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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

AS COISAS SUPREMAS...

“...as coisas supremas florescem apenas do outro lado do túmulo. Mas elas começam aqui embaixo, e a frágil semente delas está em nossos corações, e nada floresce no Céu que não tenha antes germinado na terra”.
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Gustave THIBON. A escada de Jacob, Porto: Editorial Aster, Coleção Éfeso.

quarta-feira, 9 de março de 2016

O QUE É A FELICIDADE?

Durante uma troca de pontos de vista, em que eu havia falado sobre as condições de uma vida harmoniosa, um de meus interlocutores me perguntou boquiaberto: “Ah, mas o senhor é feliz?”.
Pego de surpresa, pois nunca havia pensado na questão, contestei, tolamente, que não sabia.
Antes de tudo, o que significa ser um homem feliz? Péguy disse, em um célebre texto, que a grande, a terrível descoberta de todos os homens de quarenta anos é constatar que não se é feliz, que ninguém foi e que ninguém jamais será feliz. Sem dúvida, queria falar essa plenitude absoluta e permanente que se sonha na juventude e que, efetivamente, jamais existirá, pois não só suporia uma concordância perfeita do homem consigo mesmo, mas circunstancias exteriores sempre favoráveis, duas coisas impossíveis de ocorrer aqui embaixo. E pela razão de que cada elemento de nosso destino capaz de fazer-nos felizes trás, igualmente, em si, a capacidade fazer-nos sofrer, no mesmo nível e na mesma proporção. E isso em todos os planos de nossas necessidades e de nossos desejos. A saúde física é uma das condições da felicidade. Mas o corpo humano, maravilhoso instrumento de prazer por sua sensibilidade, pelo mesmo motivo se converte em uma fonte inesgotável de sofrimento quando a enfermidade se abate sobre ele.
O mesmo ocorre com os bens exteriores como a fortuna, o êxito social, as honras, etc. Estes nos decepcionam duplamente: por sua privação, caso se fracasse em sua busca, ou pelo vazio que deixam em nós, caso sejam obtidos.
Um breve olhar sobre os grandes desse mundo nos ensina que o leque de seus privilégios está longe de englobar o da felicidade...
Restam os bens espirituais, cuja fonte é inegavelmente mais pura e menos intermitente. Mas a mesma lei opera sobre eles em outro plano.
A inteligência nos proporciona grandes alegrias, mas suas próprias luzes fazem sentir seus limites e assinalam amargamente nossa impotência ante o mistério. “Quem multiplica o saber multiplica a dor”, dizia o Eclesiastes. Do qual faz eco Voltaire em sua carta a Madame du Deffand: “No fundo, só os imbecis são infelizes, mas por desgraça a creio pouco dotada para essa felicidade”.
O sentido da beleza tem, igualmente, um duplo fio: por ele gozamos das maravilhas da natureza e da arte, mas também somos dolorosamente alérgicos a todas as formas de fealdade.
O amor, a amizade, nos preenche, mas sofremos na mesma medida quando o ser amado é golpeado pelo mal ou nos é arrebatado pela morte.
E quanto à sabedoria, quer dizer, a santidade, se nos dá a paz interior, tem como preço as feridas que inflige aos seres mais puros a presença universal do mal. Quem disse que a maturidade da alma se reconhecia pela passagem da paixão à compaixão? Mas compadecer é sofrer.
O bem e o mal; ao estar indissoluvelmente unidos aqui embaixo o bem e o mal, a alegria e a pena, resulta que o verdadeiro problema não é ser feliz ou desgraçado: é ser um ou outro no nível mais elevado de cada qual. É ter alegria e sofrimentos autênticos e não deixar-se fascinar pela posse ou privação de ninharias. Não se deixar tomar por dores vãs e felicidades ilusórias. Se necessário, consumir-se, mas não em qualquer fogo.
Parece que hoje tudo conjura contra essa concepção seletiva da existência. O clima de facilidade e de desfrute em que vivemos, ao multiplicar em todos os planos as necessidades, que aumentam sempre mais rapidamente que as possibilidades de satisfazê-las, socavam a base de nossa capacidade de experimentar verdadeiras alegrias e verdadeiros sofrimentos. Para muitos de nossos contemporâneos, não resta mais que a mediocridade de uns pequenos prazeres e de uns pequenos aborrecimentos, avantajando, ademais os segundos aos primeiros com grande diferença, pois o homem, obcecado pela excessiva busca da felicidade, vive em um estado de permanente insatisfação que o faz indiferente ao que possui e avido do que lhe falta. A fome, provocada e mantida artificialmente, se transforma em incurável saciedade. Dai uma frustração em duas fases: “tenho que obter isso custe o que custar”; e depois: “Não era nada de mais; busquemos outra coisa”. Há que se concluir que não se separa impunemente a busca da felicidade do conjunto das atividades, dos deveres e das virtudes, que são a trama de toda existência autentica.
Os grandes personagens aos que a humanidade reconhece com seus modelos e guias preocuparam-se, por acaso, alguma vezes de sua pequena felicidade individual? Obedeceram à sua vocação sem se esquivar os riscos nem das desgraças que as acompanha e, as vezes, chegando até o sacrifício de sua vida; e a felicidade, na medida em que é possível neste mundo, lhe foi dada por acréscimo. Pois a vida é indivisível; se em nome do famoso “direito à felicidade” com que nos martelam os ouvidos, se tenta dissolvê-la, se chega ao irrisório resultado de ficar-se só com o liquido.


