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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

SOCIEDADE E RELIGAÇÃO

“A Cidade é como um navio de homens, a bordo do qual, esses homens enfrentam a fúria dos elementos e alcançam seu termo ou destino, mas que também podem naufragar. Quando um barco é bem pilotado e reina a bordo a ordem e a hierarquia, tudo nele, até mesmo os defeitos da tripulação, aproveita para o bem (pensemos na rudeza dos marinheiros, que pode ser necessária em momentos de perigo). Quando, em troca, a direção do navio é débil e vacilante; quando se duvida da rota empreendida ou surge o temor do motim interno, tudo nele conspira para o mal, até mesmo as virtudes dos bons, a quem o próprio pânico na defesa dos seus converte em feras. E de tal maneira a vida privada e a pública são interdependentes que a corrupção da cidade corrompe ao homem, e em tanto maior medida quanto maior é a qualidade de sua alma, porque a ‘corrupção do melhor é o pior’. Semelhante à terra de má qualidade que prejudica, antes de tudo, as boas plantas fazendo-as degenerar ou morrer ao passo que permite a vida das ervas ruins, assim a sociedade – terra do homem – acarreta com sua corrupção a degeneração moral dos melhores”.

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Rafael GAMBRA. Sociedad y religación: la Ciudad como habitáculo humano. Revista Verbo, n. 91-92, p. 11.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A CORRUPÇÃO DOS MELHORES

“A Cidade é como um navio de homens, a bordo do qual, esses homens enfrentam a fúria dos elementos e alcançam seu termo ou destino, mas que também podem naufragar. Quando um barco é bem pilotado e reina a bordo a ordem e a hierarquia, tudo nele, até mesmo os defeitos da tripulação, aproveita para o bem (pensemos na rudeza dos marinheiros, que pode ser necessária em momentos de perigo). Quando, em troca, a direção do navio é débil e vacilante; quando se duvida da rota empreendida ou surge o temor do motim interno, tudo nele conspira para o mal, até mesmo as virtudes dos bons, aos quais o próprio pânico na defesa dos seus converte em feras. E de tal maneira a vida privada e a pública são interdependentes que a corrupção da cidade corrompe ao homem, e em tanto maior medida quanto maior é a qualidade de sua alma, porque a ‘corrupção do melhor é o pior’. Semelhante à terra de má qualidade que prejudica, antes de tudo, as boas plantas fazendo-as degenerar ou morrer, ao passo que permite a vida das ervas ruins, assim a sociedade – terra do homem – acarreta com sua corrupção a degeneração moral dos melhores”.
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Rafael GAMBRA. Sociedad y religación: la Ciudad como habitáculo humano. Revista Verbo, n. 91-92, p. 11.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

AS LEIS DE "EDUCAÇÃO"

Talvez nenhum instrumento tenha se revelado mais eficaz para dissolver o alicerce familiar de uma sociedade que as famosas Leis de Educação de inspiração socialista, “made in UNESCO”, como a lei Edgar Faure na França, ou a lei do “Libro Blanco” na Espanha.
Estas leis destinam-se – como oficialmente foi dito – a “mudar a mentalidade do país”, mas precisamente através da dissolução efetiva da sociedade familiar. O ensino geral e uniforme e obrigatório requer – como se sabe - concentrações escolares, mesmo assim gerais e obrigatórias. O pai de família ao ver partir seu filho de 10 anos em “condução escolar” para ser “educado” em outra cidade, por vezes distante e em regime de aquartelamento, de segunda a sábado, pode dizer adeus à alma deste filho, e também à ideia de continuidade familiar, ao prolongamento do seu trabalho, de suas terras, de tudo quanto poderia considerar “seu”. Se isto não pode evitar, como evitará anos mais tarde alguns cursos de “aperfeiçoamento cultural ou técnico” do seu filho, por exemplo, na União Soviética Talvez alguém considere aqui um exagero, e certamente o é pelo momento. Mas é sabido que o essencial está em aceitar o princípio (no caso, que a educação e “profissionalização” é assunto do Estado): o restante logo virá, é questão de apertar a seu tempo os parafusos.
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Rafael GAMBRA CIUDAD. As novas técnicas da Revolução Cultural, in Revista Hora Presente, novembro/1972, n. 13, p. 162-163. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

PORQUE DEUS SE CALA

Resenha do livro "El silencio de Dios" do saudoso filósofo espanhol, Rafael Gambra (Editorial Prensa Española, Madrid, 1968. Prólogo de Gustave Thibon), elaborada por José Pedro Galvão de Sousa.



