiaridade inesperada para um homem que vem do Leste
totalitário, aonde a imprensa está estritamente unificada: se se toma em
conjunto a imprensa ocidental, observamos como também nela as simpatias se
dirigem em bloco para o mesmo lado (para onde sopra o vento do século), juízos
afirmados dentro de certos limites aceitos por todos, talvez também interesses
corporativos comuns. Tudo isto tem por resultado não a competência senão certa
unificação. A liberdade sem freios é
para a própria imprensa, não para os leitores: uma opinião só será apresentada
com certo relevo e ressonância se não está em demasiada contradição com as ideias
próprias do jornal e com essa tendência geral da imprensa.
O Ocidente, que não possui censura, opera, contudo, uma seleção
minuciosa separando as ideias que estão em voga daquelas que não estão, e se é
certo que estas últimas não padeçam de qualquer ilegalidade ou proibição, não
podem expressar-se verdadeiramente nem na imprensa periódica, nem nos livros,
nem no ensino universitário. O espírito de vossos investigadores
é muito livre, juridicamente falando, mas está totalmente cercado pela moda.
Sem que haja, como no Leste, violência aberta, está seleção feita pela moda,
esta necessidade de conformar tudo à modelos standard impede que os pensadores
mais originais aportem sua contribuição à vida pública e provoca a aparição de
um perigoso espírito gregário que obstaculiza o verdadeiro progresso. Desde que
estou nos Estados Unidos, recebi cartas de pessoas notavelmente inteligentes,
como a que mandou o professor de um “college” perdido no fundo de uma província,
cujas ideias poderiam ajudar muito a rejuvenescer e salvar seu país, mas que os
Estados Unidos não podem ouvir porque os meios de comunicação se negam a
interessar-se por ele. Assim é que os preconceitos vão se enraizando na
multidão, assim é como um país vai ficando cego, enfermidade tão perigosa em
nosso dinâmico século.
Olhai a
ilusão que tem tanta gente que imagina compreender a atual situação do mundo.
Essa ilusão forma ao redor de suas cabeças uma couraça tão dura que nenhuma das
vozes que chegam dos dezessete países do Leste europeu e da Ásia Oriental
consegue atravessá-lo, na espera de que o inevitável porrete dos acontecimentos
o faça voar em pedaços.
Alexander SOLJENITSIN. El suicidio de Occidente, Ediciones Mikael, 1983.