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segunda-feira, 7 de julho de 2014

O AMADURECIMENTO CULTURAL DE UM POVO

“O amadurecimento cultural de um povo realiza-se em um lento predomínio do direito escrito sobre o costume, da unidade ou da estruturação sobre o localismo tribal, do plano teórico sobre a pura adaptação ao meio. Sem embargo, também nesta ordem a vitalidade consiste em uma tensão e equilíbrio entre o ideal e o real, em uma permanente tomada de contato com a realidade na qual não abstratize o saber nem se reduza a vida e as relações dos homens à esquematismos artificiais e infecundos. Assim como a saúde no homem é uma tensão e harmonia de suas faculdades, assim também a vida saudável dos povos deve sempre apoiar-se nas realidades concretas da agrupação local ou profissional e nos limites e dimensões criadas pela história e a tradição”.

____ Rafael GAMBRA. El silencio de Dios, Madrid: Editorial Prensa Española, 1968, capítulo IV, págs. 114 e ss.


domingo, 13 de abril de 2014

A SAGRADA TRADIÇÃO

“Ainda que o Vigário de Cristo silenciasse, o Espírito Santo não cessaria jamais de assistir, nem mesmo por um momento a sua Igreja na qual, mesmo em tempos de apostasia da Fé, uma porção embora pequena de pastores e de fiéis continuará sempre a preservar e transmitir a Tradição. Para eles o modelo é a Santíssima virgem Maria, a única que manteve a Fé, no sábado que antecedeu a Ressurreição. O seu coração foi, a partir de então, o escrínio da Tradição da Igreja. Em tempos de crise, a Sagrada Tradição continua a ser a regra infalível da Fé, o critério para discernir o que é católico daquilo que não o é, a luz que ilumina a Igreja, fazendo resplandecer nela os sinais que nunca evanescem e que a fazem inextinguivelmente una, santa, apostólica e romana”.

Roberto de MATTEI. Apologia da Tradição: post-scriptum do livro O Concílio Vaticano II – uma história nunca escrita, São Paulo: Ambientes & Costumes Editora, 2013, p.132.

A SANTA MISSA

"Se Deus em sua cólera não destruiu o mundo, por causa de suas culpabilidades monstruosas é devido à imolação constante, perene, do sangue do Verbo Encarnado, no sacrifício incruento da Missa”.
Frei Benvindo DESTÉFANI. Ao entardecer, São Paulo: Paulinas, 1954, p. 186.

quarta-feira, 26 de março de 2014

O SILÊNCIO DE DEUS

Em um século em que reina o conformismo do absurdo e da desordem, em que o ídolo da revolução permanente se converteu no centro de atração para os rebanhos de escravos teledirigidos, não há nada mais novo nem mais insólito que pregar o retorno às fontes e defender a natureza e a tradição. “Nunca como hoje o gênio de uma época se aplicou à destruição minuciosa de sua própria Cidade humana (de seus valores e de seu sentido) até o extremo paradoxo de que o conformismo ambiental se expressa hoje pela atividade revolucionária, e que a posição insustentável, heroica, chegou a ser a conservação e a fidelidade” (cfr. Cap. I, p. 25). A “Cidade dos homens” que defende Rafael GAMBRA era constituída por um conjunto de laços vivos e vividos que, através dos diferentes níveis da criação, mantinham o homem unido à sua origem e o orientava para seu fim. A casa, a pátria, o templo, o protegiam contra o isolamento no espaço; os costumes, os ritos, as tradições, ao fazer gravitar as horas em torno de um eixo imóvel, o elevavam acima do poder destrutor do tempo. Hoje presenciamos a agonia desta “Cidade dos homens”. O liberalismo, ao isolar os indivíduos, e o estatismo, ao reagrupá-los em vastos conjuntos artificiais e anônimos, transformaram a sociedade em um imenso deserto aonde as areias sem rumo são arrebatadas nos torvelinhos do vento da história. E o homem, vítima deste fenômeno de erosão, já não tem morada no espaço (se encontra, ao mesmo tempo, na prisão e no deserto), nem ponto de referência em um tempo pelo que corre cada vez mais depressa sem saber para aonde vai. As Cidades de outrora, ao enlaçar o homem com as realidades visíveis e invisíveis, o ajudavam a elevar-se sobre si mesmo. Hoje em dia, o ideal que lhe é proposto não é vertical, senão horizontal: está na corrida mesmo, na “fuga para frente”, e não no crescimento espiritual. Em lugar de tentar produzir um arquétipo eterno, o homem deve se deixar arrastar por um movimento perpétuo e sempre acelerado. (...) As antigas formas da sociedade, ao impregnar de sagrado quase todas as manifestações da vida temporal, penetravam o eterno no tempo e Deus se fazia presente na história. Mas esta aliança do social e do divino desmorona quando o homem não reconhece outro deus que ele mesmo, nem outra pátria que o mundo temporal transformado e desfigurado por suas mãos. E se aproxima a grandes passos a hora em que a idolatria do porvir lhe ocultará a eternidade.Esta será, sem dúvida, para os últimos fieis, a suprema prova da fé. A pureza, o heroísmo dessa fé serão medidas pela resistência do pneuma divino, interior e livre (spiritus fiat ubi vult) em relação ao vento servil da história. Ante o silêncio de Deus, os crentes de amanhã terão talvez que escolher entre a realidade invisível de uma eternidade em aparência sem provir e a miragem brilhante de um porvir sem eternidade. BÉRULLE definia o homem como “um nada capaz de Deus”. Mas eis que esse homem se transforma cada vez mais em um falso deus, incapaz do Deus verdadeiro. Chegaremos até o termo desta subversão e haverá que desaparecer da Cidade dos homens? Rafael GAMBRA se compraz em repetir as palavras demasiado lucidas de TAINE: “nenhum homem sensato pode já esperar”. Mas não esqueçamos (cito novamente Françoise CHAUVIN) que a “lucidez é a pior das cegueiras se não vê nada mais além daquilo que se vê”. O cristão, imitando o apóstolo São Paulo, está obrigado a esperar contra toda esperança (contra spem in spe), porque Cristo venceu o mundo e está vitória abarca a totalidade do tempo e do espaço. E, por incertas que sejam as probabilidades de êxito, nossa missão aqui embaixo consiste em restaurar pacientemente, em nós e em nosso redor, as condições para uma restauração da Cidade dos homens; quer dizer, em preparar um porvir à eternidade.Com este chamado termina este belo livro. Nosso desejo mais fervoroso é que seja escutado, no segredo das almas, como um eco do silêncio de Deus. 
Gustave THIBON. Prólogo do livro "El silencio de Dios" (Ciudadela, 2007), do ilustre pensador espanhol Rafael GAMBRA CIUDAD  (julho de 1920 – janeiro de 2004).


