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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A ESSÊNCIA DA REVOLUÇÃO

O homem, que considerava autônoma sua razão e livre sua vontade para construir o mundo conforme lhe ditava aquela, não queria, não podia nem sabia suportar uma religião que anunciava a existência de um Deus pessoal, criador de todas as coisas e da ordem que as governe, acima da razão e da vontade humana; de uma religião que reconhece o pecado original do homem, tentado pela serpente com o “sereis como deuses”, e redimido pelo sangue derramado pelo mesmo Deus, feito homem na pessoa de seu Filho, encarnado por efusão do Espírito Santo na Virgem Maria; de uma religião que requer o sacrifício e a caridade – como forma mais elevada do amor – para a boa ordem das sociedades e instituições humanas. Tudo isso não pode ser suportado pela soberba do “sereis como deuses” redivivos.


Juan VALLET DE GOYTISOLO. Qual a essência e as consequências básicas da Revolução Francesa. Revista Verbo, Madri, n. 281-282, p. 150.

                Juan VALLET DE GOYTISOLO (1917-2011)

segunda-feira, 7 de julho de 2014

PANREGULAMENTAÇÃO E A ESCLEROSE PROGRESSIVA DA SOCIEDADE

“A panregulamentação é uma consequência inevitável da busca de uma justiça estrutural ligada indissoluvelmente ao monopólio estatal do direito. Significa a regulação, desde os órgãos centrais, de todas as atividades da vida até os seus mínimos detalhes: como os mestres devem ensinar; o que os alunos devem estudar; o  que o agricultor deve semear; o que, quando e quanto os comerciantes deverão exportar etc. Não se adverte que assim se mata toda a espontaneidade e toda auto-regulamentação social, se atrofiam os organismos naturais e associativos, e se satura a sociedade de aparatos ortopédicos manejados por funcionários administrativos encarregados de ativá-la mecanicamente. Com estes remédios, a sociedade vai sofrendo uma aceleração maior na esclerose progressiva a que se vê condenada”.

____Juan Vallet de GOYTISOLO. El hombre ante el totalitarismo estatal: líneas de defensa politico-juridicas. Conferência pronunciada em Roma, em 9 de abril de 1974, no II “Convegno Romano” da Fundação “Gioacchino Volpe”.

terça-feira, 18 de março de 2014

TECNOCRACIA, TOTALITARISMO E MASSIFICAÇÃO

“Com a liberação das antigas ataduras – expressão que designa a ruptura de todos os vínculos sociais do individuo, inclusive o aggionarmento antropocêntrico das crenças religiosas e o esquecimento das experiências transmitidas pela tradição – o individuo fica sozinho diante de um Estado onipotente, que se faz totalitário, embora politicamente seja uma democracia. Surge assim um ‘novo totalitarismo’, que nos mostrou Roland Huntford no denominado ‘paraíso sueco’, realização do ‘mundo novo’ vislumbrado por Aldous Huxley ... Ademais, como a desalienação das tradições – depósito vivo e sempre renovado das experiências resultantes de sua constante luta pela existência e por seu progresso – deixa o homem inerme diante de toda espécie de utopias, o torna dócil à uma opinião pública pré-fabricada pela propaganda, emitida em imagens e concretizada em slogans que, mobilizando seus desejos e ilusões, seus temores e ressentimentos, provocam nele reflexos condicionados que o priva de senso crítico em face das novidades.Ao fim e ao cabo, o Estado tecnocrático ao assumir a realização do mito de superar todas as necessidades, converte a finalidade clássica do bem comum, de ‘viver na virtude’ mediante a conquista ‘da paz, da concórdia e da tranqüila convivência na ordem’, na atual consideração como função primordial do Estado da – antes instrumental e subsidiária – de conseguir bens materiais suficientes para distribuí-los coletivamente a todos. Esta mudança radical de fins implica a centralização de um poder imenso – pois, nele, se confundem com o poder político, o econômico e o cultural -, que de fato fica nas mãos de quem detém as alavancas do poder de mando. Mas, ademais, produz o esquecimento de que a saúde da sociedade depende primordialmente da conquista da plenitude pessoal de seus membros, não só física senão também moral, intelectual e política, que requer o estímulo de seu engenho e de suas iniciativas e o incremento de seu senso de responsabilidade, de modo semelhante a como a solidez de um edifício depende da fortaleza dos materiais de que está feito, e, em especial, dos que constituem seus pilares básicos.
   
 Juan Vallet de GOYTISOLO (1917-2011). Tecnocracia, Totalitarismo y masificacion, Revista Verbo, n. 207-208, pp. 752-753.