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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O COMUNISMO E A DEBILIDADE DO OCIDENTE

“Nos últimos tempos há certa tendência em recriar a ilusão de que “a ideologia comunista morreu”, que foi derrotada. Mas ela ainda flameja o suficiente para conquistar o mundo inteiro e tudo conduz à isso... A ideologia de todo socialismo baseia-se no poder coercitivo do Estado. Não nos enganemos. A solidariedade inspirava-se no cristianismo e não no socialismo. Essa ideologia está morta? Antes de morrer terá tempo de demolir, de conquistar todo o Ocidente e de digerir seu sangue. A ideologia comunista é uma força metafísica contrária à natureza e age a despeito das leis físicas, econômicas e sociológicas. Em vez de morrer, como deveria, triunfa graças à debilidade do Ocidente. A ideologia comunista é ainda capaz de sobreviver à União Soviética e à China comunista, porque encontrará no mundo uma terra que a nutra... Desde Gênova, em 1922, passando por Yalta e Helsinki, e a que atualmente se celebra em Genebra, os acordos serviram apenas para enganar o Ocidente, para garantir o êxito do comunismo. São vãs, pois, as esperanças atuais. A democracia ocidental se agarra, com as duas mãos, à ilusões. É cegueira supor efetivos os acordos com um adversário sem piedade, sem coração, quando a debilidade do Ocidente – resultado de três séculos de evolução europeia – reside em seus próprios fundamentos. A sociedade ocidental tal qual se manifesta hoje, cada vez mais consumista, mais alheia ao trabalho, hedonista, destruidora da família, tentada pela drogadição, ateia, paralisada pelo terrorismo, esgotou sua energia vital, perdeu sua saúde espiritual. Assim como encontra-se neste momento, a sociedade ocidental não pode sobreviver. E o socialismo, longe de ser uma solução, não é mais que outra forma do mesmo mal... Os povos submetidos [ao comunismo] seguirão rebelando-se e conseguindo êxitos ocasionais que pagarão com o seu sangue, mas se o Ocidente confia apenas nisso, como faz hoje, corre para sua perdição. As esperanças de qualquer ser vivo neste mundo devem ser apenas de ordem interior: fortalecer o próprio espirito, exaltar os autênticos valores da vida”.


__ Alexander SOLJENÍTSIN. Polônia, a lição principal, publicado no jornal L'EXPRES de 22 de janeiro de 1982.

domingo, 13 de julho de 2014

CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE

"Os demônios de Dostoiévski - aparentemente um fantástico pesadelo provinciano do século passado - estão tomando conta do mundo inteiro em frente a vossos próprios olhos, infestando países onde nunca, nem em sonho, poderiam ter proliferado; e com os sequestros, raptos, explosões e incêndios dos últimos anos estão anunciando sua determinação de abalar e destruir a civilização... O tímido mundo civilizado nada achou para opor ao furioso assalto de uma descarada barbárie de súbito rediviva, a não ser concessões e sorrisos".

___ Alexander SOLJENÍTSIN. Uma palavra de verdade...(Discurso preparado para a recepção do prêmio novel de literatura em 1970),São Paulo: Hemus, 1972, pp. 59-61.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A IMPRENSA IRRESPONSÁVEL

A liberdade não se desviou subitamente para o mal. A evolução foi se fazendo progressivamente. Segundo parece, o ponto de partida foi a benévola concepção humanista segundo a qual o homem, senhor do mundo, não leva em si gérmen algum de maldade, e tudo o que de viciado aparece em nossa existência é simplesmente fruto de sistemas sociais errôneos que devem ser corrigidos. Olhai, há algo que é deveras estranho: o Ocidente, aonde as condições sociais são melhores, tem uma criminalidade indiscutivelmente elevada e nitidamente mais forte que a sociedade soviética, com toda sua miséria e sua ausência de leis...

A imprensa (emprego a palavra “imprensa” para designar todos os meios massivos de comunicação) goza, naturalmente, também ela, da maior liberdade. Mas como usa esta liberdade? Já o sabemos: guardando-se bem de transgredir os marcos jurídicos, mas sem nenhuma verdadeira responsabilidade moral, se falsifica os fatos e deforma as proporções. Por acaso o jornalista e seu jornal são verdadeiramente responsáveis diante de seus leitores ou diante da história? Quando, por exemplo, ao publicar uma informação falsa ou ao tirar conclusões errôneas, enganaram a opinião pública ou fizeram que o próprio Estado desse um passo em falso, por acaso os vimos reconhecer publicamente sua culpa? Não, evidentemente, porque isso iria contra a venda… Você pode apostar que agora, com renova altivez, escreverá o contrário do que afirmou antes.

