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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

EXISTE UMA ORDEM NATURAL?

A cultura moderna foi perdendo gradualmente o sentido da ordem à medida que a filosofia foi se desvinculando da realidade cotidiana para refugiar-se em um jogo mental, sem contato com as coisas concretas. Como consequência desse processo histórico, o homem foi substituindo os dados naturais da experiência pelas construções da razão e da imaginação.

As negações modernas da ordem

Surgiram, assim, nos últimos dois séculos, diversas doutrinas, as vezes opostas entre si, mas cujo denominador comum consiste na negação de uma ordem natural.
O materialismo positivista, o relativismo, o existencialismo, coincidem em negar a regularidade, a constância, a permanência da realidade, em particular, a existência de uma natureza humana e de uma ordem natural que sirvam de fundamento para as normas morais e para as relações sociais.
O materialismo positivista sustenta que todo o universo, tanto físico como humano, é constituído por um único princípio que é a matéria. Afirma que a matéria está em movimento e trata de justificar a variedade de seres de toda espécie que existem em nosso planeta dizendo que as diversas partículas materiais vão mudando de lugar e se associam como consequência de forças mecânicas, que iriam se combinando por um acaso gigantesco. O acaso cósmico é erigido para poder negar a existência de Deus e sua inteligência ordenadora do mundo.
Por sua vez, a corrente relativista nega a existência de toda realidade permanente. Apoiando-se na experiência da mudança, das variações que se dão tanto na realidade física como na humana, o relativismo, nega toda verdade transcendente e todo valor moral universal.  Em semelhante concepção todo conhecimento, toda norma ética, toda estrutura social, são relativos a um tempo dado e um lugar determinado, mas perdem toda vigência em outros casos. Tudo muda, tudo se transforma incessantemente, sem que se possa falar de uma ordem essencial.
De modo semelhante ao relativismo, a corrente existencialista enfatiza a contingencia, nas incessantes variações que afetam a condição humana. O homem carece de natureza – proclama o existencialista ateu Jean-Paul Sartre – e ao não ter natureza, tampouco existe um Autor da natureza, quer dizer, Deus (ver L’existencialisme est un humanisme, ed. Nagel, París, 1968, p. 22). Em consequência, o homem constrói a si mesmo através de sua liberdade; é o mero “projeto de sua liberdade”, carece de essência e só existe em um mundo absurdo, sem ordem nem sentido algum. Não há, portanto, outra moral a não ser a que o indivíduo fabrica para si. O existencialismo é um subjetivismo radical, no qual desaparece toda referência à realidade objetiva.

A raiz do erro

Em todos estes apóstolos da mudança pela mudança, a negação da Natureza e de sua ordem procedem de um mesmo erro fundamental. Participam da falsa crença de que falar de “essência”, de “natureza”, de “ordem”, implica cair em uma postura rígida, imóvel, totalmente estática. Isso é totalmente gratuito, pois não conexão alguma entre ambas afirmações.
O problema real consiste em explicar a mudança, o movimento. Para poder fazê-lo, devemos reconhecer que em toda transformação há um elemento que varia e outro elemento que permanece. Se não fosse assim, não poderíamos dizer que uma criança cresceu, que uma semente germinou em planta ou que nós somos os mesmos desde que nascemos há 20, 30 ou 70 anos... Se nada permanecesse, teríamos que admitir que a criança, a planta ou nós mesmos, somos seres absolutamente diferentes daqueles. Para que haja mudança deve haver algo que mudou, quer dizer, um sujeito da mudança. Do contrário, não haveria mudança alguma.
A filosofia cristão opõem à estes erros uma concepção muito distinta e conforme a experiência. Para além de toda mudança, há realidades permanentes: a essência ou natureza de cada coisa ou ser.
A evidencia da mudança não só não suprime essa natureza mas a pressupõem necessariamente. A experiência cotidiana nos mostra que as pereiras dão sempre peras e não maçãs nem nós moscada, e que os olmos nunca produzem peras. Por não se sabe que deplorável “estabilidade” as vacas sempre têm terneiros e não girafas nem elefantes, e, o que é ainda mais escandaloso, os terneiros têm sempre uma cabeça, uma calda e quatro patas... E quando em alguma ocasião aparece algum com cinco patas ou com duas cabeças, o bom senso exclama espontaneamente: “Que barbaridade, pobre animal, que defeituoso!” Reações que não fazem senão provar que não só há natureza mas que existe uma ordem natural. A evidencia dessa ordem universal é que nos permite distinguir o normal do patológico, o são do enfermo, o loco do lúcido, o motor que funcionava bem do que funciona mal, o bom pai do mal pai, a lei justa da lei injusta.

