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domingo, 20 de setembro de 2015

CONTEMPLAÇÃO DA PESSOA AMADA


"Enquanto avançamos aos tropeços, quilômetros a fio, vadeando pela neve ou resvalando no gelo, constantemente nos apoiamos um no outro, erguendo-nos e arrastando-nos mutuamente. Nenhum de nós pronuncia uma palavra mais, mas sabemos neste momento que cada um só pensa em sua mulher. Vez por outra olho para o céu onde vão empalidecendo as estrelas, ou para aquela região no horizonte em que assoma a alvorada por trás de um lúgubre grupo de nuvens. Mas agora meu espírito está tomado daquela figura à qual ele se agarra com uma fantasia incrivelmente viva, que eu jamais conhecera antes na vida normal. Converso com minha esposa. Ouço-a responder, vejo-a sorrindo, vejo seu olhar como que a exigir e a animar ao mesmo tempo; e - tanto faz se é real ou não sua presença - seu olhar agora brilha com mais intensidade que o sol que está nascendo. Um pensamento me sacode. É a primeira vez na vida que experimento a verdade daquilo que tantos pensadores ressaltaram como a quintessência da sabedoria, por tantos poetas cantada: a verdade de que o amor é, de certa forma, o bem último e supremo que pode ser alcançado pela existência humana. Compreendo agora o sentido das coisas últimas e extremas que podem ser expressas em pensamento, poesia - e em fé humana: a redenção pelo amor e no amor! Passo a compreender que a pessoa, mesmo que nada mais lhe reste nesse mundo, pode tornar-se bem-aventurada - ainda que somente por alguns momentos - entregando-se interiormente à imagem da pessoa amada. Na pior situação exterior que se possa imaginar, numa situação em que a pessoa não pode realizar-se através de alguma conquista, numa situação em que sua conquista pode consistir unicamente num sofrimento reto, num sofrimento de cabeça erguida, nesta situação a pessoa pode realizar-se na contemplação amorosa da imagem espiritual que ela porta dentro de si da pessoa amada. Pela primeira vez na vida entendo o que quer dizer: os anjos são bem-aventurados na perpétua contemplação, em amor, de uma glória infinita..."

