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terça-feira, 31 de outubro de 2017

É IMPOSSÍVEL CONSTRUIR UMA SOCIEDADE COM ELEMENTOS IGUAIS

“A essência de toda sociedade é a de agrupar seres desiguais em vista a seus fins comuns, como testemunha a mais fundamental das sociedades humanas baseada na diversidade de sexos e destinada a propagar a vida, condição indispensável para bem viver. É, pois, estritamente impossível construir uma sociedade com elementos iguais”.
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MARCEL DE CORTE. De la justice (1973).

sexta-feira, 17 de março de 2017

A VIRTUDE DA TEMPERANÇA

A temperança liga-se estreitamente à prudência pois modera as paixões do concupiscível e conserva-as num justo meio razoável entre o excesso e a carência. Ela se une à justiça pelos atos e pela rejeição à intemperança, vício essencialmente próprio ao indivíduo dedicado ao seu prazer pessoal. Ela é companheira da força, que luta pelo bem comum, já que é impossível ser forte sem ser temperante.
(...)
Não há nenhuma outra virtude que esteja em mais estreita conexão com todas as demais ou que lhe seja mais extensível: quase todas as virtudes, cardeais ou não, tem necessidade da temperança para se levar a efeito. Seu uso é freqüente, cotidiano, e, se a força a supera “dum certo modo” (quoad aliquid) por seu aspecto social, por sua freqüência necessária e pelos vínculos concretos com as demais virtudes, a temperança pode encontrar a preferência do moralista, não somente em relação à força, mas “mesmo à justiça”. Ela é uma virtude viril e santo Tomás, seguindo Aristóteles, comenta com precisão que seu contrário “é um pecado de concupiscência” excessiva que, de ordinário, atribuímos às crianças. Igualmente destaca, acompanhando “o mestre daqueles que sabem”, que a intemperança é um vício mais grave que a pusilanimidade, porque é mais voluntária, mais própria do homem feito. O pusilânime tem quase sempre o espírito paralisado diante do perigo da morte física ou moral; é mais sujeito aos impulsos exteriores que sofre, mais sensível aos riscos e às ameaças em geral. O intemperante é atraído pelos gozos particulares, adjacentes ou acessórios às concupiscências da natureza. Ora, “é pura e simplesmente mais voluntário o que é voluntário nas ações singulares, nas quais culminam a virtude ou o vício, no sentido próprio dos termos”.

Mas, indo um pouco além, estas ações singulares não estão isoladas de seus prolongamentos sociais. A vergonha que se associa à intemperança se opõe à honra e distinção da virtude contrária. Sem dúvida, a intemperança é freqüente em meio à humanidade, e sua repetição, por demais visível, parece diminuir a vergonha e a desonra que se associam a ela na opinião dos homens. Todavia, elas não se apagam completamente dali: a natureza do vício ao qual sucumbe o intemperante, marcada por sua gravidade, opõe-se a isto. Demais, os estigmas deixados pela intemperança sobre o aspecto do homem ― a abjeção de sua conduta libidinosa ― apagam, diz-nos Santo Tomás com profundeza, o brilho e a beleza inerentes ao homem temperante, equilibrado, dono de si, seguro das finalidades que persegue, e cuja razão ilumina, por sua transparência, os atos virtuosos. Um visível envilecimento caracteriza o libidinoso e, na mulher, os artifícios que o dissimulam só acentuam a ausência de castidade. Todos esses sinais, ao mesmo tempo individuais e sociais, cujos sentidos são evidentíssimos, manifestam que o homem ou a mulher entregues à intemperança se rebaixam ao nível do animal, destruindo em si as marcas do seu caráter verdadeiramente humano.
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Marcel de Corte. A temperança, virtude desaparecida. Publicado originalmente na Revista Itineraires n. 250, Fev/81 Tradução: Permanência.




sábado, 19 de novembro de 2016

DECORO TEATRAL DAS DEMORACIAS

“O que existe no puro decoro teatral das democracias são as minorias dirigentes que conquistam o Estado vacante e aí ocupam os postos de comando, seja diretamente, seja por pessoas interpostas. Ora, estas minorias que detêm as alavancas do Estado democrático não podem agir senão procedendo como se a democracia existisse. Elas na podem governar os cidadãos senão enganando-os e persuadindo-os de que eles detêm todos os poderes, quando na verdade eles estão privados do poder essencial de decisão e de direção detidos por eles teoricamente e que determina todos os outros. Em nenhum período da história o cidadão esteve mais desprovido de poder real do que na democracia moderna. E, entretanto, tudo se passa como se ele fosse real”.
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Marcel de Corte. Comunicação apresentada ao 2. Congresso do Ofício Internacional das Obras de Formação Cívica e de Ação Cultural segundo o Direito Natural e Cristão (Lausanne, 1965).

