Mostrando postagens com marcador Igualitarismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Igualitarismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 22 de julho de 2014

SOCIEDADE NIVELADA DE ALMAS EM SÉRIE

 “[vivemos em uma] humanidade de homens de mentalidade amorfa, educados apenas na ideia da igualdade e da inveja; de homens empenhados em parecer mulheres, de mulheres empenhadas em parecer homens, de clérigos obstinados em parecer seculares; de humanos em dissimular sua idade, sua condição, sua hierarquia, os limites e o sentido que ainda conserva sua vida... Sociedade nivelada de almas em série que abandonam as diferenças de situação ou de inserção humana que a constituíam em verdadeira sociedade e a guardavam de converter-se em massa ou rebanho”.

___ Rafael GAMBRA. El silencio de Dios, Madrid: Prensa Española, 1968, cap. VIII, p. 143.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

A CIDADE TOTALITÁRIA

A Cidade totalitária que se elabora ao redor de nós oferece-nos, efetivamente, um duplo espetáculo: de um lado, uma tendência ao nivelamento geral, que apaga as verdadeiras diferenças entre os homens e consequentemente a complexidade natural; e, de outro, uma complicação cada vez maior na administração da Cidade e nas condições de existência de seus habitantes. Todos os homens estão em vias de se reunir como carneiros de um mesmo rebanho e nada é mais inextricavelmente emaranhado do que as leis e os regulamentos que regem suas relações. Tecnocracia, burocracia, papelada - isso não tem nada a ver com a relação orgânica complexidade-unidade. E isso se parece muito pouco com aquele processo de "amorisação" (impregnação de amor) de que fala Teilhard Chardin.

O coletivismo não reúne os homens senão para melhor os isolar. Ele os separa uns dos outros, na medida em que os amontoa uns sobre os outros. Assim, os grãos de areia no deserto formam uma imensa massa homogênea, mas os elementos que constituem essa massa não tem entre eles nenhum vínculo interno: é a própria imagem da Cidade Totalitária em que a solidão aumenta em função da promiscuidade.

A maqueta da Cidade Futura, nós a temos já nos grandes conjuntos anônimos que crescem como cogumelos ao redor de nossas cidades e dos quais transpira, para fora como para dentro, a lepra da uniformidade e do tédio; nos rebanhos humanos em que o "condutor" substitui o pastor; nesse desenraizamento geral que solta os indivíduos, como folhas mortas, ao vento da moda e da opinião; nessa fabricação em cadeia de consciências teleguiadas que são cevadas de abstrações e de quimeras ao invés de serem nutridas de realidades.
Falam-nos de bom grado da "dimensão planetária" da humanidade de hoje. Mas quem não vê que onde essa nova dimensão (que, aliás, não é nova: todos os santos conheceram essa paixão da humanidade) não tem por fundamento e por caução um apego vivido ao próximo imediato e uma experiência de responsabilidade pessoal, ela não pode ser senão ilusão e engano? É muito bonito ser cidadão do mundo, mas é preciso começar por não ser apátrida. Saint-Exupéry refere-se a este diálogo entre um homem apegado à sua terra e um desenraizado: "Você está partindo? - Sim. - Para onde? - Para Melbourne. - Como você estará longe! - Longe de onde?". Com efeito, não há distâncias para o desenraizado. Ele não está longe de nada. Mas, em contrapartida, ele não está ligado a nada: a palavra próximo não tem o menor sentido para ele.
Nessa ordem, o uso imoderado das facilidades de comunicação - quer se trate de deslocamento no espaço ou de informação - arrisca comprometer nossa capacidade de comunhão. O próximo se distância à medida que o longínquo se aproxima. E ainda não se aproxima senão em aparência: por palavras e por imagens. O que pensar, por exemplo, desse cidadão inconsciente e organizado (mecanizado caberia melhor) que se apaixona pela guerra do Vietnã e ignora os problemas e talvez mesmo a existência de seu vizinho de andar. Que ignora até o seu próprio problema, pois não se dá conta de que não entende nada das questões acerca das quais é pedido que tome partido. E esse homem, arrancado de seu próximo e de si mesmo, vive em sonho a duas mil léguas.
Diante dessa ameaça - já em parte realizada - do formigueiro futuro, Teilhard afirma com um otimismo intrépido: "não há formigueiro se as formigas aprendem a se amar". Mas como poderiam elas aprender a se amar se a própria construção do formigueiro implica na eliminação das condições de amor, na erosão do terreno social de que ele precisa germinar? É aqui que se aplica a fundo a parábola da semente e do solo: o grão divino aborta sobre um solo humano muito empobrecido.
Victor Hugo, num clarão de lucidez profética, coloca estas palavras na boca de não sei que Demos informe, construtor da Cidade coletivista e igualitária: "eu sou tudo, o inimigo misterioso de Tudo". O número, túmulo da unidade: é aí, com efeito, que desemboca a miragem coletivista. Uma cidade em que une seus habitantes enquanto cifras e não enquanto pessoas. Que faz a soma e não a síntese. E que, em última análise, se edifica sobre as ruínas do homem real. Um organismo - se isso se pode dizer! - em que a prótese substituiu os membros: no limite, os ídolos absorvendo seus adoradores – uma sociedade sem homens.