Deixemos falar o próprio autor. Numa entrevista dada a propósito deste livro e publicada na revista Roca Viva, assim justifica Rafael Gambra o título do mesmo: "O título desse meu último livro faz referência ao silêncio que Cristo manteve diante de seus acusadores e diante dos que em sua vida humana lhe falaram para tentá-lo. Alude também ao silêncio com que Deus responde aos mais duros transes da vida espiritual humana, e a como o homem deve saber escutar e interpretar esse silêncio na profundidade da fé. Refere-se, enfim, à duríssima prova que para a sobrevivência da fé e da Cristandade está supondo isso que se chame hoje ‘experiência pós-conciliar’', à angústia daqueles que creem hoje perder a fé ou a esperança, enquanto Deus, uma vez mais, responde com o silêncio da sua dor''.
Mostra-nos o livro como nascem as civilizações históricas, mediante uma re-ligação transcendente, isto é, sobre bases sacralizadas, e como perecem por uma dissolução interior, decorrente de lenta erosão provocada pelo racionalismo, negador daquelas bases. Neste sentido, toma como ponto de partida o duplo conceito de engagement e apprivoisement, de Saint-Exupéry, para fazer o processo, à luz dessas noções, da civilização moderna tecnocratizada e paulatinamente desumanizada. Desligado de suas bases transcendentes, o homem acaba por se tornar também desligado dos "compromissos'' que o fazem participar da vida social no seu sentido mais profundo - o comunitário - e deixa de "domesticar'' os seres dos reinos inferiores que o cercam, tornando-se um estrangeiro no seu próprio mundo. Daí o fenômeno da massificação e as concepções mecanicistas do Estado de direito do liberalismo e do totalitarismo nivelador.
Na visão realista de Aristóteles, indivíduo e sociedade são "aspectos de um só ser: o homem concreto, que é ao mesmo tempo individual e social (natureza individual com radical tendência à sociabilidade), como demonstra o fato de que nunca se conheceram homens sem viver em sociedade, nem sociedade alguma que absorva a individualidade como nos grupos de animais gregários (formigueiros, enxames)''. O abstracionismo racionalista gerou primeiro a idéia do homem fora da sociedade, de Rousseau, inspirando o constitucionalismo liberal, e depois a concepção da sociedade absorvendo os homens, característica do Estado totalitário. Tanto para o liberalismo quanto para o socialismo, a sociedade passa a ser algo de extrínseco para o homem, sendo que no caso do socialismo o Estado a constrói como "um habitáculo técnico forjado mediante a organização e a adaptação dirigidas". A organização do Estado liberal cifra-se a uma técnica de convivência das liberdades, e a do Estado totalitário consiste no planejamento dos serviços e dos seguros abrangendo toda a via humana.
"Em face de tais concepções de fundo racionalista" - escreve Gambra - "a autêntica reivindicação humana se expressaria num impulso que, segundo seus diversos aspectos, poderíamos chamar corporativismo, institucionalismo ou comunitarismo histórico. A ordem social não se cifraria assim em criar ou manter um poder racional e neutro que vele só pela liberdade dos indivíduos ou que os proveja de meios e seguros. Mas, pelo contrário, consistiria em recuperar mediante o compromisso e a domesticação o universo existencial de grupos e de instituições capazes de conferir sentido histórico, cordial, à vida coletiva dos homens, e ao mesmo tempo defendê-la das supercriações do Estado racionalista planificador”. Assim, pôde escrever Camus num de seus últimos livros: "A verdadeira libertação do homem se apoiou sempre nas realidades mais concretas: a família, a profissão, o município, que fazem transparecer em seus limites o ser, o coração vivo das coisas e dos homens". Tal, enfim, a idéia de Saint-Exupéry, que concebe a cidade como o navio ou a mansão dos homens, "comunidade de laços, de recordações, de esperanças, onde cada passo e cada tempo tem sentido".

"Compromisso, domesticação (apprivoisement) e corporativismo histórico vêm a ser assim os correlatos dialéticos do que no século racional foram o individualismo, a atitude estética e o liberalismo".