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

UMA CIVILIZAÇÃO NÃO PODE DURAR SEM ELITES VERDADEIRAS

Marcel de Corte (1905-1994)

 Já não se preocupam as famílias com a formação do caráter e dos costumes de seus rebentos: ou elas lhes buscam estabilidade e segurança, em lugar de insuflar a vitalidade que lhes permitiria chantar-se no real e traçar o próprio caminho na vida, ou então os abandonam sem guias ou apoio, o que dá no mesmo: ante o temor supersticioso do futuro, procuram salvaguarda, proteção e defesa contra os riscos e os golpes da fortuna. Não há como ser diferente numa sociedade privada de modelos e de elites que os encarnem. Para os adolescentes desvitalizados, o diploma aparece como a única saída, porque ele é o caminho mais fácil, não obstante o peso dos programas. Eles não dão a menor importância – e como poderiam? – aos fatores essenciais à vida: o caráter, a retidão da vontade, a honra, o dever, o senso moral e estético, etc., mas julgam somente a inteligência formal – o diploma é que faz o homem.
Segue-se que a sociedade moderna se inclina, sob a força desse peso, para o mandarinato. A idolatria do pergaminho é sinal indubitável da perda da invenção. Já que não existe a fonte de renovação que é o exemplo, perde-se a faculdade da retomada. Não suscitam mais êmulos os santos, os gênios e os heróis, e os “grandes homens” não passam de criações aventadas pela publicidade. Apesar desse turbilhão, a sociedade moderna tende à estagnação.

A conclusão a que chegamos, após análise tão alongada, será breve e clara: uma civilização não pode durar sem elites verdadeiras. É preciso que a sociedade as recupere, caso não queira submergir na barbárie. Diante dos olhos evidencia-se o inventário dos recursos – se ao menos nós o consultássemos! – em sua trágica antítese: por um lado, imensos meios de realização e técnica incomparável, conhecimento de detalhes elevado ao infinito; por outro, a ausência quase total da finalidade humana, o silêncio prodigioso sobre a questão fundamental: “para onde vamos?”, a derrocada do sentido de convergência. A saúde ameaçada da civilização depende da solução que daremos ao problema da rearticulação entre os meios e os fins. Ninguém duvida da dificuldade da solução; à primeira vista, o obscurecimento dos modelos vivos torna-a impossível. Por que é tecnicamente desenvolvida e humanamente atrofiada, perecerá a civilização?  De fato, isso não é nada. Se a grande cadeia dos modelos intermediários – os santos, os gênios e os heróis – perdeu o poder de atração, nos sobram nas extremidades dessa corrente dois tipos que ainda guardam o valor de exemplo: o Verbo Encarnado e o pai e a mãe de família. No cristianismo e no lar ainda se encontram inalteráveis os exemplos vivos da vida total. Nosso destino está preso à persistência dessa conjugação. Demais, a família cristã é o único lugar da terra onde ainda é possível, se quisermos, manter a elite. Se quisermos! Está tudo aí... Devem pai e mãe se comportar de tal maneira que os filhos possam admirá-los, aprová-los, imitá-los e descobrir neles os modelos de homem e cristão e os exemplos vivos de finalidade natural e sobrenatural; a subordinação dos meios aos fins reduz-se a um jogo quando se encarna lúcida e voluntariamente.
Destarte, pelo contágio do exemplo, hão de nascer elites novas, humildes, sólidas e verazes – no segredo do coração em oração perpétua, no segredo do lar de lume brilhante.