Gustave THIBON. Coletivismo contra o social. Revista Hora Presente, São Paulo, set-outubro de 1968, n. 1, p. 127-128.

quarta-feira, 26 de março de 2014

O SILÊNCIO DE DEUS

Em um século em que reina o conformismo do absurdo e da desordem, em que o ídolo da revolução permanente se converteu no centro de atração para os rebanhos de escravos teledirigidos, não há nada mais novo nem mais insólito que pregar o retorno às fontes e defender a natureza e a tradição. “Nunca como hoje o gênio de uma época se aplicou à destruição minuciosa de sua própria Cidade humana (de seus valores e de seu sentido) até o extremo paradoxo de que o conformismo ambiental se expressa hoje pela atividade revolucionária, e que a posição insustentável, heroica, chegou a ser a conservação e a fidelidade” (cfr. Cap. I, p. 25). A “Cidade dos homens” que defende Rafael GAMBRA era constituída por um conjunto de laços vivos e vividos que, através dos diferentes níveis da criação, mantinham o homem unido à sua origem e o orientava para seu fim. A casa, a pátria, o templo, o protegiam contra o isolamento no espaço; os costumes, os ritos, as tradições, ao fazer gravitar as horas em torno de um eixo imóvel, o elevavam acima do poder destrutor do tempo. Hoje presenciamos a agonia desta “Cidade dos homens”. O liberalismo, ao isolar os indivíduos, e o estatismo, ao reagrupá-los em vastos conjuntos artificiais e anônimos, transformaram a sociedade em um imenso deserto aonde as areias sem rumo são arrebatadas nos torvelinhos do vento da história. E o homem, vítima deste fenômeno de erosão, já não tem morada no espaço (se encontra, ao mesmo tempo, na prisão e no deserto), nem ponto de referência em um tempo pelo que corre cada vez mais depressa sem saber para aonde vai. As Cidades de outrora, ao enlaçar o homem com as realidades visíveis e invisíveis, o ajudavam a elevar-se sobre si mesmo. Hoje em dia, o ideal que lhe é proposto não é vertical, senão horizontal: está na corrida mesmo, na “fuga para frente”, e não no crescimento espiritual. Em lugar de tentar produzir um arquétipo eterno, o homem deve se deixar arrastar por um movimento perpétuo e sempre acelerado. (...) As antigas formas da sociedade, ao impregnar de sagrado quase todas as manifestações da vida temporal, penetravam o eterno no tempo e Deus se fazia presente na história. Mas esta aliança do social e do divino desmorona quando o homem não reconhece outro deus que ele mesmo, nem outra pátria que o mundo temporal transformado e desfigurado por suas mãos. E se aproxima a grandes passos a hora em que a idolatria do porvir lhe ocultará a eternidade.Esta será, sem dúvida, para os últimos fieis, a suprema prova da fé. A pureza, o heroísmo dessa fé serão medidas pela resistência do pneuma divino, interior e livre (spiritus fiat ubi vult) em relação ao vento servil da história. Ante o silêncio de Deus, os crentes de amanhã terão talvez que escolher entre a realidade invisível de uma eternidade em aparência sem provir e a miragem brilhante de um porvir sem eternidade. BÉRULLE definia o homem como “um nada capaz de Deus”. Mas eis que esse homem se transforma cada vez mais em um falso deus, incapaz do Deus verdadeiro. Chegaremos até o termo desta subversão e haverá que desaparecer da Cidade dos homens? Rafael GAMBRA se compraz em repetir as palavras demasiado lucidas de TAINE: “nenhum homem sensato pode já esperar”. Mas não esqueçamos (cito novamente Françoise CHAUVIN) que a “lucidez é a pior das cegueiras se não vê nada mais além daquilo que se vê”. O cristão, imitando o apóstolo São Paulo, está obrigado a esperar contra toda esperança (contra spem in spe), porque Cristo venceu o mundo e está vitória abarca a totalidade do tempo e do espaço. E, por incertas que sejam as probabilidades de êxito, nossa missão aqui embaixo consiste em restaurar pacientemente, em nós e em nosso redor, as condições para uma restauração da Cidade dos homens; quer dizer, em preparar um porvir à eternidade.Com este chamado termina este belo livro. Nosso desejo mais fervoroso é que seja escutado, no segredo das almas, como um eco do silêncio de Deus. 
Gustave THIBON. Prólogo do livro "El silencio de Dios" (Ciudadela, 2007), do ilustre pensador espanhol Rafael GAMBRA CIUDAD  (julho de 1920 – janeiro de 2004).