Gustave Thibon. El equilibrio y la armonía, Belacqva, 2005.

domingo, 20 de setembro de 2015

O MITO E A REALIDADE DO AMOR

"Um só Tristão para uma só Isolda". Todo o amante julga única a sua bem-amada. É falso e é verdadeiro. O amor, como os contos de fadas, é uma mentira e uma realidade. Mentira, quando pretende aplicar-se às aparências terrestres, e realidade, como símbolo da vida espiritual e divina. Tem três graus: o sonho, que é uma aparência de aparência, depois esta aparência um pouco mais sólida do que nós chamamos o real, e enfim a verdadeira realidade, pressentida através do sonho e experimentada pela realidade imperfeita da vida quotidiana, a qual fecha o ciclo e nos põe em contacto com o eterno.
Todos os amorosos julgam possuir um ser eleito entre todos e encontrado por milagre. É estúpido, porque, não dispondo de uma escolha infinita, e impelidos por esta força essencialmente cega e anônima que é a sensualidade, são obrigados a contentar-se com o que encontram. O melhor amor, no princípio, não passa da combinação de uma necessidade e de um acaso. E o que nós amamos na bem-amada, é mais a posse do que o objecto, a consolação do que a consoladora. A própria fidelidade nada prova. Há homens de hábitos que se prendem a uma mulher, como certos amadores de vinho que só querem beber carrascão ou certos automobilistas que ficam sempre fiéis ao mesmo tipo de carro...
O amor verdadeiro começa quando a gente reconhece que o amor das criaturas não existe e que o ser "eleito" não passa de um alimento oferecido à nossa fome pelo acaso dos encontros ou de um equívoco e uma ilusão do nosso caminhar às cegas para o absoluto. Qualquer outro teria fàcilmente ocupado o mesmo lugar, porque não há pão duro para quem tem fome e toda a madeira é boa para fazer ídolos. A revelação é dura, mas deste banho de verdade, vasto e amargo como um oceano, vê-se surgir, como uma aparição que dissipa as aparências, um novo amor da criatura que nada mais deve à necessidade, ao acaso, e a mentira; este amor é puro, porque reconheceu e se despojou de todas as medidas, invulnerável, porque atravessou a morte, único, porque encontra no ser amado a imagem virgem do Deus criador. Mas antes de ressuscitar faz morrer, e é por detrás da lia do nada que se saboreia o ser.
Assim, nós não amamos um ser porque ele é único, pelo contrário, porque nós o amamos é que ele se torna único. É o amor que nos eleva à existência imutável e imortal; ele é "forte como a morte", porque, como ela, nos arranca ao tempo e às aparências. Antes de amarmos e sermos amados, não temos verdadeira existência; não passamos de uma nebulosa de possibilidades confusas e quase anônimas. O amor liberta-nos da massa informe e comum, do vão turbilhão dos átomos inseparáveis; de duas solidões faz uma. Assim, todos os blocos de mármore do mundo se assemelham mais ou menos; mas quando Miguel Ângelo escolheu um deles, ou fosse por acaso ou para esculpir o seu sonho, todos os acasos são imediatamente ultrapassados, e a forma da estátua corresponde a uma ideia única de um Deus eterno. E a matéria e a forma da obra tornam-se inseparáveis para sempre.
É precisamente o milagre do amor transformar os encontros do acaso em dons da Providência, e revelar-nos, através das provas que matam em nós tudo o que é mortal, a frágil e divina centelha de um amor irredutível a todos os denominadores comuns da matéria e do tempo. Como, sem passar pela morte, saberíamos nós que temos algo de imortal?


___ Gustave THIBON. O olhar que se esquiva à luz, Porto: Livraria Figueirinhas, 1957.

A VERDADEIRA FIDELIDADE

Caminha no teu amor, mas não esperes que a alegria te siga passo a passo. A felicidade não é a sombra do amor. Quando o amor avança, ela parece por vezes dormir ou recuar. Mas quando o teu amor tiver atingindo o seu fim que é Deus, a alegria unir-se-á de novo a ti num bater de asas e não te abandonará jamais.

A verdadeira fidelidade consiste em fazer renascer indefinidamente aquilo que nasceu uma vez, esses pobres gérmens de eternidade postos por Deus no tempo, que a infidelidade rejeita e a falsa fidelidade mumifica. Só o nascimento tem encanto, dizem os amantes da mudança; mas quem nao é capaz de renascer não chegou nunca a nascer, (há neste mundo mais abortos que nascimentos). O gesto de colher a flor é tão virgem como o de lançar o grão e o que não sabe esperar a colheita nada soube também da alegria e do amor do semeador: limitou-se a mover as mãos e embriagou-se com o seu gesto; não semeou...


Gustave THIBON. O que Deus uniu, Editorial Aster - Collecção Éfeso.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O HOMEM É QUEM FAZ A HISTÓRIA E NÃO O SEU PRODUTO

Gustave Thibon (1903-2001)

“... aprendemos que as essências são determinadas e que os atos, os acontecimentos são contingentes. Na atualidade nos é ensinado o contrário, a saber: que a natureza humana (se é que se tolera ainda o emprego desta palavra) é fundamentalmente contingente, indeterminada, maleável, enquanto os acontecimentos são necessários e que esses nos ‘informam’, nos re-criam sem cessar. Para esses pseudometafísicos tudo é obscuro no homem (seu ser, que não é definido jamais, se dissolve no econômico e no social), mas tudo é claro na história. Nós não sabemos o que somos, mas sim, sabemos para onde o tempo nos conduz. É o caminho que cria não apenas o objetivo, mas o próprio viajante... Para tal concepção não é o homem quem faz a história, é a história quem faz o homem. O tempo já não é uma tela a preencher, um instrumento oferecido ao homem para exercer sua liberdade, quer dizer, para realizar seu destino temporal e preparar seu destino eterno; não, o homem é instrumento do tempo, a matéria informe e caótica que recebe sua forma e seu fim desse demiurgo... A história assim erigida em ato puro e em potencia criadora, ressuscita em seu proveito as mais obscuras ideologias das idades bárbaras; nessa perspectiva, todos os sacrifícios humanos são permitidos e exigidos: contanto que a carruagem divina prossiga sua rota luminosa, que importam os seres obscuros triturados por suas rodas? Se, com efeito, tudo que é verdadeiro e tudo o que é o bem residem no porvir, os piores horrores do presente estão justificados: é bom tudo o que conduz a esse porvir, tudo o que se encontre conforme o ‘sentido da história’”.