São sempre estas as idéias que dirigem o fio das reflexões contida no presente volume: "Na entrega (compromisso) e no amor, o homem cria sua própria personalidade e seu mundo próprio. Na sua sêde ou seu fervor, e na domesticação de um mundo valioso e sagrado para êle, está o verdadeiro homem e o sentido de seus dias".
Belas páginas sobre a "aceleração da história" - tão bem estudada por Daniel Halévy e por Marcel de Corte - e um capítulo impressionante sobre "a jogralizaçao da fé", comentado estas palavras de João XXIII: "Não é culpado somente quem de modo deliberado desfigura a verdade, mas igualmente quem, para estar "em dia", a atraiçoa com uma atitude ambígua".
Em seu prólogo, Gustave Thibon assim se expressa: "Num século em que reina o conformismo do absurdo e da desordem, em que o ídolo da revolução permanente se converteu em centro de atração para os rebanhos de escravos teledirigidos, nada há de mais novo e mais insólito do que pregar o retorno às fontes e defender a natureza e a tradição".
Essa pregação tem sido uma constante na vida de Rafael Gambra. Em El silencio de Dios ele a retoma, em meio à amargura da hora presente, procurando sobrepor-se ao derrotismo e "esperar contra toda a esperança", segundo o conselho do Apóstolo, dando um brado veemente entre os "arautos e forjadores de uma futura reconciliação do homem com a Cidade; uma Cidade renovada cujos fundamentos re-ligados sejam aceitos na humildade, no amor, e nunca mais no orgulho racionalista dos "desmitificadores" da fé".
Clama, ne cesses... Este livro - diz ainda Thibon - é "um grito de alarma profético". A nós que não queremos fugir aos "compromissos" e ao apprivoisement, que queremos preservar a natureza e salvar os valores da tradição, cumpre-nos gritar até que a nossa voz se imponha e faça calar o linguajar bárbaro dos slogans condicionadores do pensamento teleguiado.
E um dia Deus romperá o seu silêncio.

José Pedro Galvão de Sousa.


