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domingo, 13 de julho de 2014

TODA VIDA HUMANA SE BASEIA NO SACRIFÍCIO E NA RENÚNCIA

"Toda vida humana se baseia no sacrifício e na renúncia. Pequenos e grandes sacrifícios. Isso é da contingência da vida, é próprio do destino terreno da criatura. Pode ser desagradável, mais é verdade. O agradável, de resto, não é o ideal de ninguém. Quando somos infelizes no casamento, não podemos, por isso, pedir ao estado que nos reconheça o direito de casar de novo. A mulher é uma só, como é um só pai. Se o nosso pai é defeituoso, não adianta requerer ao estado um segundo. E se acaso o estado reconhece esse tolo direito, o que se sucede é que fingiremos iludir-nos, com uma mulher falsa, com um falso pai..."


__ Nelson RODRIGUES. Considerações rodrigueanas (Entrevista a Otto Lara Resende, Revista “O comício”, 15/05/1952).

sexta-feira, 11 de julho de 2014

TUDO EM CORÇÃO É AMOR

Nelson Rodrigues

Outra figura brasileira consagrada pelos palavrões: - Gustavo Corção. Ninguém diria, de maneira sucinta e inapelável: "É uma besta!" Bem que as esquerdas gostariam que o fosse. Mas os seus piores inimigos sabem, e não teriam o cinismo de negar, que Gustavo Corção é uma das inteligências mais sérias do Brasil. Certa vez aconteceu-me uma passagem extraordinária com o grande pensador católico.
Era domingo. Voltava eu, não sei se de um clássico ou de uma pelada. Na saída do Estádio Mário Filho, alguém me chama. Volto-me e dou de cara com um amigo, uma flor das esquerdas, um doce radical como o Antônio Calado ou como o Hélio Pelegrino. Eu e o amigo caminhamos no meio da torcida. Acontecera um empate e ninguém gritava. A multidão tinha algo de tristeza fluvial no seu lerdo escoamento. Então, o meu companheiro falou: - "Estou besta! Com a minha cara no chão!" Pensei que ele, Fluminense como eu, estivesse desiludido com o Tricolor (realmente, o meu clube não compra ninguém). Mas ele continuou: - "Nunca pensei que o Corção..." Fez uma pausa e repetiu: - "Estou besta! besta!"
Entre parênteses, esse meu amigo tem, pelo Corção, um ódio comovente. Não lhe diz o nome sem acrescentar... Acrescentar não. Não lhe diz o nome sem lhe antecipar um palavrão. Chega ao nome pelo palavrão. E, súbito, falava do inimigo com uma impostação diferente e, mesmo, inédita. Perguntei-lhe: - "Mas estás besta por quê?"
Esquecia-me de dizer que o meu amigo levava um radinho de pilha. Abriu uma pausa na conversa para ouvir os comentários do João Saldanha e as gravações dos "goals". Só depois do Saldanha é que voltamos ao Corção. Rádio desligado, e o outro me perguntou, na sua impressão profunda: - "Leste o artigo que ele escreveu? Que escreveu sobre o filho? Ó rapaz! O artigo do Corção sobre o filho?"
Não era um artigo do dia ou da véspera. Da sua publicação, transcorrera toda uma semana. E, através dos sete longos dias, o artigo do Corção ficara badalando dentro do meu amigo, como um sino inexorável. Membro da "festiva", freguês do "Antonio's", havaiano de praia, relera o inimigo umas quinze vezes. E a cada leitura a sua perplexidade era cada vez mais amarga. Súbito, via um novo Corção, um Corção jamais suspeitado, um anti-Corção.
Vejam vocês: - o grande prosador escrevera uma página sobre o filho, Rogério. Foi um artigo de funda e dilacerada ternura. O nosso Rogério estava no Vietnam, como um dos representantes do Brasil. Lá, as balas não escolhem, não discriminam, e tanto estouram a cara de americano, como de brasileiro. E havia no artigo todo um amor insuportável, e uma solidão desesperadora.