__ Gustave THIBON. Revista Itinéraires, julho-agosto de 1956, núm. 5, pp. 2-3.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

VIOLÊNCIA, FORTALEZA, ANTI-CONFORMISMO

Gustave Thibon (1903-2001)   

A virtude da fortaleza implica os dois traços seguintes: o domínio de si e a independência com relação às opiniões e arrebatamentos da multidão (si omnes, ego non: se todos, eu não — proclama uma velha divisa aristocrática). Ora, todos os fenômenos de violência que nós relacionamos se situam nos antípodas desse duplo ideal: seu caráter passivo e gregário salta aos olhos. Eles procedem ou dum abandono anárquico aos impulsos elementares ou (e essas duas reações são estreitamente ligadas) duma docilidade mecânica para com os movimentos da multidão, naquilo que eles têm de mais efêmero e vão. Há um parentesco profundo entre a ovelha negra e os carneiros de Panurgo. E é em função dessa dupla carência que esses seres, tão largamente abertos às modas, às ideologias e a todas as correntes da história que no fundo não levam a nada, se refugiam automaticamente no individualismo mais tacanho e cego quando se cogita das grandes questões concernentes à natureza do homem e da sociedade: a profissão, a família, a pátria, a religião. Esse jovem "insensível" que ostenta uma virilidade de fachada nos lugares de diversão vive agarrado a seus pais e se comporta como um "eunuco" diante das dificuldades da existência. Esse descabeçado que maneja o voltante com a inconsciência da criança montada num carrinho de brinquedo dá mostra da mesma fraqueza na vida real: dir-se-ia que ele enfrenta todos os riscos para melhor fugir a todas as responsabilidades. E eu não quero evocar aqueles franceses de ontem que, ajoelhados diante da Trindade do médio eleitor (carro, férias, televisão), talvez se envergonhassem de ignorar o último filme de Brigitte Bardot, mas se quedaram insensíveis diante da agonia física e moral de seus irmãos da Argélia.
  
Essa afinidade entre a violência vazia e a inconsciência frente às realidades nada tem que deva surpreender-nos. Há entre a violência e a frouxidão uma diferença de grau e não de natureza. Um pneu estufado não tem outra superioridade senão a de estar cheio de vento. E o menor acidente exterior basta para pô-lo em evidência. Assim, a violência cega e a frouxidão se revezam freqüentemente num mesmo indivíduo, conforme os humores e as circunstâncias. São Pedro comprovou à sua custa essa lei psicológica quando, após desembainhar a espada contra os servos do Sumo Sacerdote, renegou miseravelmente seu Mestre...
Toda esta conversa não deve ser interpretada como uma condenação absoluta e universal da violência sob todas as suas formas. Santo Tomás nos ensina que o exercício do "irascível" pode ser legítimo e benéfico na medida em que se obedeça à razão. Doutro lado, a virtude da fortaleza implica, em certas circunstâncias (educação das crianças, guerra justa, repressão da delinqüencia etc.) o uso da violência. A violência sadia é aquela que pomos ao serviço do bem e que dirigimos contra o mal. E, antes de tudo, contra o mal que está em nós; enquanto a violência que nós exercemos sobre os outros é freqüentemente negativa e maléfica. Não é por acaso que a expressão "violentar-se" é quase sempre entendida num sentido favorável. É por aí que se precisa começar: como poderemos nós modificar para melhor o que quer que exista no mundo e entre nossos semelhantes, se não soubermos modificar-nos a nós mesmos?
  
Tal é o "caminho da liberdade" que se abre aos jovens. Essa liberdade — tão exaltada em palavras e tão achincalhada nos fatos — não se desenvolve nem pela anarquia individual nem pelo mimetismo social, mas pelos esforços e sacrifícios que uma obediência ativa às leis eternas exige. É necessário, com efeito, mais liberdade para fazer o bem que para sucumbir ao mal, para afirmar um ideal que para ceder a um impulso. O alpinista que escala uma montanha faz a cada instante uma opção para não cair e concentra toda sua energia nesse objetivo, mas absolutamente ele não tem necessidade de opção nem de energia para deixar-se rolar no abismo.
E quanto aos jovens que apreciam a luta e o risco e que sentem borbulharem dentro de si instintos revolucionários, que eles se tranqüilizem: a solução que lhes propomos é a menos confortável. Pois no mundo em que vivemos — neste mundo que tem por regra o desregramento, em que os paradoxos se tornaram preceitos e os escândalos convenções, em que as pressões sociais funcionam no sentido da destruição da sociedade, em que as instituições repousam na violação das leis não escritas; — diante dessa ordem estabelecida que é a negação da ordem eterna, eles encontrarão facilmente a oportunidade para exercitar suas faculdades de combate, pois o anticonformismo e o respeito aos comandos imutáveis vão hoje de braços dados, e aquele que quiser obedecer à razão e a Deus encontrará mais obstáculos e se exporá a mais perigos que aquele que delira com o seu século e se ajoelha diante dos seus ídolos. Neste mundo transtornado, o combate mais duro e o maior risco estão do lado dos defensores da ordem contra o caos e da sabedoria contra a loucura.