A necessidade de dar uma informação imediata com firmeza obriga a preencher os espaços em branco com conjecturas, a fazer eco de rumores e suposições que logo não serão desmentidos e permanecerão, portanto, na memória dos leitores. Todos os dias, quantos juízos apressados, temerários, presunçosos e falazes, que obscurecem o cérebro dos ouvintes, e ali se fixam! A imprensa tem o poder de falsificar a opinião publica, e também de pervertê-la. Vemos assim como coroa aos terroristas com os audazes lauréis de Eróstrato, como revela assuntos secretos ainda quando pertencentes à defesa nacional, como viola impudicamente a vida privada das celebridades ao grito de: “Todo o mundo tem direito a saber tudo”. Este é um slogan mentiroso para um século de mentira. Porque acima deste direito há outro, hoje perdido: o direito que o homem tem a não saber, o direito a que não encham sua alma criada por Deus com fofocas, falatórios e futilidades. Aquele que verdadeiramente trabalha e cuja vida está bem ocupada, não precisa para nada desta onda superabundante de informações embrutecedoras.

A imprensa é o lugar privilegiado aonde se manifesta esta precipitação e esta superficialidade que são a enfermidade do século XX. Foi proibida de ir ao coração dos problemas; não está ai para isso, senão para oferecer formulas sensacionalistas.

E, com tudo isso, a imprensa se converteu na força mais poderosa dos Estados ocidentais, mais poderosa que os poderes executivo, legislativo e judiciário. Vejamos: em virtude de que lei foi escolhida e a quem presta conta de sua atividade? No Leste comunista, um jornalista é abertamente nomeado pelo Estado, como todo funcionário. Mas, que eleitores decidiram que os jornalistas ocidentais tenham uma posição tão preponderante? Por quanto tempo a ocupam e quais são seus poderes?

Acrescentemos por fim uma peculiaridade inesperada para um homem que vem do Leste totalitário, aonde a imprensa está estritamente unificada: se se toma em conjunto a imprensa ocidental, observamos como também nela as simpatias se dirigem em bloco para o mesmo lado (para onde sopra o vento do século), juízos afirmados dentro de certos limites aceitos por todos, talvez também interesses corporativos comuns. Tudo isto tem por resultado não a competência senão certa unificação. A liberdade sem freios é para a própria imprensa, não para os leitores: uma opinião só será apresentada com certo relevo e ressonância se não está em demasiada contradição com as ideias próprias do jornal e com essa tendência geral da imprensa.

O Ocidente, que não possui censura, opera, contudo, uma seleção minuciosa separando as ideias que estão em voga daquelas que não estão, e se é certo que estas últimas não padeçam de qualquer ilegalidade ou proibição, não podem expressar-se verdadeiramente nem na imprensa periódica, nem nos livros, nem no ensino universitário. O espírito de vossos investigadores é muito livre, juridicamente falando, mas está totalmente cercado pela moda. Sem que haja, como no Leste, violência aberta, está seleção feita pela moda, esta necessidade de conformar tudo à modelos standard impede que os pensadores mais originais aportem sua contribuição à vida pública e provoca a aparição de um perigoso espírito gregário que obstaculiza o verdadeiro progresso. Desde que estou nos Estados Unidos, recebi cartas de pessoas notavelmente inteligentes, como a que mandou o professor de um “college” perdido no fundo de uma província, cujas ideias poderiam ajudar muito a rejuvenescer e salvar seu país, mas que os Estados Unidos não podem ouvir porque os meios de comunicação se negam a interessar-se por ele. Assim é que os preconceitos vão se enraizando na multidão, assim é como um país vai ficando cego, enfermidade tão perigosa em nosso dinâmico século.

Olhai a ilusão que tem tanta gente que imagina compreender a atual situação do mundo. Essa ilusão forma ao redor de suas cabeças uma couraça tão dura que nenhuma das vozes que chegam dos dezessete países do Leste europeu e da Ásia Oriental consegue atravessá-lo, na espera de que o inevitável porrete dos acontecimentos o faça voar em pedaços.