Revista "Hora Presente" - Ano I - Janeiro/Fevereiro 1969 - Número 3

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

PODER CIVIL, LAICISMO E FIM ÚLTIMO DO HOMEM

 “Se ao poder civil corresponde ordenar a vida em comum para que esta seja possível, justa e virtuosa, à Igreja compete manter essa noção de virtude e o termo para o qual deve ordenar-se. Não pode a sociedade civil por si mesma (neutra ou “laicamente”) orientar os homens para a consecução da virtude sem a colaboração da Igreja que, mantendo o deposito da fé, poderá outorgar fundamento e sentido último às leis, fervor à comunidade e enlace ou orientação transcendente à ordem temporal. A independência dentro de seus limites do poder temporal e do espiritual exige uma simultânea complementação e harmonia dentro do que pode chamar-se sociedade global humana e ao sobrenatural. Daí que quando a Igreja abandona os postos retores e a representação que organicamente lhe corresponde em uma sociedade cristã a título de ‘renunciar a todo poder terreno’, ou quando deixa de defender a unidade religiosa de um país aonde esta existe e é reconhecida, não realiza um ato de generosa renuncia ao que é renunciável, nem outorga uma liberdade que está em suas mãos outorgar, mas realiza uma deserção daquilo que é o seu dever e que constitui uma parte fundamental de sua missão. Porque uma sociedade sem laços para com Deus, sem pontes com a Eternidade (labor do pontífice) , é, como o homem sem fé, uma Cidade sem esperança, regida pelas paixões desregradas, seja de poder, de conforto ou de igualdade; paixões insaciáveis em si mesmas, via que leva à indolência, à inconformidade ambiental, à violência e à corrupção. A partir da Revolução [francesa], e consonante com a básica antropologia racionalista, a ‘ortodoxia pública’ moderna estabelece que o fim único do homem – tanto individual como politicamente – é a sua própria realização ou desenvolvimento, sempre em luta contra toda forma de obstáculo, constrição, mitologia ou (em linguagem já atual) alienação. A Cidade humana, como a casa na definição de Le Corbusier, será uma mera ‘máquina para viver’. Já não significará palácio nem pátria, não terá rosto humano diferenciado e estável, nem rosto divino: não será séde da família nem da estirpe, nem pátria ou terra dos pais: apenas habitação planificada e administração tecnocrática. O conforto, a dinâmica social, o desenvolvimento e o ‘nível de vida’ se declaram únicos objetivos humanos em uma civilização que – em frase de Gustave Thibon – dotou o homem de todos meios de vida ao mesmo que lhe retirou as razões para viver. Hoje assistimos, como em um pesadelo alucinante, a incorporação – ao menos aparente – de importantes setores da Igreja Católica à esta mentalidade antireligiosa, tanto no plano da antropologia filosófica como no da laicização político-social. Desde as mais altas alocuções às mais modestas pregações dos ‘novos padres’ uma tênue e declinante tintura religiosa trata de mascarar uma nova pseudo-religião do Homem, do Desenvolvimento e da Paz. Em séculos anteriores surgiram no seio da Catolicidade germes desta mentalidade laicista e antropocêntrica.  O protestantismo, em nome da intimidade da fé, propôs desde logo uma desacralização, na apenas da ordem política, mas da própria Igreja; o modernismo, no século passado, e começo deste, sugeriu uma paulatina dissolução da Igreja na humanidade inteira – “povo de Deus” – e a interpretação das promessas evangélicas como o cumprimento do progresso cientifíco e social. Uma e outra tendência foram prontamente expelidas da ortodoxia católica.
À nossa época estava reservado um novo e generalizado germe de tais tendências até atingir a aparente supremacia no seio da própria Igreja. A concepção sustentada por Maritain da nova Cidade laica-cristã e as tendências da Democracia cristã que buscam a todo transe a harmonização entre o cristianismo e o Estado novo nascido da Revolução; o teilhardismo e o progressismo que pretendem uma identificação da fé cristã (previamente desmitificada) com as supostas conquistas da Ciência e técnica modernas e do evolucionismo, abrem caminho à uma absurda interpretação do Cristianismo como um ‘serviço à Humanidade’, ou como um auxiliar ‘espiritual’ da Democracia e do Socialismo universais. Não outro é o sentido de boa parte das palavras que as hierarquias muito autorizadas da Igreja Pós-conciliar nos fazem passar como ‘palavra de Deus’".


____  Rafael GAMBRA CIUDAD. Sociedad y religación: la Ciudad como habitáculo humano, Revista Verbo, Madri, ns. 91-92, janeiro-fevereiro de 1971, pp. 18-19.


terça-feira, 22 de julho de 2014

SOCIEDADE NIVELADA DE ALMAS EM SÉRIE

 “[vivemos em uma] humanidade de homens de mentalidade amorfa, educados apenas na ideia da igualdade e da inveja; de homens empenhados em parecer mulheres, de mulheres empenhadas em parecer homens, de clérigos obstinados em parecer seculares; de humanos em dissimular sua idade, sua condição, sua hierarquia, os limites e o sentido que ainda conserva sua vida... Sociedade nivelada de almas em série que abandonam as diferenças de situação ou de inserção humana que a constituíam em verdadeira sociedade e a guardavam de converter-se em massa ou rebanho”.

___ Rafael GAMBRA. El silencio de Dios, Madrid: Prensa Española, 1968, cap. VIII, p. 143.

sábado, 19 de julho de 2014

EDUCAÇÃO E REVOLUÇÃO

"Para Platão e os antigos, a polis ou cidade humana é, antes de tudo, uma escola de educação (de civilização, de cives), e a sadia e reta cidade – com a boa terra para a planta – são necessárias para a vida virtuosa, objeto ultimo de toda educação. A corrupção – ou a mera decadência dos ambientes – é causa imediata da ruína moral dos homens. Daí o interesse primordial da antiga pedagogia pela manutenção dos costumes, que são, como os hábitos para o indivíduo, o sustentáculo da sociedade em seu vigor e tensão interiores; e seu apoio do mesmo modo ao princípio de autoridade, especialmente do pátrio poder, a cuja imagem – sábio “paternalismo” – se concebia o ideal de toda e qualquer autoridade, inclusive a do Rei e a do Papa (Santo Padre, por excelência). Conceber – como se faz hoje – os costumes e as raízes (o arraigo, o afinco, a tradição) como estorvos/impedimentos ou “tabus” irracionais para o desenvolvimento e liberdade do homem, e substituir a educação familiar e paterna por um ensino massivo, estatal e regulamentador, é destruir os verdadeiros e estáveis fundamentos da ordem moral e do reto desenvolvimento da personalidade. Não nos esqueçamos que o último e mais refinado instrumento da Revolução é a chamada “revolução cultural”, cujos efeitos se revelam fulminantes para a definitiva estabulação gregária do gênero humano, e que, por desgraça, tantas versões tem embaladas “para exportação” no mundo de hoje".