Marcel de CORTE. L'homme contre lui-même. Éd. de Paris, 2005; pp. 107-137.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A MULTIPLICAÇÃO DOS SÓS E O TOTALITARISMO MODERNO

Uma "sociedade" com a praga que Valery chama "a multiplicação dos sós", é necessariamente coletivista. Como diria o conselheiro Acácio, para ser eu, não é preciso ser outro, na dependência de outro, Deus, homem, hierarquia, sociedade, instituições, coisas, universo, nada em suma de tudo que é. É então necessário suprimir qualquer alienação, romper todos os vínculo que ainda unissem, mesmo mentalmente, o eu ao não-eu.
Mas, para que todas as subjetividades estejam na mesma situação, é preciso compor todo um Estado proprietário de tudo que não é o próprio eu, o eu esvaziado de ser, ou , se assim podemos dizer, o eu que recebe seu vazio de ser — Monstro anônimo em cujas mínimas percepções, se vê que não passa de um Aparelho manobrado por uma "nova classe dirigente" e minoritária.The madness of the many for the gain of a few, dizia Pope. Atrás do monstro estão os maquinistas.
Para ver isso, é preciso deixar toda a subjetividade. Ao contrário, quanto mais mergulhamos na subjetividade para liberá-la do que não é ela, tanto mais nos diluímos numa coletividade imaginária, numa espécie de "teosfera" de massa humana divinizada, que outra coisa não é senão o eu indefinidamente dilatado.


Marcel DE CORTE. Sartre, filósofo da contestação.

                               Marcel DE CORTE (1905-1994)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

ESTADO E COMUNIDADES NATURAIS

“Qualquer Estado que se edifique sobre as comunidades naturais e sobre os fundamentos que elas irradiam, vê de tal modo seu poder reduzido à sua justa medida, que raramente procede como manifestação de uma força exterior aos cidadãos. Mas, ao contrário, todo Estado sem sociedade é axiomaticamente coercitivo, policial, armado de um arsenal de leis e regulamentos encarregados de dar sentido às condutas imprevisíveis e anormais dos indivíduos. Sua tendência ao totalitarismo é diretamente proporcional à desaparição das comunidades naturais, à ruína dos costumes, à calamidade da educação.”


__ Marcel de CORTE. L'éducation politique, em “politique et loi naturelle”, Lausanne, 1967.


terça-feira, 22 de julho de 2014

DESENRAIZAMENTO EXISTENCIAL E INTELECTUAL

“A negação do ‘laço nupcial’ que une o homem ao universo desde sua chegada ao mundo, acarretou a recusa desta experiência vital que lastra com um peso real todas as faculdades, ações e projetos humanos. A inteligência do homem, em particular, renuncia receber ativamente por meio deste cordão umbilical, que a une com o mundo, com a realidade dos seres e das coisas.”


___ Marcel de CORTE. La educación política, Revista Verbo, Madri, n.54, p. 646.  

segunda-feira, 7 de julho de 2014

TODO ESTADO SEM SOCIEDADE É AXIOMATICAMENTE COERCITIVO

“Todo Estado edificado sobre as comunidades naturais e sobre a radicação que elas difundem, vê de tal sorte o seu poder reduzido à sua justa medida que raramente atua como uma manifestação de uma força exterior aos cidadãos. Ao contrário, todo Estado sem sociedade é axiomaticamente um Estado coercitivo, policial, armado de um arsenal de lei e regulamentos encarregados de dar sentido às condutas imprevisíveis e aberrantes dos indivíduos. Sua tendência ao totalitarismo é diretamente proporcional à desaparição das comunidades naturais, à ruína dos costumes, ao desastre da educação... Sem a proteção viva dos usos e costumes das sociedades naturais, o indivíduo não tem nenhum direito que lhe seja imediata e espontaneamente reconhecido”.

___ Marcel de CORTE. La éducation politique, 4, em Politique et loi naturelle, Atas do III Congresso de Lausanne, 1967. 

sábado, 5 de abril de 2014

FAMÍLIA E A HIERARQUIA NECESSÁRIA...