____ Viktor FRANKL. Em busca de sentido.


Obs.: Enviado por KATHREN Silveira

O MITO E A REALIDADE DO AMOR

"Um só Tristão para uma só Isolda". Todo o amante julga única a sua bem-amada. É falso e é verdadeiro. O amor, como os contos de fadas, é uma mentira e uma realidade. Mentira, quando pretende aplicar-se às aparências terrestres, e realidade, como símbolo da vida espiritual e divina. Tem três graus: o sonho, que é uma aparência de aparência, depois esta aparência um pouco mais sólida do que nós chamamos o real, e enfim a verdadeira realidade, pressentida através do sonho e experimentada pela realidade imperfeita da vida quotidiana, a qual fecha o ciclo e nos põe em contacto com o eterno.
Todos os amorosos julgam possuir um ser eleito entre todos e encontrado por milagre. É estúpido, porque, não dispondo de uma escolha infinita, e impelidos por esta força essencialmente cega e anônima que é a sensualidade, são obrigados a contentar-se com o que encontram. O melhor amor, no princípio, não passa da combinação de uma necessidade e de um acaso. E o que nós amamos na bem-amada, é mais a posse do que o objecto, a consolação do que a consoladora. A própria fidelidade nada prova. Há homens de hábitos que se prendem a uma mulher, como certos amadores de vinho que só querem beber carrascão ou certos automobilistas que ficam sempre fiéis ao mesmo tipo de carro...
O amor verdadeiro começa quando a gente reconhece que o amor das criaturas não existe e que o ser "eleito" não passa de um alimento oferecido à nossa fome pelo acaso dos encontros ou de um equívoco e uma ilusão do nosso caminhar às cegas para o absoluto. Qualquer outro teria fàcilmente ocupado o mesmo lugar, porque não há pão duro para quem tem fome e toda a madeira é boa para fazer ídolos. A revelação é dura, mas deste banho de verdade, vasto e amargo como um oceano, vê-se surgir, como uma aparição que dissipa as aparências, um novo amor da criatura que nada mais deve à necessidade, ao acaso, e a mentira; este amor é puro, porque reconheceu e se despojou de todas as medidas, invulnerável, porque atravessou a morte, único, porque encontra no ser amado a imagem virgem do Deus criador. Mas antes de ressuscitar faz morrer, e é por detrás da lia do nada que se saboreia o ser.
Assim, nós não amamos um ser porque ele é único, pelo contrário, porque nós o amamos é que ele se torna único. É o amor que nos eleva à existência imutável e imortal; ele é "forte como a morte", porque, como ela, nos arranca ao tempo e às aparências. Antes de amarmos e sermos amados, não temos verdadeira existência; não passamos de uma nebulosa de possibilidades confusas e quase anônimas. O amor liberta-nos da massa informe e comum, do vão turbilhão dos átomos inseparáveis; de duas solidões faz uma. Assim, todos os blocos de mármore do mundo se assemelham mais ou menos; mas quando Miguel Ângelo escolheu um deles, ou fosse por acaso ou para esculpir o seu sonho, todos os acasos são imediatamente ultrapassados, e a forma da estátua corresponde a uma ideia única de um Deus eterno. E a matéria e a forma da obra tornam-se inseparáveis para sempre.
É precisamente o milagre do amor transformar os encontros do acaso em dons da Providência, e revelar-nos, através das provas que matam em nós tudo o que é mortal, a frágil e divina centelha de um amor irredutível a todos os denominadores comuns da matéria e do tempo. Como, sem passar pela morte, saberíamos nós que temos algo de imortal?


___ Gustave THIBON. O olhar que se esquiva à luz, Porto: Livraria Figueirinhas, 1957.

A VERDADEIRA FIDELIDADE

Caminha no teu amor, mas não esperes que a alegria te siga passo a passo. A felicidade não é a sombra do amor. Quando o amor avança, ela parece por vezes dormir ou recuar. Mas quando o teu amor tiver atingindo o seu fim que é Deus, a alegria unir-se-á de novo a ti num bater de asas e não te abandonará jamais.

A verdadeira fidelidade consiste em fazer renascer indefinidamente aquilo que nasceu uma vez, esses pobres gérmens de eternidade postos por Deus no tempo, que a infidelidade rejeita e a falsa fidelidade mumifica. Só o nascimento tem encanto, dizem os amantes da mudança; mas quem nao é capaz de renascer não chegou nunca a nascer, (há neste mundo mais abortos que nascimentos). O gesto de colher a flor é tão virgem como o de lançar o grão e o que não sabe esperar a colheita nada soube também da alegria e do amor do semeador: limitou-se a mover as mãos e embriagou-se com o seu gesto; não semeou...


Gustave THIBON. O que Deus uniu, Editorial Aster - Collecção Éfeso.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O AMOR É

“Assim me foi revelado progressivamente que não era preciso ouvir os homens, mas compreendê-los. Lá em baixo na cidade, sob os meus olhos, a gente pouca consciência tem da cidade. Eles julgam-se arquitetos, pedreiros, guardas, padres, tecedores de linho, julgam-se pelos seus interesses ou pela sua felicidade e não sentem o amor, da mesma maneira que o não sente aquele que vagueia pela casa, todo absorvido pelas dificuldades do dia. O dia é para eles cenas do lar. Mas, à noite, aquele que discutiu volta a encontrar o amor. E o homem assoma à janela, à luz das estrelas, de novo responsável por aqueles que dormem, pelo ganho do pão, pelo sono da esposa que está mesmo ali do lado, tão frágil e delicada e passageira. No amor não se pensa. O amor é”.