Gustave THIBON. Juventude e violência. Publicado na Revista católica "Hora Presente", maio de 71.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

PSICOSSOMATISMO

Gustave Thibon (1903-2001)

Um padre americano contou-me recentemente a história seguinte: recebera a visita de dois adolescentes num estado de extrema agitação. Julgavam-se possessos do demônio e pediram-lhe para os exorcizar. Como nunca lhe tinham feito tal pedido, começou por manifestar algum ceticismo sobre o que os jovens afirmavam. Compreendeu tudo, quando eles lhe confessaram que tinham assistido, alguns dias antes, à projeção do filme de horror intitulado "O exorcista".
"Acabei - contou-me ele - por praticar sobre eles, com a maior solenidade possível, os ritos do exorcismo e eles foram-se embora livres da sua obsessão. Mas pergunto a mim próprio se não se tratava de um simples fenômeno de autossugestão...".
Sugestão ou não - respondi-lhe - acho que procedeu muito bem, porque era verdadeiramente do diabo que se tratava. Não, sem dúvida, de um caso em que o demônio possuía diretamente uma pessoa, mas sim do espírito do mal que sopra através do mundo e penetra nas almas através dos meios de comunicação social. Em suma, um demônio sociológico, adaptado à era das multidões.
Digamos que estes jovens que se julgavam possessos tinham "somatizado" a emoção violenta provocada por um espetáculo de terror. O que nos conduz a reflexões mais gerais sobre o fenômeno da projeção no corpo das perturbações da alma, ao qual um dos nossos grandes médicos atribuía recentemente a origem de pelo menos cinquenta por cento das doenças consideradas orgânicas: asma, eczema, úlcera gástrica, cardiopatia, etc. Daqui a necessidade de os médicos que se preocupam com a eficácia saberem tanto de psicologia como de fisiologia.
Admite-se, portanto, cada vez mais, sob a pressão crescente dos fatos, que a alma é senhora do corpo, que o plasma, se assim posso dizer, à sua imagem, uma vez que perturba o funcionamento do corpo em função do seu próprio desregramento.
Mas qual é então a causa da má vontade ou da suspeita que tão facilmente incide sobre o bem fundado da influência contrária, a influência da alma sobre os mecanismos e as pulsões do corpo, a fim de os regular e de os orientar em função de um ideal moral ou religioso?
Uma imensa corrente de opinião, que tem origem no culto aviltante do prazer e da facilidade, tende a repelir, como contrárias à plenitude do ser humano e como causas de recalcamento e de frustração, todas as formas de ascese e de disciplina que o espírito impõe à carne. É neste sentido que alguns condenam, em nome da espontaneidade e da criatividade da criança, a parte de aprendizagem e de disciplina que a educação comporta e que identificam, em matéria sexual, o ideal de castidade com recalcamento...
"É lesar os direitos do corpo impor a castidade aos adolescentes", dizia-me uma educadora, embebida até a medula de liberalismo moral e, por outro lado, eminentemente favorável ao aborto e à pílula.
Eis como lhe respondi: "O corpo não tem direitos, mas funções. É à alma que pertence coordenar essas funções com vista a realizar um equilíbrio ótimo entre a vida animal, a vida espiritual e as exigências do meio social. Que isso implica uma parte de violência em relação às pulsões carnais, é algo a que dou o meu acordo sem receio. E também concordo que certas castidades mal integradas provocam recalcamentos. Mas o recurso ao aborto ou à pílula, que você preconiza, como contrapartida da liberdade sexual, não é também um atentado contra esses famosos ‘direitos’ do corpo? É a carne que reclama a interrupção da gravidez ou o impedimento da fecundidade? Pelo contrário, ela só quer levar até ao fim o processo natural que vai da união conjugal ao nascimento. Não, essas intervenções mutilantes procedem de um frio cálculo do espírito, ávido de tirar do corpo o máximo de gozo, sem ter em consideração as consequências naturais do prazer. Nesse caso, intervenção por intervenção, prefiro a da moral sexual..."
Assim, como quer que se proceda, nunca se escapa ao domínio da alma sobre o corpo. Todo o problema está em saber qual o sentido em que esse domínio se exerce.
Mens sana in corpore sano (alma sã em corpo são), diziam os antigos. Sabemos demasiado bem que as doenças da alma se repercutem sobre o corpo; por isso, é preciso velar pela saúde da alma, a fim de que ela tenha, em sentido contrário, as mesmas repercussões. Por outras palavras, substituir o psicossomatismo do erro e do mal pelo da verdade e do bem.

In: Revista "Itinéraires", 22 de outubro de 1976. 


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A LEI NATURAL E A LEI ESCRITA

