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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

LUTA CONTRA O DESÂNIMO

       

(Argel,1943)

         “Senhor, dai-me a paz dos estábulos, a paz das coisas organizadas, das colheitas realizadas.
         Permiti que eu seja, tendo terminado de tornar-me, estou cansado dos lutos do meu coração, estou velho demais para recomeçar, perdi um após outro meus amigos e meus inimigos, e em meu caminho fez-se uma luz de ócios tristes.
         Meu Deus, afastei-me de vós, mas voltei, vi os homens ao redor do velocino de ouro, não interessantes, mas estúpidos, e as crianças que nascem hoje são mais estrangeiras que os jovens bárbaros. Sinto-me carregado de tesouros inúteis como de uma música que não será jamais compreendida. Comecei minha obra com o machado de lenhador na floresta, e estava embriagado com o cântico das árvores, mas, agora que vi de muito perto os homens, estou cansado.
         Aparecei perante mim, Senhor, pois tudo é duro quando se perde o gosto de Deus.
         Em que se reencontrar, lar, costumes, crenças, eis o que é tão difícil hoje e o que torna tudo tão amargo...

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Antoine de SAINT-EXUPÉRY. Cartas do Pequeno Príncipe, BH-SP: Itatiaia, 1974, p. 38.

sexta-feira, 21 de março de 2014

UMA ORAÇÃO NO GULAG

“Entre minhas notas encontro agora um texto que deveria ter tido as honras de toda a imprensa francesa. Ninguém o mencionou; eu mesmo não saberia dizer em que obscuro jornal semi-clandestino foram reproduzidas estas linhas. Poderiam, todavia, figurar ao lado do artigo 58, como uma das páginas mestras para a profunda compreensão do mundo contemporâneo. As devemos a um companheiro de prisão de [Alexander] Soljenítsin. Em 1944, em um campo do Arquipélago, esse homem foi acometido por uma diarreia de pelagra, devido a subalimentação. Sem médico nem medicinas, a morte parecia inevitável. E relata:
“Nem eu nem nenhum de meus companheiros sabíamos de casos de cura. Fui conduzido ao pavilhão dos moribundos. Friamente eu calculava em minha mente o tempo que me restava de vida. Mas nem minha alma nem minha mente aceitavam o veredito final. No fundo eu estava convencido de que Deus salvaria minha vida.... Havia aprendido a rezar em minha infância. Mas, na época de que falo, não tinha nenhuma ideia do que fosse a meditação. A alcancei no curso de minha luta contra a doença. Escolhi o Pai Nosso, a maior de todas as orações, a que nos foi dada pelo próprio Salvador. Me coloquei a refletir sobre cada palavra do texto. Apesar da fatiga de meu espírito, pude chegar a conclusão de que esta oração contém a totalidade das maiores ideias do Cristianismo... Transcorreram quinze dias. Me dava conta da duração e do termo de minha enfermidade. A fome deixou de afligir-me. Mais de uma vez dava à outros minha porção de ‘rata’ (péssimo refogado de batatas ou de feijão), não reservando-me senão o pão duro que eu me impunha a comer. Não me dava vontade de fumar. Os dias passam. Eu rezo. Minhas forças decaem. A enfermidade permanece. Vinte, vinte e cinco, trinta dias transcorreram. Se colocaram a olhar-me como um caso excepcional. Trinta e cinco dias, trinta e seis, trinta e sete dias... Eu rezo a Deus, como um círio aceso para Sua Glória. No quadragésimo dia, acordo com uma sensação ‘de ser’ desconhecida até então. A diarreia se deteve, recobro as forças. As lágrimas brotam de meus olhos, lágrimas de gozo, de exaltação, de reconhecimento. Deus fez um milagre em favor de um pecador como eu. Ele me marcou, a partir de agora sou um soldado da Igreja”.

Hugues KÉRALY. Los Media, religión dominante, México: Editorial Tradición, 1978.