O assombro do meu amigo tinha a sua lógica. Durante anos, criara, e recriara, dia após dia, uma imagem hedionda do "reacionário". Ele imaginava que, se o Corção passasse a mão pela face, havia de sentir a própria hediondez. Nunca lhe ocorrera que aquela besta-fera pudesse ter costumes, usos, gestos, como outro qualquer. Impossível um Corção tomando cafezinho ali na esquina; inadmissível uma gargalhada do Corção, ou um assovio do Corção. E aquele Corção pai, simplesmente pai, e simplesmente terno, e simplesmente infeliz, e simplesmente órfão do próprio filho, contrariava toda uma imagem feita de palavrões, de insultos, de baba.
Mas, vejam toda a operação psicológica do meu amigo. A princípio não entendera uma palavra, tão desconhecido, tão estrangeiro, tão alienado parecia aquele Corção vergado, sofrido, perdidamente solitário. Só depois é que, limpando a figura dos palavrões, dos ultrajes, das calúnias, é que o freguês do "Antonio's" pode chegar à luz última e verdadeira do inimigo.
Por fim, quem estava infeliz, na volta do Estádio Mário Filho, era o membro da festiva. A partir daquele momento, os seus palavrões soariam falsos aos próprios ouvidos. O meu amigo estava comovido e, pior, furioso com a própria comoção.
E, então, chegou a minha vez. Não me lembro de tudo o que disse de Gustavo e de Rogério. O esquerdista ouvia só, numa desesperada impotência para negar a imagem que eu ia elaborando de Corçâo. Expliquei-lhe que tudo em Corção é amor; poucas pessoas conheço com tanta vocação, tanto destino, para o amor. O que parece ódio, nos seus escritos, é ainda amor. Amor que assume a forma das grandes e generosas procelas.
Bate forte, muitas vezes. Mas sempre por amor. Está fatalmente ao lado da pessoa e contra a antipessoa. É a luta que o apaixona. Todos os dias, lá vai ele atirar o seu dardo contra as hordas da antipessoa. Eis o que eu repeti para o meu amigo das esquerdas: - o Corção tem um coração atormentado e puro de menino.
Quem o sabe ler, percebe em todos os seus escritos o pai de Rogério, sempre o pai de Rogério, querendo salvar milhões de filhos, eternamente.
  
___ Nelson RODRIGUES. O Óbvio Ululante, Livraria Eldorado Editora, 1968, pp. 164-166.



segunda-feira, 24 de março de 2014

HOJE, O ADOLESCENTE LEVA UMA SENSAÇÃO DE ONIPOTÊNCIA

Eis o que eu queria dizer: - a origem do Poder Jovem está numa bofetada consentida, de filha em mãe, ou de filho em pai. Hoje, o adolescente leva uma sensação de onipotência. O homem maduro tem, por vezes, um olhar estrábico de pavor. Sim, o homem maduro traz o medo no coração...
 Mas eis o que eu queria repetir: - o jovem não tem culpa nenhuma. Vítima de um processo de desumanização, ele é vítima também dos velhos. Numa das minhas confissões, referi um episódio que considero magistral. A coisa se passou com o padre Ávila. Certo rapaz, se não me engano aluno da PUC, cometeu uma vileza atroz com um amigo. O padre Ávila (espírito altamente compreensivo) foi interpelá-lo. Perguntou-lhe: ‘Você acha isso uma deslealdade?’ O adolescente pergunta: ‘É preciso ser leal?’ O bom sacerdote perdeu noites sem saber direito o que aquilo significava. E nem lhe ocorreu que, por trás do moço, explicando esse e outras lealdades, estava um velho conhecido nosso – o pulha. Ora, o ser humano não anda de quatro, nem está no bosque urrando à lua. E por quê? Resposta: - porque somos responsáveis. É a responsabilidade o nosso mistério e a nossa salvação. Os velhos começaram por suprimir os limites morais da juventude. O nosso Padre Ávila apreciou a canalhice do aluno ou conhecido, sei lá, com um espanto muito leve, quase imperceptível... Portanto, são os velhos, sacerdotes, psicólogos, professores, artistas, sociólogos que dão cobertura à imaturidade. Os jovens são o certo, o direito, o histórico, o infalível.


Nelson RODRIGUES. A cabra vadia, Rio de Janeiro: Eldorado, pp. 298-299.