É preciso primeiro constatar que toda forma de sociedade comporta dois elementos: a seiva e a casca ou, se se preferir, a fonte e o canal: de um lado, o clima vivo, orgânico da Cidade, meio e veiculo dos valores que alimentam o ser interior (costumes, tradições, artes, religião, etc.), e de outro, o aparelho, o enquadramento legal da Cidade. Em outras palavras, a lei natural, suporte da lei divina, e a lei escrita. Aqui se impõe uma observação fundamental. As leis naturais, porque emanam do fundo imutável das coisas (o qual permite, na superfície, uma grande liberdade de movimento), são ao mesmo tempo permanentes no seu princípio e muito flexíveis nas suas aplicações: no limite, a obediência absoluta a Deus se confunde com a "santa liberdade dos filhos de Deus" (parere Deos liberta est, dizia Sêneca). As leis escritas, ao contrário, são ao mesmo tempo muito rígidas (elas não levam em consideração a diversidade dos indivíduos) e muito instáveis e cambiantes: basta, por exemplo, uma mudança de regime político para que o aparelho das leis e regulamentos seja modificado completamente. Elas fazem pouco da liberdade individual por sua uniformidade e a desorientam pela rapidez de suas mutações... a melhor forma de sociedade é aquela onde o segundo desses elementos se situa no prolongamento do primeiro, onde a lei escrita vem apoiar e codificar a lei não escrita que emana, não somente da natureza universal do homem, mas ainda do gênio particular de tal ou qual nação. Sem nada idealizar (porque sempre existe uma distância e uma tensão entre esses dois polos da realidade social), o direito romano se inscrevia na linha do gênio do povo romano, a constituição helvética corresponde ao desejo íntimo dos habitantes da Confederação, a democracia e o direito consuetudinário britânicos foram elaborados em função do caráter anglo-saxão, etc. Aqui o direito escrito aparece como a rede protetora da lei natural. Inversamente, uma sociedade degenera na medida em que o segundo polo (o da lei escrita) contraria ou absorve o primeiro, quando a pele abafa a seiva. "O que são as boas leis sem os bons costumes?", dizia Cícero. E Victor Hugo: "Na França, há dez mil leis e regulamentos entre nós e a liberdade". Neste caso, é o juridicismo contra o direito e a inadequação de todas as leis que são estranhas aos costumes ou simplesmente estão muito adiante dos costumes. Poder-se-iam invocar aqui sistemas de previdência social cujo bom funcionamento exigiria um grau de maturidade moral que o povo, no seu conjunto, está longe de ter atingido; o drama dos povos recentemente libertados da tutela colonial, certas leis contra o alcoolismo ou a prostituição e, mais geralmente, todos os ensaios de reforma que, por não estarem adaptados ao estado dos costumes, não fazem senão agravar os males que pretendem curar.
Resumamos. As melhores formas de sociedade são aquelas cujas estruturas comportam o máximo de vínculos vivos e interiores. Por outras palavras, aquelas em que a coletividade se organiza sob uma dupla influência: primeiro, aquela da necessidade elementar de polaridade biológica (a família, o grupo humano arejado em que cada um permanece ele mesmo em sua relação com o próximo, o trabalho, o pertencer comum a um solo, a um clima, a uma tradição, em resumo a Cidade em que o passado é o suporte e o alimento do presente e em que a hierarquia das funções se enraiza na diversidade das vocações); em seguida, aquela influência de um apelo espiritual representado por uma cultura e uma arte que traduzem o espírito de um povo, por uma religião ao mesmo tempo universal e encarnada. Uma tal sociedade prolonga, coroa, corrige se necessário, mas sem aboli-la, a diversidade humana; ela constitui uma síntese da qual cada elemento conserva e desenvolve sua integridade, sem justaposição nem mistura; a identidade do fim aí concorre para a expansão da diferença original que cada indivíduo traz em si. Apressamo-nos a acrescentar que nenhuma formação social atende plenamente a esse ideal. Todas as sociedades estão mais ou menos em equilíbrio instável, todas apresentam imperfeições e fraturas (opressão, parasitismo, farisaismo, etc.) mas, sem realizar o bem absoluto, impossível de atingir aqui em baixo neste mundo, é já uma grande vantagem encarnar o menor dos males. Schopenhauer dizia que os reis que inscreviam no começo de seus ordenamentos: "Nós, pela graça de Deus" teriam estado mais perto da verdade dizendo: "Nós, dos males o menos, decretamos que..." Enfim, como os indivíduos, todas as formas de sociedade tornam-se caducas e as novas formas que as substituem, mesmo se (o que está longe de ser sempre o caso) estas constituem um progresso positivo em relação às precedentes, continuam fatalmente misturadas ao bem e ao mal. Um só exemplo. O parasitismo social existia, no Antigo Regime, sob a forma do senhor ocioso e do cortesão e no no século XIX sob a figura do rendeiro não menos ocioso. Hoje, esses tipos humanos praticamente desapareceram, mas o número de parasitas em relação ao conjunto da população certamente não diminuiu. Citemos de memória os funcionários inúteis, os desfrutantes dos "trusts" ou do Estado e os inúmeros "trabalhadores" que exercem atividades supérfluas ou nocivas. Todas eles são parasitas, no sentido de que eles não proporcionam à coletividade o equivalente aos bens reais que eles consomem. E não creio que esse mal possa jamais ser totalmente eliminado.

___ Gustave THIBON. Realidade social e miragem coletivista. Revista Hora Presente, n. 1, set/out 1968.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O CÂNCER SOCIALISTA