A ciência confirma a existência de uma ordem

O simples contato com as coisas, nos mostra, pois, que o natural existe na intimidade de cada ser. Porque a formiga é o que é, pode caminhar, alimentar-se e defender-se como o faz; porque o joão-de-barro é como é, pode construir seu ninho tal como faz; porque o homem é como é naturalmente, pode pensar, sentir, amar e trabalhar humanamente...
Mas a ciência aporta uma confirmação assombrosa à constatação não só de que cada ser têm uma essência ou natureza, mas de que essa natureza não é fruto do acaso, mas que possui uma Ordem, uma hierarquia, uma harmonia que se manifesta em todos os seres e em todos os fenômenos.
A simples observação nos mostra, com efeito, que há leis naturais que regem os fenômenos físicos e humanos. O homem sempre admirou a regularidade da marcha dos planetas, das inumeráveis constelações; sempre se assombrou com o ritmo das estações, das marés, da geração da vida.  
Mas o progresso cientifico atual, a física e a química contemporâneas, nos diz que uma simples molécula de proteína contém 18 aminoácidos diferentes, dispostos em uma ordem bem estruturada.
Uma única molécula de albumina inclui dezenas de milhares de milhões de átomos, agrupados ordenadamente em uma estrutura dissimétrica. Hoje sabemos que um ser vivo é constituído principalmente por moléculas de proteínas que contém entre 300 e 1.000 aminoácidos. As transformações químicas das células são catalisadas por enzimas, que por sua vez possuem estruturas particulares.
Um só organismo unicelular possui abundantes proteínas, além de lipídios, açucares, vitaminas, ácidos nucleicos.
Como explicar, então, à luz destas constatações, que a estrutura intima da matéria em seus níveis mais elementares exige um ordenamento tão perfeito, tão delicado, tão constante, para poder produzir o mais simples dos seres vivos? Se a isso somamos a existência não de um mas de milhões de milhões de organismos monocelulares e a complexidade pavorosa dos organismos mais complexos, como sustentar que um acaso cedo preside tanta maravilha?
O moderno cálculo de probabilidades prova a impossibilidade de uma pura combinação fortuita.
Em consequência, nem o acaso cego do materialismo, nem o relativismo, nem o subjetivismo existencialista conseguem explicar a ordem assombrosa do cosmo físico e da vida humana.

Por outro lado, como explicar logicamente a incoerência dos relativistas, para quem – como já apontado por Aristóteles há 25 séculos – tudo é relativo salvo o próprio relativismo?

Carlos Alberto SACHERI. El orden natural, 6. ed. [1. ed de 1975], Buenos Aires: Vórtice, 2008, pp. 45-48.