A família nos ensina a acatar, sem reservas, o que é a alma mesma de toda sociedade organizada: A hierarquia definida pelos serviços que presta. A igualdade que fascina nossos contemporâneos é a definição da morte social. Que intercâmbios haveria em uma associação de iguais, a não ser um trato verbal, falaz e vão? O intercâmbio exige a diferenciação, e a diferenciação, por sua vez, exige a hierarquia em cujo cume o intercâmbio se converte em dom. Nunca será suficientemente ressaltado que a comunidade familiar é aquela em que os pais dão sempre, sem nunca receber de seus filhos, em troca, coisa alguma além dos sinais de afeto. Os serviços e bens que os pais proporcionam não tem reciprocidade por parte de seus filhos. Somente mais tarde, quando eles mesmos tenham fundado um lar, os filhos se farão doadores. A reciprocidade do quid pro quo se estende na sucessão. Ai encontra-se a essência mesma da hierarquia: o verdadeiro chefe é aquele que da sem receber em troca ou aquele cuja liberalidade é sem medida comum com o que recebe, pois ordena no duplo sentido de ordenamento e de mandato, sem o qual toda sociedade se desmorona, e ele é o único que pode fazê-lo. A sociedade familiar é, nesse sentido, o modelo da sociedade política ideal onde o chefe identifica seu interesse pessoal ao interesse geral do qual é ponto chave, de tal modo que o primeiro é submerso pelo segundo... O paternalismo do qual estupidamente nosso tempo faz troça, é o elemento essencial das sociedades humanas e cuja continuidade engendra a continuidade da sociedade política. Um dos princípios mais importantes da política e cuja origem se encontra na família, que o imprime em todo ser humano mediante a educação, é o de que a maioria dos homens necessitam de um “protetor”, um homem com suficiente elevação sobre os demais para ajudar-lhes a consolidar sua natureza social fluida em demasia, para ajudar-lhes a resolver os problemas que apresenta sua inserção nas comunidades mais amplas e para ajudar-lhes a esclarecer a incógnita que representa sua relação com agrupações exteriores. A imagem do pai está sempre presente na autoridade geradora e protetora da ordem. É a que determina a seleção dos indivíduos que assumem esta carga. O que da notoriedade aos “notáveis”, aqueles que exercem qualquer poder na sociedade política, é sua capacidade de prestar serviço a modo de pai. Dirige-se a eles nas dificuldades da existência. Se lhes reveste deste modo de uma autoridade política. As “autoridades sociais”, segundo Le Play, são precisamente as famílias cujos membros, por terem tido uma educação levada além da geração presente e que se fizeram hereditária, contrariam o habito de doar-se socialmente e por isso gozam da estima geral e adquirem assim o direito de mandar. Augusto Comte, com sua habitual penetração, viu claramente que a relação de pai a filho condiciona toda a vida social e política: “como filhos, aprendemos a venerar a nossos superiores... mas é a paternidade a que nos ensina diretamente a amar a nossos inferiores”. A relação hierárquica entre superior e inferior, de que nenhuma sociedade pode prescindir, está, pois, enraizada na família que, por isso, é o elemento essencial da política. Tira sua força da permanência dos poderes complementares da natureza e da educação na família, pois a natureza prescreve a proteção do homem pelo homem, sem a qual não haveria ser humano que pudesse sobreviver, fazendo passar do homem para o homem a essência mesma da sociabilidade. Ela é assim, o lugar em que se realizam e transmitem de modo indivisivelmente biológico e humano, as experiências fundamentais que constituem a ossatura de toda comunidade.
  
Marcel DE CORTE. “L’education politique”.


terça-feira, 1 de abril de 2014

DISSOCIEDADE E ESTADO TOTALITÁRIO

Para o Estado contemporâneo e seus manipuladores, a democracia não é senão uma maquiagem, um enfeite, um adorno destinado a enganar os últimos devotos de uma religião que já expirou e que entrou em sua fase convencional de rigidez ritualista. Sob esta casca do Estado, no século XX, o que o observador descobre é apenas uma sociedade que não representa nada, uma dissociedade, uma “sociedade” que já nada deve aos impulsos originários da natureza social do homem e que os sociólogos denominaram sociedade de massas, definida pela simples justaposição de seus membros, todos homogêneos como as moléculas de um mesmo corpo material, todos igualmente desvitalizados, reduzidos ao estado de insetos, ou mais exatamente ao estado de “coisas” as quais o Estado assegura uma administração. Colocado diante de uma coletividade aonde já não há comunidades naturais senão indivíduos, o Estado adquire uma extensão ilimitada. Um Estado que coroa uma dissociedade está fatalmente destinado a ser, ele sozinho, toda a sociedade e a assumir todas as funções sociais que a natureza concedeu o homem... Salta aos olhos que o crescimento do Estado totalitário é correlativo ao declive da educação política que tem seu assento nas comunidades naturais. Nestas se articular o complemento da razão e da vontade com os impulsos da natureza e se contraem hábitos, comportamentos típicos, condutas submissas a normas bem cognoscíveis que fazem com que os atos de cada um de seus membros possam ser previstos pelos demais e que reina entre elas uma certa ordem em forma permanente enquanto as relações sociais se fundam na segurança de que o associado não enganará o seu sócio. A educação engendrou costumes comuns que fazem com que o curso normal das coisas raramente seja perturbado e que a autoridade não se exerça, no pleno sentido da palavra, mais que excepcionalmente, para ordenar ou defender. Os costumes que as comunidades naturais destilam continuamente, facilitam muito o governo da sociedade política e o tornam inclusive supérfluo enquanto o curso das coisas permaneça normal. Quanto mais constantes e arraigados sejam os usos e costumes, tal como é norma nas associações aonde a natureza possui a iniciativa, menos poderá lançar-se o poder soberano na corrida para o absolutismo que lhe é característico quando abandonado às suas próprias forças. É a educação e não o poder do Estado que dita ao cidadão o que se deve ou não fazer. Todo Estado construído sobre as comunidades naturais e sobre a educação que elas difundem, vê assim reduzido seu poder à sua justa medida; e este poder é poucas vezes sentido como uma força exterior aos cidadãos. Ao contrário, todo Estado sem sociedade é automaticamente um Estado coercitivo, policial, armado com um arsenal de leis e regulamentos com os que se encarrega de dar um sentido às imprevisíveis e aberrantes condutas dos indivíduos. Sua tendência ao totalitarismo é proporcional à debilitação das comunidades naturais, à ruína dos costumes, ao desmoronamento da educação... O terrificante Leviatã social que conhecemos, substitui as autoridades moderadoras que imprudentemente foram sendo eliminadas por uma Constituição ou uma legislação insensata.