Os biólogos definem este [o câncer] como uma proliferação anárquica de células que vão devorando os órgãos, que depois se destroem a si mesmas e conduzem o vivo para a morte. E, como o câncer representa o auge da desordem biológica, o socialismo representa o auge da desordem social.
Expliquemo-nos. O socialismo inclina para o câncer na medida em que implica um desequilíbrio no exercício do poder político nas relações entre este poder (o Estado) e o conjunto dos elementos da nação: indivíduos, famílias, empresas, coletividades locais etc.
A existência do Estado é uma necessidade para toda a sociedade civilizada. Sua tarefa essencial consiste em harmonizar as liberdades dos cidadãos; quer dizer, em arbitrar mediante leis justas (seguidas de coerção no caso de sua inobservância: a força deve permanecer na lei...), os intercâmbios e conflitos entre os indivíduos e grupos...
(...)
Quando a raposa anda livremente pelo galinheiro, a liberdade das aves, dentro de sua espécie, e o poder de voltear de um extremo ao outro do cercado não significam nada perto da agilidade e a avidez do carnívoro.
Nesse sentido, o socialismo surge como uma reação contra os excessos do liberalismo do século anterior. Mas esta reação contra os danos causados pela liberdade foi sendo impulsionada gradualmente até o estrangulamento da própria liberdade.
O Estado, sob o pretexto de justiça, igualdade, assistência, foi se infiltrando pouco a pouco nas entranhas do aparato social; monopolizou os créditos, paralisou o trabalho com os impostos e a poupança com a inflação, atacou a propriedade privada, única defesa da liberdade, procurou a segurança de cada um com o preço da escravidão de todos. Em resumo; erigindo-se em espoliador e distribuidor universal, monstro de duas caras, na qual se combinam o Minotauro e a vaca leiteira, reduz a nação a um amontoado de indivíduos sem laços entre eles e sem nenhuma defesa diante de si.
É a definição pura do câncer. O diagnóstico de Salleron é severo e seu prognóstico pessimista. Para ele este processo cancerígeno parece difícil endereçar pelas duas razões seguintes:
1) Porque os líderes do socialismo, ligados à sua ideologia, estão condenados à fuga para frente, quer dizer, à uma radicalização crescente de seu método de governo que desemboca no comunismo, termo fatal da utopia igualitária.
2) Porque grande parte dos cidadãos digeriram, com o leite, o veneno socialista e se acostumaram a esperar tudo do Estado e, com isso, perderam o sentido do risco e das responsabilidades, que é inseparável do amor à liberdade, tal como o bovino, para quem a segurança do estábulo e a escassez do feno lhe faria esquecer o jugo.
Onde está, pois, o remédio? “Ver claro, é ver escuro”, dizia Valéry. Mas, talvez Salleron leve o pessimismo muito longe.
Há câncer, isto é certo, mas este câncer não diz respeito a todo organismo social; está no Estado mais que na nação, no país legal mais que no real, e creio que este é ainda capaz de ter uma reação saudável. E, mais ainda, porque a evidencia dos absurdos e dos males que provoca o socialismo salta aos olhos claramente cada vez mais.
Mas uma mudança da equipe de governo não basta se não é apoiado por uma reação vital das células sem câncer. Somos nós que devemos nos agarrar aos últimos farrapos da liberdade e assumir toda a responsabilidade. Em outros termos, salvaguardar e estender estas ilhotas de saúde social que o totalitarismo do Estado se afana em eliminar como relíquias do passado e que, na realidade, são sementes para o futuro. Será necessário ocorrer uma avalanche de catástrofes econômicas e políticas? O ignoramos. O que, sem embargo, sabemos é que o processo de descentralização – ou de descancerização – passa pela consciência e pela conduta daqueles que recusam a perspectiva de deixar-se devorar pelo câncer.
O socialismo – e o comunismo para o que inevitavelmente caminha se não nega seus próprios princípios – se opõem às leis mais elementares e mais comprovadas pela experiência, da natureza humana e da saúde das sociedades. Logo, já é uma promessa de vitoria combater tendo a natureza por aliada. O fim deste combate é a saúde da sociedade, que o triunfo do socialismo asfixiaria em um colapso próximo da morte.


___ Gustave THIBON. Louis Salleron nos fala do câncer socialista. Artigo sobre um livro de Louis Salleron (1905-1989), publicado na revista Itineraires, n. 277, de novembro de 1983.

terça-feira, 22 de julho de 2014

O HOMEM ATOMIZADO

“A grande vantagem dos bons costumes é tornar fáceis e naturais coisas muito difíceis para a moralidade pura do indivíduo. A decadência dos costumes isolou, atomizou, os indivíduos. Hoje seria necessário que cada homem suprisse com sua fraca vontade e com sua sensibilidade fugas as correntes profundas surgidas da alma animal e da alma coletiva. Isto não é possível senão para seletas grandes almas. As outras desembocam no culto exclusivo do interesse ou do amor sensível e imediato. O homem atomizado têm horror à tudo o que é penoso e, sobretudo, ao que não se reduz ao agora”  


__ Gustave THIBON. La moral y las costumbres, em “Diagnósticos de fisiología social”,  Madrid: Ed. Nacional, 1958, pp. 113 e ss.

terça-feira, 15 de julho de 2014

DIFUNDIR A VERDADE

“Importa, pois, antes de mais nada, para fazer frente às potencias anônimas que dirigem a opinião, criar ilhéus de resistência, grupos humanos cujos membros estejam concretamente unidos uns aos outros pela mesma fé e o mesmo ideal, que constituam ao mesmo tempo barreiras contra a mentira e crisóis de difusão da verdade”.


___ Gustave THIBON. La información contra la cultura, Comunicação apresentada no Congresso de Lausanne de 1965, Revista Verbo, Madri, ns. 42-43, p. 180.

terça-feira, 8 de julho de 2014

LIÇÕES DE GUSTAVE THIBON

FOME DE FELICIDADE: Santo Deus, o que ai vai de ambições! Queres isso, aquilo e mais aquilo. Muito bem. Mas já pensaste em saber se mereces que todas essas coisas te queiram a ti? Desunhas-te na recolha da felicidade. Procura antes tornar-te digno de ser escolhido pela felicidade. Quando fores suficientemente puro, verás como a felicidade te segue por toda a parte: por mais que lhe fujas, ela irá ter contigo, onde quer que te encontres.

VAZIO INTERIOR: Um homem exaure-se na medida em que não existem, para ele, seres ou coisas insubstituíveis. Faz lembrar um buraco que se cuidasse poder tapar seja com o que for, e que o essencial é tapado. Daí, e paralelamente, a maré alta do vazio interior e da paixão pelo dinheiro. Desde o instante em que se pensa que nada do que se ama é insubstituível, logo se acredita que basta ter dinheiro para tudo substituir. 

OBEDIÊNCIA E SERVIDÃO: Não se foge a obediência, senão para cair na servidão. Afliges-te, vendo de que é que os homens são escravos? Se queres a chave deste "mistério de abjeção", procura ver a quem é que eles fogem de servir. O homem não escapa à autoridade das coisas do alto, que o sustentam, senão para cair na tirania das coisas de baixo, que o devoram.

Noli judicare - etiam teipsum. - Vede estes homens. O que sofrem e porque sofrem. Ora, o azedume, de que dão provas, tem uma origem. É que passam o tempo a comparar-se com os outros. Este jogo entusiasma-os. Mas também os irrita e desmoraliza. Quando aprenderão, finalmente, a considerarem-se único, e não a julgarem-se em comparação com os outros? Seria esta a aurora da verdadeira humildade. Para que precisas tu de te confrontar com os teus irmãos? Não te basta saberes que é filho de Deus?