Alexander SOLJENITSIN. El suicidio de Occidente, Ediciones Mikael, 1983.

sexta-feira, 21 de março de 2014

UM LUGAR ESPECIAL NO INFERNO

“Você sabe, Lev Gregorich – dizia um novato a Rubin – minha cabeça está girando com esta mudança brusca. Já vivi cinquenta e dois anos e sobrevivi a doenças fatais, já estive casado com mulheres lindas, já tive filhos, já recebi prêmios acadêmicos, mas nunca me senti tão feliz como me sinto hoje! Aonde foi que cheguei? Amanhã não me empurrarão para dentro da água gelada! Quarenta gramas de manteiga! Pão preto – na mesa! Não proíbem livros! A gente pode se barbear! Os guardas não batem nos zeks. Que grande dia! Que cume deslumbrante! Será um sonho? Parece que estou no céu.
- Não, meu caro senhor – disse Rubin – o senhor está exatamente aonde estava antes, no inferno. Mas o senhor subiu para seu melhor e mais alto círculo – o primeiro círculo. O senhor me perguntava o que é uma sharashka? Foi Dante, se quiser, que inventou o conceito de sharashka. O senhor está lembrado de que Dante arrancou os cabelos para decidir onde meter os sábios da antiguidade? Seu dever de cristão era lançar aqueles pagãos no inferno. Mas a consciência do Renascimento não podia se conformar com a ideia de ter homens esclarecidos amontoados com toda sorte de pecadores e condenados a torturas físicas. Então Dante imaginou para eles um lugar especial no inferno...”.


Alexander SOLJENÍTSIN. O primeiro círculo, Rio de Janeiro: Bruguera, 1968, p. 07.

UMA ORAÇÃO NO GULAG

“Entre minhas notas encontro agora um texto que deveria ter tido as honras de toda a imprensa francesa. Ninguém o mencionou; eu mesmo não saberia dizer em que obscuro jornal semi-clandestino foram reproduzidas estas linhas. Poderiam, todavia, figurar ao lado do artigo 58, como uma das páginas mestras para a profunda compreensão do mundo contemporâneo. As devemos a um companheiro de prisão de [Alexander] Soljenítsin. Em 1944, em um campo do Arquipélago, esse homem foi acometido por uma diarreia de pelagra, devido a subalimentação. Sem médico nem medicinas, a morte parecia inevitável. E relata:
“Nem eu nem nenhum de meus companheiros sabíamos de casos de cura. Fui conduzido ao pavilhão dos moribundos. Friamente eu calculava em minha mente o tempo que me restava de vida. Mas nem minha alma nem minha mente aceitavam o veredito final. No fundo eu estava convencido de que Deus salvaria minha vida.... Havia aprendido a rezar em minha infância. Mas, na época de que falo, não tinha nenhuma ideia do que fosse a meditação. A alcancei no curso de minha luta contra a doença. Escolhi o Pai Nosso, a maior de todas as orações, a que nos foi dada pelo próprio Salvador. Me coloquei a refletir sobre cada palavra do texto. Apesar da fatiga de meu espírito, pude chegar a conclusão de que esta oração contém a totalidade das maiores ideias do Cristianismo... Transcorreram quinze dias. Me dava conta da duração e do termo de minha enfermidade. A fome deixou de afligir-me. Mais de uma vez dava à outros minha porção de ‘rata’ (péssimo refogado de batatas ou de feijão), não reservando-me senão o pão duro que eu me impunha a comer. Não me dava vontade de fumar. Os dias passam. Eu rezo. Minhas forças decaem. A enfermidade permanece. Vinte, vinte e cinco, trinta dias transcorreram. Se colocaram a olhar-me como um caso excepcional. Trinta e cinco dias, trinta e seis, trinta e sete dias... Eu rezo a Deus, como um círio aceso para Sua Glória. No quadragésimo dia, acordo com uma sensação ‘de ser’ desconhecida até então. A diarreia se deteve, recobro as forças. As lágrimas brotam de meus olhos, lágrimas de gozo, de exaltação, de reconhecimento. Deus fez um milagre em favor de um pecador como eu. Ele me marcou, a partir de agora sou um soldado da Igreja”.

Hugues KÉRALY. Los Media, religión dominante, México: Editorial Tradición, 1978.

segunda-feira, 17 de março de 2014

O DECLÍNIO DO OCIDENTE

“O valor cívico abandonou o mundo ocidental em seu conjunto, a cada um dos países de que é composto, a cada um de seus governos e, evidentemente, a Organização das Nações Unidas. Este ocaso do valor é particularmente sensível na elite dirigente e na elite intelectual dominante. (...) uma alma humana esmagada por várias dezenas de anos de violência aspira algo mais elevado, mais cálido, mais puro que àquilo que lhe pode propor hoje a existência de massas no Ocidente, que anuncia como cartão de visitas, a nauseabunda pressão da publicidade, o embrutecimento da televisão e uma música insuportável”.


Alexander SOLJENITSIN (1918-2008). Discurso na Assembléia de Graduados da Universidade de Harvard.