quinta-feira, 20 de março de 2014

O CAMPONÊS E A CASA

“... para o camponês a casa é um labor dos séculos, na qual, além de uma percepção real da perpetuação da espécie, é o labor mesmo que se perpetua sobre a terra. Porque, no campo, a casa é projetada para que atravesse os séculos como os velhos armários de carvalho que os antiquários, recentemente, saquearam nas velhas casas, e que eram construídos para durar como se costuma construir tudo no campo. Do mesmo modo a casa é reino aonde, desde o primeiro o dia, o homem conhece as duas monarquias: a do pai, no mando exterior, e a da mãe, no mando interior do lar. De tal modo que quando o homem busca uma mulher, não busca apenas uma companheira, mas sim alguém que possa ser uma boa mãe para a casa. Sob essas duas monarquias sagradas, o homem aprenderá a ser, por sua vez, monarca, com a carga de deveres-direitos que isso implica, e a força de capacidades-liberdades que lhe vão sendo concedidas à medida que cresce e amadurece. A casa é também escola, com milhares de ensinamentos que não se encontram em nenhum outro âmbito e lugar de forma tão natural e sem traumas como nela. Lições de coisas, lições de vida, lições de fé, de esperança e caridade, que se dão e que se recebem cotidianamente, lições da pequena história e da pequena geografia do pequeno torrão; o lugar aonde o tio João matou um javali, a arvore sobre a qual antes se dava sal para as vacas,... lições recebidas na própria pele pela voz de testemunhas inquestionáveis, aos que o amor impede mentir e, igualmente, aos que o amor faz crescer. Escola principal sem a qual todas as demais escolas encherão a mente de conhecimentos sem encher o coração”.


José Maria GIL MORENO DE MORA (1926-1979). Salvar el campo, salvar la patria. Verbo, n. 178, pp. 929-930.

ESPÍRITO DE ECONOMIA E ESPÍRITO DE SACRIFÍCIO

“Economizar, por na reserva, é uma exigência central da natureza humana, e entender estas palavras no único sentido de acumulação de bens materiais é limitar o problema e desnaturá-lo arbitrariamente. Um senhor medieval, um santo, um artista, um simples camponês encerrado no torrão paterno e de família numerosa, não acumulavam certamente dinheiro. Mas acumulavam outra coisa: um capital de virtudes, de tradições, de bons costumes, sem falar de outras reservas materiais, mas vitais, como as terras, as casas com seus mobiliários, etc. Estas gentes sabiam se negar à chamada do atrativo imediato. Sabiam privar-se de algo hoje (pense-se nos sacrifícios de um cavaleiro, de um asceta, de um simples pai de família) em função de um porvir que tinham que defender e fecundar. O espírito de economia, no sentido mais alto da palavra, se confunde com o espírito de fidelidade e de sacrifício”.


Gustavo THIBON (1903-2001). Diagnosticos de fisiologia social, Madrid: Nacional, 1958.