___ Gustave THIBON. A Escada de Jacob, Lisboa: Editorial Aster, p. 31-33.

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Como já assinalado em outras oportunidades, e nunca é demais repetir, GUSTAVE THIBON (02 de setembro de 1903 – 19 de janeiro de 2001), foi autodidata genial, nasceu em Saint-Marcel-d'Ardèche (França) onde foi sempre lavrador. Não foi um homem de diplomas e títulos. Estudou por si só o grego e o latim, os "Diálogos" de Platão e a filosofia de Aristóteles, a "Suma Teológica" de Santo Tomás. Deu-nos páginas luminosas de "Diagnósticos de Fisiologia Social", "O que Deus uniu", "A Escada de Jacob" e outros volumes de aforismos penetrantes, que são como flechas agudas atiradas para todos os lados. Poucos como ele compreenderam tão profundamente o homem e a mulher, o amor humano e o casamento. Thibon foi o testemunho que se ocultou para deixar brilhar a verdade em todo o seu esplendor. 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

INFERIORIDADE NATURAL, ORGULHO E AMBIÇÃO

"A inferioridade natural não é mal nenhum. A desordem começa onde começam o orgulho e a ambição. Quem é humilde ama a sua miséria, sem que para isso precise de a dourar. Não se perturba, por se ver inferior aos outros. Porque é humildade, não tem no coração qualquer ídolo a defender, como o falso verniz das ilusões, contra o fulgor incoercível da verdade. Ser humildade é viver a própria independência em relação ao ser exterior. É sentir-se alegremente oferecido, doado, entregue à realidade extrapessoal. É prestar para alguma coisa, no mundo. É viver para além das próprias diversões. A vontade do humilde situa-se, por conseguinte, sob o signo da liberdade e do Amor. Em vez de se fechar no seu próprio egoísmo, o “eu” do humilde abre-se livremente para o Amor”.

__ Gustave THIBON. A Escada de Jacob, Lisboa: Editorial Aster, p. 31-33.


segunda-feira, 7 de abril de 2014

A CIDADE TOTALITÁRIA

A Cidade totalitária que se elabora ao redor de nós oferece-nos, efetivamente, um duplo espetáculo: de um lado, uma tendência ao nivelamento geral, que apaga as verdadeiras diferenças entre os homens e consequentemente a complexidade natural; e, de outro, uma complicação cada vez maior na administração da Cidade e nas condições de existência de seus habitantes. Todos os homens estão em vias de se reunir como carneiros de um mesmo rebanho e nada é mais inextricavelmente emaranhado do que as leis e os regulamentos que regem suas relações. Tecnocracia, burocracia, papelada - isso não tem nada a ver com a relação orgânica complexidade-unidade. E isso se parece muito pouco com aquele processo de "amorisação" (impregnação de amor) de que fala Teilhard Chardin.

O coletivismo não reúne os homens senão para melhor os isolar. Ele os separa uns dos outros, na medida em que os amontoa uns sobre os outros. Assim, os grãos de areia no deserto formam uma imensa massa homogênea, mas os elementos que constituem essa massa não tem entre eles nenhum vínculo interno: é a própria imagem da Cidade Totalitária em que a solidão aumenta em função da promiscuidade.

A maqueta da Cidade Futura, nós a temos já nos grandes conjuntos anônimos que crescem como cogumelos ao redor de nossas cidades e dos quais transpira, para fora como para dentro, a lepra da uniformidade e do tédio; nos rebanhos humanos em que o "condutor" substitui o pastor; nesse desenraizamento geral que solta os indivíduos, como folhas mortas, ao vento da moda e da opinião; nessa fabricação em cadeia de consciências teleguiadas que são cevadas de abstrações e de quimeras ao invés de serem nutridas de realidades.
Falam-nos de bom grado da "dimensão planetária" da humanidade de hoje. Mas quem não vê que onde essa nova dimensão (que, aliás, não é nova: todos os santos conheceram essa paixão da humanidade) não tem por fundamento e por caução um apego vivido ao próximo imediato e uma experiência de responsabilidade pessoal, ela não pode ser senão ilusão e engano? É muito bonito ser cidadão do mundo, mas é preciso começar por não ser apátrida. Saint-Exupéry refere-se a este diálogo entre um homem apegado à sua terra e um desenraizado: "Você está partindo? - Sim. - Para onde? - Para Melbourne. - Como você estará longe! - Longe de onde?". Com efeito, não há distâncias para o desenraizado. Ele não está longe de nada. Mas, em contrapartida, ele não está ligado a nada: a palavra próximo não tem o menor sentido para ele.
Nessa ordem, o uso imoderado das facilidades de comunicação - quer se trate de deslocamento no espaço ou de informação - arrisca comprometer nossa capacidade de comunhão. O próximo se distância à medida que o longínquo se aproxima. E ainda não se aproxima senão em aparência: por palavras e por imagens. O que pensar, por exemplo, desse cidadão inconsciente e organizado (mecanizado caberia melhor) que se apaixona pela guerra do Vietnã e ignora os problemas e talvez mesmo a existência de seu vizinho de andar. Que ignora até o seu próprio problema, pois não se dá conta de que não entende nada das questões acerca das quais é pedido que tome partido. E esse homem, arrancado de seu próximo e de si mesmo, vive em sonho a duas mil léguas.
Diante dessa ameaça - já em parte realizada - do formigueiro futuro, Teilhard afirma com um otimismo intrépido: "não há formigueiro se as formigas aprendem a se amar". Mas como poderiam elas aprender a se amar se a própria construção do formigueiro implica na eliminação das condições de amor, na erosão do terreno social de que ele precisa germinar? É aqui que se aplica a fundo a parábola da semente e do solo: o grão divino aborta sobre um solo humano muito empobrecido.
Victor Hugo, num clarão de lucidez profética, coloca estas palavras na boca de não sei que Demos informe, construtor da Cidade coletivista e igualitária: "eu sou tudo, o inimigo misterioso de Tudo". O número, túmulo da unidade: é aí, com efeito, que desemboca a miragem coletivista. Uma cidade em que une seus habitantes enquanto cifras e não enquanto pessoas. Que faz a soma e não a síntese. E que, em última análise, se edifica sobre as ruínas do homem real. Um organismo - se isso se pode dizer! - em que a prótese substituiu os membros: no limite, os ídolos absorvendo seus adoradores – uma sociedade sem homens.