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O HOMEM CONTRA A CRIAÇÃO

"Homem e mulher são diferentes no corpo e na alma, na biologia, no sentir, no amar e no entender, mas são diferentes para serem um para o outro, e os dois, através das diferenças e relação mútua, para criação do filho, em que colaboram intimamente com Deus – eles, os pais, no corpo, em tudo o que o corpo traz à vida, no sentimento, no coração, quase na alma; Deus, na alma transcendente, nesse quase que está para além dos pais e os pais, por não serem divindade, não podem acabar. Os pais lhe dão a terra; Deus, o que está para além da terra, o destino transcendente dos seres espirituais.
Deus está presente já na própria concepção dando ao amor dos pais a oferta criadora duma nova alma. É nesta associação espantosa de Deus e do homem, não dada à criação em momento algum, que se tornam, homem e mulher, na regra fundamental do viver humano, à qual tudo deve estar subordinado.
A família supõe assim, por estes fatos fundamentais, a ordem criada. Deus colabora na ordem que criou e através dela. Não se sujeita a colaborar numa ordem criada pelo homem, sem Ele.
A complementaridade, e diferenciação dos sexos é assim o fato primário, a própria condição de existência na terra da obra suprema da divindade. Não admira que, num mundo em que se está a negar a diferenciação e complementaridade dos sexos, se substitua a graça da criação pela tragédia da destruição das fontes da vida e da própria vida, como sucede na anticoncepção e nas destruições maciças em que a humanidade, invocando um amor que não foi criado, se extingue de dia para dia... o que leva já alguns governos temerem, não o espectro neo-maltusiano da sobre população, mas o vácuo ainda mais pavoroso da extinção dos seus povos por falta de procriação.
A grande ameaça da humanidade de hoje não é o aumento da população que as máquinas calculam nos gabinetes do planejamento mundial, não são as bombas atômicas que ainda não conseguiram matar além de escassas centenas de milhares de vidas; espantosamente, segundo uma evidência em que o senso comum, (por se Ter completamente perdido, certamente) não acredita, é o aborto, que mata atualmente milhões e que já matou cerca de 50 milhões de homens nos últimos 20 anos. (P.S.: o presente artigo foi escrito em 1971)
Deus não colabora com o homem numa ordem criada contra uma ordem que Ele criou, e se a humanidade, que ainda não destruiu o instinto inicialmente dado, ainda cresce, não demorará extinguir-se pouco a pouco, em face da maior razia de vidas que nunca peste ou fome ou guerra lhe trouxe na história passada. Bom será que o presente século, hipnotizado pela doutrina econômica do neo-maltusianismo, ao menos, por um imperativo também econômico, considere urgentemente uma nova doutrina, anti maltusiana agora.
Começa por divergir a história atual, logo de início, da ordem criada, e também, na ordem criada, a sentir efeitos devastadores. Pode o homem tentar criar uma nova natureza, não pode livrar-se da vingança da natureza destruída. As leis que Deus criou, para todos evidentes, atuam sempre, ou criando, ou destruindo, por elas mesmas. E estas leis vingam-se implacavelmente, num determinismo cego a que o homem não pode fugir. É o preço da nova criação".

___ Luis de SENA ESTEVES. Trecho extraído da Revista católica Hora Presente, Ano III, Dezembro de 1971, n°11, p.176-177

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

ESTADO E COMUNIDADES NATURAIS

“Qualquer Estado que se edifique sobre as comunidades naturais e sobre os fundamentos que elas irradiam, vê de tal modo seu poder reduzido à sua justa medida, que raramente procede como manifestação de uma força exterior aos cidadãos. Mas, ao contrário, todo Estado sem sociedade é axiomaticamente coercitivo, policial, armado de um arsenal de leis e regulamentos encarregados de dar sentido às condutas imprevisíveis e anormais dos indivíduos. Sua tendência ao totalitarismo é diretamente proporcional à desaparição das comunidades naturais, à ruína dos costumes, à calamidade da educação.”