___ Rafael GAMBRA CIUDAD. Educación y ensino. Revista VERBO (Madrid) Serie IX, ns. 85-86. Maio-Julho de 1970, p. 439-444.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O AMADURECIMENTO CULTURAL DE UM POVO

“O amadurecimento cultural de um povo realiza-se em um lento predomínio do direito escrito sobre o costume, da unidade ou da estruturação sobre o localismo tribal, do plano teórico sobre a pura adaptação ao meio. Sem embargo, também nesta ordem a vitalidade consiste em uma tensão e equilíbrio entre o ideal e o real, em uma permanente tomada de contato com a realidade na qual não abstratize o saber nem se reduza a vida e as relações dos homens à esquematismos artificiais e infecundos. Assim como a saúde no homem é uma tensão e harmonia de suas faculdades, assim também a vida saudável dos povos deve sempre apoiar-se nas realidades concretas da agrupação local ou profissional e nos limites e dimensões criadas pela história e a tradição”.

____ Rafael GAMBRA. El silencio de Dios, Madrid: Editorial Prensa Española, 1968, capítulo IV, págs. 114 e ss.


quarta-feira, 14 de maio de 2014

BASES ANTROPOLÓGICAS DA PROPRIEDADE

“Eliminar a propriedade privada é cortar definitivamente as bases econômicas da família e também de outras muitas instituições que servem de contrapoderes ao Estado e tornam possível a liberdade política. Em frase de Hilaire Belloc ‘tal solução seria como pretender cortar os horrores de uma religião falsa com o ateísmo, ou os males de um matrimônio fracassado com o divórcio, ou as tristezas da vida com o suicídio’. Entregar toda a riqueza possível à um só administrador universal [o Estado] supõem o definitivo desarraigamento do homem, reduzindo-o à sua condição meramente individual. Supõem também romper todo vínculo espiritual com as coisas, que deixarão assim de ser horizonte ou entorno humano para converter-se em fonte indiferenciada de subsistência. Paradoxalmente o coletivismo potencializa maximamente o individualismo e, através de um processo minucioso de massificação, elimina do coração humano toda relação com o mundo circundante que não seja a cobiça, a revolta e a inveja".


___Rafael GAMBRA CIUDAD. La propriedad: sus bases antropologicas, Revista Verbo, Madrid.

terça-feira, 15 de abril de 2014

A INVASÃO DOS BÁRBAROS

“Em nossos dias podemos ver sacerdotes e guardiões do Templo santo se unir à turba dos incendiários da Cidade e dedicar-se de forma desenfreada na demolição do patrimônio sagrado que eles receberam como depósito, como função. E assim os vemos hoje se empenharem na ‘desmistificação’ da fé, na ‘dessacralização’ do culto e outras iniciativas contraditórias, ao mesmo tempo em que definem a religião e a Igreja como ‘um serviço à Humanidade’. A promoção de uma vaga fraternidade humana, da paz, do desenvolvimento econômico, do bem-estar social e da igualdade são os objetivos explícitos de uma religião apenas de nome e de modo vergonhoso. Substituiu-se como paradigma à imagem ideal do monge macilento e ascético a do clérigo ‘eficaz’ e ativo... Mas, se a primazia da ação encerra a Cidade humana em um círculo sem saída em cujo centro sorri o Diabo do Fausto, quando essa mesma primazia é aplicada ao Templo o efeito é ainda maior: se o esvazia de sua própria substancia e realidade. O Templo já não é lugar de contemplação senão de ruído e de subversão, simplesmente porque já não é templo. Assim como a chamada sociedade de consumo e do transporte fácil origina uma atmosfera irrespirável, assim a corrupção do Templo torna impossível a oração pessoal, que é como a respiração da alma. A ruína total e definitiva da antiga Roma se resumiu sempre ‘na entrada dos bárbaros no Capitólio’, quer dizer, no templo supremo da Urbe. Nossa civilização não perece por bárbaros e estrangeiros, senão que produz ou destila de si mesma os seus próprios bárbaros. Em nossos dias se tem produzido a invasão destes bárbaros imanentes no Capitólio ou santuário de nossa Cidade, que é a Igreja Católica. Por isso não se trata de uma destruição exterior, a sangue e fogo, senão de uma autodemolição obstinada, silenciosa”.