__ Antoine de SAINT-EXUPÉRY. Cidadela, trad. de Alípio Maia de Castro, Lisboa-São Paulo, Aster-Quadrante, p. 286.


sábado, 19 de julho de 2014

O IMPÉRIO DA MENTIRA

“A sociedade não totalitária têm como evidente que o passado e o presente estão ligados organicamente – pela via da tradição, da memória comum, da continuidade das leis – e que o presente não deve ser sacrificado por um porvir sempre problemático; o passado, igualmente, não deve ser reescrito segundo as regras subversivas do Newspeak orweliano em nome de um suposto imperativo da atualidade. Uma sociedade que não observa estes princípios é fundada sobre o ódio ao homem, à realidade e ao tempo. Os lideres ideólogos manipulam estas três coisas. O resultado é a mentira denunciada sem cessar por alguns críticos: a mentira em relação à natureza humana, à estrutura do ser e à história. O objetivo último dos que desfiguram a imagem do homem concebido no amor, é o de mentir sobre a criação”.


__ Thomas MOLNAR.  El amor y su deformacion moderna, Revista Verbo (Madri), n. 185-186, 1980, pp. 555-565.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

O AMOR E O AMOR-PRÓPRIO

"O amor, o verdadeiro amor tem um conhecimento penetrante, candente, fino, lúcido; tem um conhecimento de ressonância profunda, de identificação, de conaturalidade. O amor, o verdadeiro amor advinha, penetra, descobre, simpatiza, faz suas as aflições do outro, dá ao outro suas próprias alegrias. É compreensivo. Mas não é compreensivo no sentido que se dá a esse vocábulo, quando quer significar uma tolerância que fecha os olhos. Não. O amor verdadeiro é compreensivo num sentido maior, que não fecha os olhos, mas que também não fecha o coração. Vê as falhas do outro, vê as misérias do outro, com uma generosa inquietação, com uma piedosa solicitude. Mas vê. Vê com amor. Mas vê. E é nessa visão que ele encontra as forças de paciência para os dias difíceis, e que se defende das amargas decepções. A miséria, o defeito, a falha, apresentados pelo amor, conservam sempre a dignidade do contexto em que foram apreendidos, sem sacrifício da veracidade. Porque o amor é veraz; é verídico; é essencialmente amigo da verdade. E como compete à razão guiar a alma nos caminhos da verdade, segue-se com lógica irresistível que a razão é o piloto do amor. Mas há um amor que é efetivamente cego; um amor que não é verídico; um amor que não é compreensivo; um amor que não é transformante, e que não ressoa, que não simpatiza, que não advinha, que é inimigo da verdade. É o amor-próprio. Cegueira voluntária, o amor-próprio se compraz nas mentiras que agradam as paixões. Princípio de divisão interna, o amor-próprio divide o homem de si mesmo".


___ Gustavo CORÇÃO. Amor, casamento, divórcio, A Ordem, Fevereiro de 1952.


segunda-feira, 7 de julho de 2014

INFERIORIDADE NATURAL, ORGULHO E AMBIÇÃO

"A inferioridade natural não é mal nenhum. A desordem começa onde começam o orgulho e a ambição. Quem é humilde ama a sua miséria, sem que para isso precise de a dourar. Não se perturba, por se ver inferior aos outros. Porque é humildade, não tem no coração qualquer ídolo a defender, como o falso verniz das ilusões, contra o fulgor incoercível da verdade. Ser humildade é viver a própria independência em relação ao ser exterior. É sentir-se alegremente oferecido, doado, entregue à realidade extrapessoal. É prestar para alguma coisa, no mundo. É viver para além das próprias diversões. A vontade do humilde situa-se, por conseguinte, sob o signo da liberdade e do Amor. Em vez de se fechar no seu próprio egoísmo, o “eu” do humilde abre-se livremente para o Amor”.