__ Marcel de CORTE. L'éducation politique, em “politique et loi naturelle”, Lausanne, 1967.


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

PODER CIVIL, LAICISMO E FIM ÚLTIMO DO HOMEM

 “Se ao poder civil corresponde ordenar a vida em comum para que esta seja possível, justa e virtuosa, à Igreja compete manter essa noção de virtude e o termo para o qual deve ordenar-se. Não pode a sociedade civil por si mesma (neutra ou “laicamente”) orientar os homens para a consecução da virtude sem a colaboração da Igreja que, mantendo o deposito da fé, poderá outorgar fundamento e sentido último às leis, fervor à comunidade e enlace ou orientação transcendente à ordem temporal. A independência dentro de seus limites do poder temporal e do espiritual exige uma simultânea complementação e harmonia dentro do que pode chamar-se sociedade global humana e ao sobrenatural. Daí que quando a Igreja abandona os postos retores e a representação que organicamente lhe corresponde em uma sociedade cristã a título de ‘renunciar a todo poder terreno’, ou quando deixa de defender a unidade religiosa de um país aonde esta existe e é reconhecida, não realiza um ato de generosa renuncia ao que é renunciável, nem outorga uma liberdade que está em suas mãos outorgar, mas realiza uma deserção daquilo que é o seu dever e que constitui uma parte fundamental de sua missão. Porque uma sociedade sem laços para com Deus, sem pontes com a Eternidade (labor do pontífice) , é, como o homem sem fé, uma Cidade sem esperança, regida pelas paixões desregradas, seja de poder, de conforto ou de igualdade; paixões insaciáveis em si mesmas, via que leva à indolência, à inconformidade ambiental, à violência e à corrupção. A partir da Revolução [francesa], e consonante com a básica antropologia racionalista, a ‘ortodoxia pública’ moderna estabelece que o fim único do homem – tanto individual como politicamente – é a sua própria realização ou desenvolvimento, sempre em luta contra toda forma de obstáculo, constrição, mitologia ou (em linguagem já atual) alienação. A Cidade humana, como a casa na definição de Le Corbusier, será uma mera ‘máquina para viver’. Já não significará palácio nem pátria, não terá rosto humano diferenciado e estável, nem rosto divino: não será séde da família nem da estirpe, nem pátria ou terra dos pais: apenas habitação planificada e administração tecnocrática. O conforto, a dinâmica social, o desenvolvimento e o ‘nível de vida’ se declaram únicos objetivos humanos em uma civilização que – em frase de Gustave Thibon – dotou o homem de todos meios de vida ao mesmo que lhe retirou as razões para viver. Hoje assistimos, como em um pesadelo alucinante, a incorporação – ao menos aparente – de importantes setores da Igreja Católica à esta mentalidade antireligiosa, tanto no plano da antropologia filosófica como no da laicização político-social. Desde as mais altas alocuções às mais modestas pregações dos ‘novos padres’ uma tênue e declinante tintura religiosa trata de mascarar uma nova pseudo-religião do Homem, do Desenvolvimento e da Paz. Em séculos anteriores surgiram no seio da Catolicidade germes desta mentalidade laicista e antropocêntrica.  O protestantismo, em nome da intimidade da fé, propôs desde logo uma desacralização, na apenas da ordem política, mas da própria Igreja; o modernismo, no século passado, e começo deste, sugeriu uma paulatina dissolução da Igreja na humanidade inteira – “povo de Deus” – e a interpretação das promessas evangélicas como o cumprimento do progresso cientifíco e social. Uma e outra tendência foram prontamente expelidas da ortodoxia católica.
À nossa época estava reservado um novo e generalizado germe de tais tendências até atingir a aparente supremacia no seio da própria Igreja. A concepção sustentada por Maritain da nova Cidade laica-cristã e as tendências da Democracia cristã que buscam a todo transe a harmonização entre o cristianismo e o Estado novo nascido da Revolução; o teilhardismo e o progressismo que pretendem uma identificação da fé cristã (previamente desmitificada) com as supostas conquistas da Ciência e técnica modernas e do evolucionismo, abrem caminho à uma absurda interpretação do Cristianismo como um ‘serviço à Humanidade’, ou como um auxiliar ‘espiritual’ da Democracia e do Socialismo universais. Não outro é o sentido de boa parte das palavras que as hierarquias muito autorizadas da Igreja Pós-conciliar nos fazem passar como ‘palavra de Deus’".


____  Rafael GAMBRA CIUDAD. Sociedad y religación: la Ciudad como habitáculo humano, Revista Verbo, Madri, ns. 91-92, janeiro-fevereiro de 1971, pp. 18-19.