Gustave THIBON. Coletivismo contra o social. Revista Hora Presente, São Paulo, set-outubro de 1968, n. 1, p. 127-128.

quarta-feira, 26 de março de 2014

O SILÊNCIO DE DEUS

Em um século em que reina o conformismo do absurdo e da desordem, em que o ídolo da revolução permanente se converteu no centro de atração para os rebanhos de escravos teledirigidos, não há nada mais novo nem mais insólito que pregar o retorno às fontes e defender a natureza e a tradição. “Nunca como hoje o gênio de uma época se aplicou à destruição minuciosa de sua própria Cidade humana (de seus valores e de seu sentido) até o extremo paradoxo de que o conformismo ambiental se expressa hoje pela atividade revolucionária, e que a posição insustentável, heroica, chegou a ser a conservação e a fidelidade” (cfr. Cap. I, p. 25). A “Cidade dos homens” que defende Rafael GAMBRA era constituída por um conjunto de laços vivos e vividos que, através dos diferentes níveis da criação, mantinham o homem unido à sua origem e o orientava para seu fim. A casa, a pátria, o templo, o protegiam contra o isolamento no espaço; os costumes, os ritos, as tradições, ao fazer gravitar as horas em torno de um eixo imóvel, o elevavam acima do poder destrutor do tempo. Hoje presenciamos a agonia desta “Cidade dos homens”. O liberalismo, ao isolar os indivíduos, e o estatismo, ao reagrupá-los em vastos conjuntos artificiais e anônimos, transformaram a sociedade em um imenso deserto aonde as areias sem rumo são arrebatadas nos torvelinhos do vento da história. E o homem, vítima deste fenômeno de erosão, já não tem morada no espaço (se encontra, ao mesmo tempo, na prisão e no deserto), nem ponto de referência em um tempo pelo que corre cada vez mais depressa sem saber para aonde vai. As Cidades de outrora, ao enlaçar o homem com as realidades visíveis e invisíveis, o ajudavam a elevar-se sobre si mesmo. Hoje em dia, o ideal que lhe é proposto não é vertical, senão horizontal: está na corrida mesmo, na “fuga para frente”, e não no crescimento espiritual. Em lugar de tentar produzir um arquétipo eterno, o homem deve se deixar arrastar por um movimento perpétuo e sempre acelerado. (...) As antigas formas da sociedade, ao impregnar de sagrado quase todas as manifestações da vida temporal, penetravam o eterno no tempo e Deus se fazia presente na história. Mas esta aliança do social e do divino desmorona quando o homem não reconhece outro deus que ele mesmo, nem outra pátria que o mundo temporal transformado e desfigurado por suas mãos. E se aproxima a grandes passos a hora em que a idolatria do porvir lhe ocultará a eternidade.Esta será, sem dúvida, para os últimos fieis, a suprema prova da fé. A pureza, o heroísmo dessa fé serão medidas pela resistência do pneuma divino, interior e livre (spiritus fiat ubi vult) em relação ao vento servil da história. Ante o silêncio de Deus, os crentes de amanhã terão talvez que escolher entre a realidade invisível de uma eternidade em aparência sem provir e a miragem brilhante de um porvir sem eternidade. BÉRULLE definia o homem como “um nada capaz de Deus”. Mas eis que esse homem se transforma cada vez mais em um falso deus, incapaz do Deus verdadeiro. Chegaremos até o termo desta subversão e haverá que desaparecer da Cidade dos homens? Rafael GAMBRA se compraz em repetir as palavras demasiado lucidas de TAINE: “nenhum homem sensato pode já esperar”. Mas não esqueçamos (cito novamente Françoise CHAUVIN) que a “lucidez é a pior das cegueiras se não vê nada mais além daquilo que se vê”. O cristão, imitando o apóstolo São Paulo, está obrigado a esperar contra toda esperança (contra spem in spe), porque Cristo venceu o mundo e está vitória abarca a totalidade do tempo e do espaço. E, por incertas que sejam as probabilidades de êxito, nossa missão aqui embaixo consiste em restaurar pacientemente, em nós e em nosso redor, as condições para uma restauração da Cidade dos homens; quer dizer, em preparar um porvir à eternidade.Com este chamado termina este belo livro. Nosso desejo mais fervoroso é que seja escutado, no segredo das almas, como um eco do silêncio de Deus. 
Gustave THIBON. Prólogo do livro "El silencio de Dios" (Ciudadela, 2007), do ilustre pensador espanhol Rafael GAMBRA CIUDAD  (julho de 1920 – janeiro de 2004).


domingo, 23 de março de 2014

AMOR E RESPONSABILIDADE

“A etimologia da palavra responsabilidade proporcionada pelo excelente dicionário de Littré é suficientemente esclarecedora. Responsabilidade deriva de 'res' e de 'sponsus': esposo, noivo. Ser responsável por alguma coisa é estar unido a esta coisa por laços análogos aos que unem o esposo e a esposa. O que leva imediatamente consigo a ideia de escolha, de promessa, de fidelidade, em uma palavra, amor. Além de toda obrigação de tipo moral e jurídica o homem se sente responsável espontaneamente por aquilo que ama.”


Gustave THIBON. El equilibrio y la armonía, Barcelona: Belacqua, 2005.