__ Gustave THIBON. A Escada de Jacob, Lisboa: Editorial Aster, p. 31-33.


sábado, 5 de abril de 2014

O AMOR CONJUGAL E O ESPLENDOR DE NOSSA EXISTÊNCIA


Se não há outro luxo na vida que uma mão que se estende ou o calor de um olhar que nos diz: “não estás só, estou contigo”, será preciso concluir que só em germe esse luxo se encontra na amizade. Porque a amizade é plural e hierarquizada e sempre estabelece algumas reservas e condicionamentos. Somente no amor se realizará essa autentica luz ou esplendor de nossa existência. Não no amor tomado em seu sentido genérico, que inclui em si a amizade, ou companheirismo e outras mil formas de relação humana, senão em seu sentido estrito, aquele que se cimenta em estranhas afinidades seletivas entre o homem e a mulher. Somente neste laço humano pode culminar essa entrega mutua que nos salva da solidão e do exílio. Laço que é excludente e exclusivo dentro de seu gênero, e que se apresenta sempre com a pretensão de perenidade. Relação humana que pode ser capaz de superar as limitações e peripécias de cada vida humana e de amadurecer ao longo do tempo, penetrando desde as camadas biológicas até a entranha mesma da alma, o apex mentis (ápice da mente ou da personalidade) de que falava São Boaventura. “É assim – exclama Saint-Exupéry – como eu concebo a felicidade: o milagre de um rosto radiante, o mundo inteiro que se resume nele e se nos oferece. Que maravilha!” O amor não nasce do dialogo nem de prévios critérios estéticos ou eróticos: não existe justificação racional para o nascimento do amor. Transcende o tempo e ultrapassa os limites da morte. Para quem ama não existe um antes de seu amor porque em tudo o vê e recorda, como oferenda, através do ser amado. Nem se produz um depois absoluto porque o dialogo interior que é o pensamento não elimina pela morte esse único interlocutor profundo que é a pessoa amada. A rosa que o Pequeno Príncipe rega e abriga em seu pequeno asteroide sublima a mulher amada, mais concretamente a esposa, porque para Saint-Exupéry não existe outra plenitude que a do amor conjugal: “se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, de noite, olhar o céu: todas as estrelas estão floridas”. Apenas no matrimônio essa entrega mutua em que consiste o amor costuma consumar-se; apenas nele se opera o amadurecimento de quanto o nascimento de um verdadeiro leva em germe. Em uma longa vida conjugal o amor não se consome como a lenha em uma fogueira, senão que se transforma e sublima. O que a paixão primeira perde em intensidade ganha em profundidade, em compenetração e em ternura. O amor autêntico não é planta chamada a ser efêmera, como ocorre com os amores plurais. Estes deixam sempre na alma um resíduo de frustração e de incoerência. Apenas o amor permanente, compenetrado, paga pelo tempo que se foi.
Rafael GAMBRA. El exílio y El reino. Revista Verbo n. 231-232.

quarta-feira, 26 de março de 2014

O AMOR QUE NÃO SE ELEVA, MORRE.

O amor que não se eleva, morre. As alegrias e os êxtases, a não ser que rejuvenescidas pelo sacrifício, transformam-se em simples amizades. A mediocridade é o castigo de todos aqueles que se recusam a juntar ao seu amor o sacrifício, preparando-o assim para horizontes mais amplos, para cumes mais elevados. 
Fulton J. SHEEN. O Primeiro Amor do Mundo, p. 205.

domingo, 23 de março de 2014

AMOR E RESPONSABILIDADE

“A etimologia da palavra responsabilidade proporcionada pelo excelente dicionário de Littré é suficientemente esclarecedora. Responsabilidade deriva de 'res' e de 'sponsus': esposo, noivo. Ser responsável por alguma coisa é estar unido a esta coisa por laços análogos aos que unem o esposo e a esposa. O que leva imediatamente consigo a ideia de escolha, de promessa, de fidelidade, em uma palavra, amor. Além de toda obrigação de tipo moral e jurídica o homem se sente responsável espontaneamente por aquilo que ama.”


Gustave THIBON. El equilibrio y la armonía, Barcelona: Belacqua, 2005.