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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

CONCEPÇÃO SACRAL DA VIDA RURAL

“A vida rural teve muito a ver com a vida religiosa dos lavradores. A Igreja cuidou que as principais festas do ano litúrgico coincidissem sempre que possível com o ciclo das estações e as fainas do campo correspondentes, realizando-se assim uma interessantíssima comunhão entre a vida espiritual e o acontecer cósmico. O sino da paróquia ou do convento conferia à existência camponesa um ritmo não só cronológico, mas também sacral. Pouco antes da aurora tocava a laudes e encerrava a jornada na hora das vésperas. Deste modo, a oração matutina e a prece vespertina marcavam o trabalho, conferindo-lhe uma significação transcendente. Os dias de festa eram numerosos, muito mais que em nosso tempo. Tanto aos domingos como nos dias festivos os camponeses assistiam à Santa Missa e com frequência aos ofícios das Horas canônicas. Participavam também das procissões, presenciavam nos átrios representações teatrais dos mistérios sagrados, ouviam sermões e homilias, aprendiam o catecismo. Tudo isso somado às visitas domiciliares dos sacerdotes, constituía uma espécie de cátedra ininterrupta para sua educação nos princípios da fé da moral. Toda a existência do camponês pulsava ao ritmo estabelecido pela Igreja. Desde o nascimento até a morte, passando pelo matrimônio e as enfermidades, os momentos fundamentais de sua vida eram sublimados pelo alento sobrenatural da liturgia”.
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Alfredo SÁENZ S.J. La Cristiandad y su Cosmovisión, P. 151-152.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O HOMEM É UM DEVEDOR INSOLVENTE

É curioso, mas o homem é um ser essencialmente instável. Foi feito para transcender-se, têm a vocação da transcendência. Não pode reduzir-se a permanecer nos limites de um humanismo enclausurado em si mesmo: ou se transcende elevando-se, ou se transcende degradando-se; ou se transcende para cima ou se transcende para baixo. Segundo Scheler, o núcleo substancial do homem se concentra neste impulso, nesta tendência espiritual de transcender-se. Thibon já o havia expresso ao seu modo: “O homem só se realiza superando-se; não chega a ser ele mesmo senão quando ultrapassa seus limites. E, a dizer a verdade, não tem limites, mas pode, segundo se lhe abra ou feche a porta a Deus, dilatar-se até o infinito ou reduzir-se até o nada”. Estranho esse traço do homem. Ou se eleva endeusando-se, como fizeram os santos, ou se degrada animalizando-se, como o filho prodigo que, após renunciar sua filiação enobrecedora, acabou apascentando cerdos. A decisão é intransferível, pessoal. Sempre nos repugnou aquela expressão: “cada um deve aceitar-se como é”. Os arquétipos e modelos se propõem à nossa consideração precisamente para que não nos aceitemos como somos, mas para que nos decidamos a transcender-nos. “Somos viajantes em busca da pátria – dizia Hello -, temos que elevar os olhos para reconhecer o caminho”. Conta Cervantes que os rústicos que escutavam o Quixote nos comércios terminavam arrebatados por seu discurso. É que aquelas palavras ardentes lhes permitiam reencontrar-se com o melhor deles mesmos, elevando seus corações acima da trivialidade cotidiana.
A existência do banal – disse Heidegger – é feita de abdicação e termina no tédio e na angustia, exigindo algo mais que o preencha e sacie. Foi Deus quem colocou em nós essa atração para o sublime, essa necessidade ontológica de nos superar, de ser distintos e melhores do que somos, esse anseio de quebrar o círculo estreito das apetências menores. Somente tendendo ao superior, chegamos a ser autenticamente nós mesmos; somente acendendo à atração das alturas, saímos de nossa subjetividade e nos tornamos capazes de pôr nossa vida ao serviço de Deus e dos demais.
A Declaração dos Direitos do Homem, tal como brotou do espirito da Revolução Francesa, contribuiu para criar nos homens uma consciência de credores exigentes, eclipsando a recordação da grande dívida de serviço que sobre todos pesa.


P. Alfredo SAÉNZ, S. J. Arquetipos cristianos, Pamplona: Fundación Gratis Date, 2005, p. 04.
                                      R.P Alfredo Saénz S.J

quarta-feira, 23 de julho de 2014

BARBÁRIE DA ALMA

“Marcel de Corte não se equivocava ao afirmar que as civilizações não morrem pelo impacto dos bárbaros de fora, mas pelo influxo de uma decomposição interna que se chama barbárie da alma, e como bárbaro significa estranho, pela introdução em nós de um elemento estranho que faz romper as fronteiras do humano. O mais trágico é que nossos contemporâneos sentem-se eufóricos, crendo haver chegado a 'plenitude dos tempos'. Justamente agora, quando se anuncia 'o fim da história', está se projetando o que pomposamente se chama 'A Carta da Terra', um programa político da 'Cúpula da Terra'. Referindo-se a ela disse Gorbachev, um de seus principais promotores que, o mecanismo a ser usado será a substituição dos Dez Mandamentos pelos Princípios contidos nesta 'Constituição a Terra'. Dezoito são estes 'princípios', o novo Credo aonde se inclui o feminismo, a homossexualidade, o aborto, a saúde reprodutiva. Desditado homem de nosso tempo! Não se encaminha precisamente para o ‘cume’ senão para o ‘abismo’”.

____ Pe. Alfredo SÁENZ. El hombre moderno: Descripción fenomenológica, Editorial Gladius, p. 88.


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sexta-feira, 28 de março de 2014

O HOMEM MODERNO

Dizíamos que este homem moderno desarraigado é fruto do grande processo revolucionário do mundo moderno. Não em vão aquelas duas revoluções a que acabamos de aludir [a francesa e a russa], e que tiveram a Europa por cenário, tentaram dissociá-lo de todas as suas re-ligações: de sua família, de sua profissão, de sua terra, de sua pátria, imaginando a sociedade política como um absoluto, diagramado por pensadores de gabinete, desenhado sobre uma mesa de escritório. A primeira revolução simbolizou concretamente dito projeto na famosa Lei Chapelier, que desligava o homem das corporações artesanais, para entregá-lo à segunda revolução que o obrigou a adaptar-se ao molde estatal. O homem ficou cada vez mais só e inerme ante um Estado cada vez mais onipotente, sem raízes nas famílias, nas associações intermediárias, na pátria, em Deus. 
Alfredo SÁENZ. El hombre moderno, descripción fenomenológica, Buenos Aires: Editorial Gladius, p. 08. 

segunda-feira, 17 de março de 2014

A ABOLIÇÃO DO ESPÍRITO

“[Aldous Huxley] quis mostrar uma sociedade ‘cientifica’ que não deixou nem rasto do direito natural nem da velha preocupação da justiça, uma sociedade na qual o ingênuo se sacrifica à coletividade, aonde se encontram todas as comodidades materiais e já não se experimenta a necessidade de algum tipo de assistência espiritual, porque, com uma sagaz utilização dos reflexos condicionados, se suprimiram as tendências espiritualistas do homem. Em uma palavra, se eliminou a dor moral e a angustia metafísica mediante a abolição do espírito. É o regresso do homem a uma existência puramente animal”.
R. P Alfredo SÁENZ. El Nuevo Orden Mundial en el pensamiento de Fukuyama, Ediciones del Pórtico, Buenos Aires: 2000, p. 118.