sexta-feira, 21 de março de 2014

O HOMEM AUTÔMATO

“Sinto-me hoje profundamente triste – e triste em profundidade. Sinto-me triste por causa da minha geração, vazia de toda substância humana, geração que só conheceu o bar, as matemáticas e os Bugatti como forma de vida espiritual e se entrega hoje a uma ação estritamente gregária, que já não tem cor alguma... Não lhe parece que já não se pode viver de frigoríficos, de política, de balanços e de palavras cruzadas? Não podemos mais. Não se pode viver mais tempo sem poesia, sem cor, nem amor... Desculpe-me, mas já só nos resta a voz do autômato da propaganda. Dois milhões de homens já só ouvem o autômato, já só compreendem o autômato, convertem-se em autômato... O homem autômato, o homem térmita, oscilante entre o trabalho em cadeia segundo o sistema de Bedeau e a bisca... o homem castrado do seu poder criador e que, do fundo da sua aldeia, nem sequer já sabe criar uma dança nem uma canção. O homem que se alimenta de cultura confeccionada, de cultura ‘standard’ como os bois se alimentam de feno. O homem de hoje é isso”.

Antoine de SAINT-EXUPÉRY (1900-1944). Carta ao General “X”. 


segunda-feira, 17 de março de 2014

A ABOLIÇÃO DO ESPÍRITO

“[Aldous Huxley] quis mostrar uma sociedade ‘cientifica’ que não deixou nem rasto do direito natural nem da velha preocupação da justiça, uma sociedade na qual o ingênuo se sacrifica à coletividade, aonde se encontram todas as comodidades materiais e já não se experimenta a necessidade de algum tipo de assistência espiritual, porque, com uma sagaz utilização dos reflexos condicionados, se suprimiram as tendências espiritualistas do homem. Em uma palavra, se eliminou a dor moral e a angustia metafísica mediante a abolição do espírito. É o regresso do homem a uma existência puramente animal”.
R. P Alfredo SÁENZ. El Nuevo Orden Mundial en el pensamiento de Fukuyama, Ediciones del Pórtico, Buenos Aires: 2000, p. 118.

O HOMEM MODERNO

“O sintoma mais geral dessa anemia espiritual, responderei com segurança: a indiferença diante da verdade e da mentira. Hoje em dia, a propaganda prova o que quer e se aceita mais ou menos passivamente o que propõem. (...) Essa indiferença oculta um cansaço, uma espécie de asco da faculdade de julgar. Mas a faculdade de julgar não pode exercitar-se sem certo compromisso interior. Quem julga se compromete. O homem moderno já não se compromete porque já não têm nada o que comprometer”

Georges BERNANOS (1888-1948). La libertad ¿para que?, trad. de O. Boutard, Buenos Aires, Libreria Hachette, 1955, p. 97.