Rafael GAMBRA CIUDAD. Sentido cristiano de la accion, Revista Verbo, ns. 119-120, 1973, pp. 961-962.

sábado, 5 de abril de 2014

O AMOR CONJUGAL E O ESPLENDOR DE NOSSA EXISTÊNCIA


Se não há outro luxo na vida que uma mão que se estende ou o calor de um olhar que nos diz: “não estás só, estou contigo”, será preciso concluir que só em germe esse luxo se encontra na amizade. Porque a amizade é plural e hierarquizada e sempre estabelece algumas reservas e condicionamentos. Somente no amor se realizará essa autentica luz ou esplendor de nossa existência. Não no amor tomado em seu sentido genérico, que inclui em si a amizade, ou companheirismo e outras mil formas de relação humana, senão em seu sentido estrito, aquele que se cimenta em estranhas afinidades seletivas entre o homem e a mulher. Somente neste laço humano pode culminar essa entrega mutua que nos salva da solidão e do exílio. Laço que é excludente e exclusivo dentro de seu gênero, e que se apresenta sempre com a pretensão de perenidade. Relação humana que pode ser capaz de superar as limitações e peripécias de cada vida humana e de amadurecer ao longo do tempo, penetrando desde as camadas biológicas até a entranha mesma da alma, o apex mentis (ápice da mente ou da personalidade) de que falava São Boaventura. “É assim – exclama Saint-Exupéry – como eu concebo a felicidade: o milagre de um rosto radiante, o mundo inteiro que se resume nele e se nos oferece. Que maravilha!” O amor não nasce do dialogo nem de prévios critérios estéticos ou eróticos: não existe justificação racional para o nascimento do amor. Transcende o tempo e ultrapassa os limites da morte. Para quem ama não existe um antes de seu amor porque em tudo o vê e recorda, como oferenda, através do ser amado. Nem se produz um depois absoluto porque o dialogo interior que é o pensamento não elimina pela morte esse único interlocutor profundo que é a pessoa amada. A rosa que o Pequeno Príncipe rega e abriga em seu pequeno asteroide sublima a mulher amada, mais concretamente a esposa, porque para Saint-Exupéry não existe outra plenitude que a do amor conjugal: “se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, de noite, olhar o céu: todas as estrelas estão floridas”. Apenas no matrimônio essa entrega mutua em que consiste o amor costuma consumar-se; apenas nele se opera o amadurecimento de quanto o nascimento de um verdadeiro leva em germe. Em uma longa vida conjugal o amor não se consome como a lenha em uma fogueira, senão que se transforma e sublima. O que a paixão primeira perde em intensidade ganha em profundidade, em compenetração e em ternura. O amor autêntico não é planta chamada a ser efêmera, como ocorre com os amores plurais. Estes deixam sempre na alma um resíduo de frustração e de incoerência. Apenas o amor permanente, compenetrado, paga pelo tempo que se foi.
Rafael GAMBRA. El exílio y El reino. Revista Verbo n. 231-232.

quarta-feira, 26 de março de 2014

O HOMEM CONTRA O REAL

“O homem de hoje trabalha sobre números, sobre esquemas e planos abstratos muito mais que sobre a realidade existente e diferenciada. Em nome de teorias igualitárias ou de uniformismos legais, o homem atual esqueceu ou destruiu realidades e ambientes milenares; devastou diferenças, hierárquias e costumes que constituiam o âmbito da vida e da autentica liberdade dos povos. Exemplos destes conceitos hoje todo poderosos e de validade universal são a Democracia, a igualidade, a Evolução, o Progresso, o Aggionarmento, o Humanismo. E como anti-conceitos absolutos a resistência, as classes, as diferenças, a discriminação, o paternalismo, a aristocracia”.
Rafael GAMBRA CIUDAD. Método racional, Verbo (Madri), número 53 (1967), pp. 223-226.