Marcel de CORTE. La educacion política. Comunicação ao Congresso de Lausanne II. Verbo, n. 59, pp. 643-644.

sexta-feira, 28 de março de 2014

CRISTIANISMO DEGENERADO

O cristianismo dessobrenaturalizado é o mais poderoso fator de destruição da natureza do homem e da sociedade. Conforme o célebre verso de Péguy relativo ao primado do dinheiro no mundo moderno, se pode afirmar que, em razão de um cristianismo degenerado, laico, humanizado ou hominizado, o Estado se apoderou do lugar que Deus ocupava. O gênio de Nietzsche viu com olhos de águia: “A democracia é o cristianismo naturalizado”, é a projeção na natureza social do homem de um elemento de dissociação que a destrói e que conseqüentemente destrói o próprio cristianismo. A graça, sempre pessoal, ao já não encontrar natureza humana aonde implantar-se, cai em um lugar pedregoso, conforme a parábola evangélica.
Marcel de CORTE. De La sociedad a la termitera pasando por la “disociedad”.

terça-feira, 18 de março de 2014

O ESTADO PROPRIETÁRIO

“Uma 'sociedade' com a praga que Valery chama 'a multiplicação dos sós', é necessariamente coletivista. Como diria o conselheiro Acácio, para ser eu, não é preciso ser outro, na dependência de outro, Deus, homem, hierarquia, sociedade, instituições, coisas, universo, nada em suma de tudo que é. É então necessário suprimir qualquer alienação, romper todos os vínculos que ainda unissem, mesmo mentalmente, o eu ao não-eu. Mas, para que todas as subjetividades estejam na mesma situação, é preciso compor todo um Estado proprietário de tudo que não é o próprio eu, o eu esvaziado de ser, ou , se assim podemos dizer, o eu que recebe seu vazio de ser — Monstro anônimo em cujas mínimas percepções, se vê que não passa de um Aparelho manobrado por uma 'nova classe dirigente' e minoritária. The madness of the many for the gain of a few, dizia Pope. Atrás do monstro estão os maquinistas”.


Marcel DE CORTE (1905-1994). Sartre, filósofo da contestação. Trad. Gustavo Corção, publicado em Permanência, Novembro de 1970.

domingo, 16 de março de 2014

QUANDO O DIPLOMA FAZ O HOMEM

"Já não se preocupam as famílias com a formação do caráter e dos costumes de seus rebentos: ou elas lhes buscam estabilidade e segurança, em lugar de insuflar a vitalidade que lhes permitiria chantar-se no real e traçar o próprio caminho na vida, ou então os abandonam sem guias ou apoio, o que dá no mesmo: ante o temor supersticioso do futuro, procuram salvaguarda, proteção e defesa contra os riscos e os golpes da fortuna. Não há como ser diferente numa sociedade privada de modelos e de elites que os encarnem. Para os adolescentes desvitalizados, o diploma aparece como a única saída, porque ele é o caminho mais fácil, não obstante o peso dos programas. Eles não dão a menor importância – e como poderiam? – aos fatores essenciais à vida: o caráter, a retidão da vontade, a honra, o dever, o senso moral e estético, etc., mas julgam somente a inteligência formal – o diploma é que faz o homem".

Marcel de CORTE. L'homme contre lui-même.