O ESPÍRITO DO MUNDO

“O espírito do mundo, o ‘consenso’ geral, o relativismo invasor, o sentimentalismo, a intolerância da ‘tolerância’, se assemelham a uma maré sem refluxo, que cresce sem cessar, que nos cobre, nos cala, nos afoga até deixar-nos sem palavras”.
Alberto CATURELLI. La moral católica del matrimonio y la familia, Revista Gladius, número 54, 2002, p. 109.



IGUALITARISMO, RESSENTIMENTO E INVEJA

"O igualitarismo crasso dos movimentos políticos contemporâneos, integrante das heresias comunista e liberal, não é senão uma transposição aos bens terrenos da heresia de Joviano, condenada pelo Concílio de Florença em virtude deste artigo: De si um homem pode ser mais bem-aventurado do que outro (I-II, q. 5, a. 2); heresia renovada depois por Lutero, o avô indiscutível de toda a heterodoxia moderna. Max Scheler, depois de Nietzsche, mostrou como este obcecado igualitarismo obsessivo procede do afeto ulceroso chamado Ressentimento, cuja anatomia fez preclaramente em seu livrinho ‘Ressentiment und moralisches Werturteil’. Falando simplesmente, é o pecado capital da inveja em um de seus graus avançados. O ressentido social sofre da superioridade alheia até querer que o outro seja igualado a ele por baixo. Isto se torna tão enfermiço de modo que se chega a amar o abjeto como abjeto, negando primeiro o valor que não tem e depois alterando intelectualmente inclusive a escala natural de valores. Este efeito engendra o prurido de destruir e decapitar, que caracteriza as revoluções de massas. Também cria o tipo do ambicioso, aquele que apenas comparando-se com o outro e vendo-se mais do que ele pode perceber o próprio bem; de onde entra o continuo desejo de subir por subir. Contra esta enfermidade de igualar destruindo, que afeta enormemente o nosso tempo, estão as palavras de Cristo: ‘sempre haverá pobres’ – na terra; e ‘os últimos serão os primeiros’ – no céu”.
R. P. Leonardo CASTELLANI. Comentarios en la Suma de Teología de Santo Tomás, tomo V, Ed. Club de Lectores.

domingo, 16 de março de 2014

QUANDO O DIPLOMA FAZ O HOMEM

"Já não se preocupam as famílias com a formação do caráter e dos costumes de seus rebentos: ou elas lhes buscam estabilidade e segurança, em lugar de insuflar a vitalidade que lhes permitiria chantar-se no real e traçar o próprio caminho na vida, ou então os abandonam sem guias ou apoio, o que dá no mesmo: ante o temor supersticioso do futuro, procuram salvaguarda, proteção e defesa contra os riscos e os golpes da fortuna. Não há como ser diferente numa sociedade privada de modelos e de elites que os encarnem. Para os adolescentes desvitalizados, o diploma aparece como a única saída, porque ele é o caminho mais fácil, não obstante o peso dos programas. Eles não dão a menor importância – e como poderiam? – aos fatores essenciais à vida: o caráter, a retidão da vontade, a honra, o dever, o senso moral e estético, etc., mas julgam somente a inteligência formal – o diploma é que faz o homem".

Marcel de CORTE. L'homme contre lui-même.

IGUALDADE NA ESCRAVIDÃO

 Michele Federico Sciacca (1908-1975)
"Mas cultura é liberdade, e não há liberdade sem cultura (...). Sem ela, a 'democratização' do ensino e da cultura desliza pela pendente de um igualitarismo que leva fatalmente a uma submissão das massas à um poder totalitário, seja qual for a modalidade que se configure. O igualitarismo puro, morte da inteligência, da cultura e da liberdade, é a igualdade na escravidão".

Michele Federico SCIACCA. La inteligencia planificada, Verbo (Madri), n. 153-154, 1977.