A LEI NATURAL E A LEI ESCRITA

É preciso primeiro constatar que toda forma de sociedade comporta dois elementos: a seiva e a casca ou, se se preferir, a fonte e o canal: de um lado, o clima vivo, orgânico da Cidade, meio e veiculo dos valores que alimentam o ser interior (costumes, tradições, artes, religião, etc.), e de outro, o aparelho, o enquadramento legal da Cidade. Em outras palavras, a lei natural, suporte da lei divina, e a lei escrita. Aqui se impõe uma observação fundamental. As leis naturais, porque emanam do fundo imutável das coisas (o qual permite, na superfície, uma grande liberdade de movimento), são ao mesmo tempo permanentes no seu princípio e muito flexíveis nas suas aplicações: no limite, a obediência absoluta a Deus se confunde com a "santa liberdade dos filhos de Deus" (parere Deos liberta est, dizia Sêneca). As leis escritas, ao contrário, são ao mesmo tempo muito rígidas (elas não levam em consideração a diversidade dos indivíduos) e muito instáveis e cambiantes: basta, por exemplo, uma mudança de regime político para que o aparelho das leis e regulamentos seja modificado completamente. Elas fazem pouco da liberdade individual por sua uniformidade e a desorientam pela rapidez de suas mutações... a melhor forma de sociedade é aquela onde o segundo desses elementos se situa no prolongamento do primeiro, onde a lei escrita vem apoiar e codificar a lei não escrita que emana, não somente da natureza universal do homem, mas ainda do gênio particular de tal ou qual nação. Sem nada idealizar (porque sempre existe uma distância e uma tensão entre esses dois polos da realidade social), o direito romano se inscrevia na linha do gênio do povo romano, a constituição helvética corresponde ao desejo íntimo dos habitantes da Confederação, a democracia e o direito consuetudinário britânicos foram elaborados em função do caráter anglo-saxão, etc. Aqui o direito escrito aparece como a rede protetora da lei natural. Inversamente, uma sociedade degenera na medida em que o segundo polo (o da lei escrita) contraria ou absorve o primeiro, quando a pele abafa a seiva. "O que são as boas leis sem os bons costumes?", dizia Cícero. E Victor Hugo: "Na França, há dez mil leis e regulamentos entre nós e a liberdade". Neste caso, é o juridicismo contra o direito e a inadequação de todas as leis que são estranhas aos costumes ou simplesmente estão muito adiante dos costumes. Poder-se-iam invocar aqui sistemas de previdência social cujo bom funcionamento exigiria um grau de maturidade moral que o povo, no seu conjunto, está longe de ter atingido; o drama dos povos recentemente libertados da tutela colonial, certas leis contra o alcoolismo ou a prostituição e, mais geralmente, todos os ensaios de reforma que, por não estarem adaptados ao estado dos costumes, não fazem senão agravar os males que pretendem curar.
Resumamos. As melhores formas de sociedade são aquelas cujas estruturas comportam o máximo de vínculos vivos e interiores. Por outras palavras, aquelas em que a coletividade se organiza sob uma dupla influência: primeiro, aquela da necessidade elementar de polaridade biológica (a família, o grupo humano arejado em que cada um permanece ele mesmo em sua relação com o próximo, o trabalho, o pertencer comum a um solo, a um clima, a uma tradição, em resumo a Cidade em que o passado é o suporte e o alimento do presente e em que a hierarquia das funções se enraiza na diversidade das vocações); em seguida, aquela influência de um apelo espiritual representado por uma cultura e uma arte que traduzem o espírito de um povo, por uma religião ao mesmo tempo universal e encarnada. Uma tal sociedade prolonga, coroa, corrige se necessário, mas sem aboli-la, a diversidade humana; ela constitui uma síntese da qual cada elemento conserva e desenvolve sua integridade, sem justaposição nem mistura; a identidade do fim aí concorre para a expansão da diferença original que cada indivíduo traz em si. Apressamo-nos a acrescentar que nenhuma formação social atende plenamente a esse ideal. Todas as sociedades estão mais ou menos em equilíbrio instável, todas apresentam imperfeições e fraturas (opressão, parasitismo, farisaismo, etc.) mas, sem realizar o bem absoluto, impossível de atingir aqui em baixo neste mundo, é já uma grande vantagem encarnar o menor dos males. Schopenhauer dizia que os reis que inscreviam no começo de seus ordenamentos: "Nós, pela graça de Deus" teriam estado mais perto da verdade dizendo: "Nós, dos males o menos, decretamos que..." Enfim, como os indivíduos, todas as formas de sociedade tornam-se caducas e as novas formas que as substituem, mesmo se (o que está longe de ser sempre o caso) estas constituem um progresso positivo em relação às precedentes, continuam fatalmente misturadas ao bem e ao mal. Um só exemplo. O parasitismo social existia, no Antigo Regime, sob a forma do senhor ocioso e do cortesão e no no século XIX sob a figura do rendeiro não menos ocioso. Hoje, esses tipos humanos praticamente desapareceram, mas o número de parasitas em relação ao conjunto da população certamente não diminuiu. Citemos de memória os funcionários inúteis, os desfrutantes dos "trusts" ou do Estado e os inúmeros "trabalhadores" que exercem atividades supérfluas ou nocivas. Todas eles são parasitas, no sentido de que eles não proporcionam à coletividade o equivalente aos bens reais que eles consomem. E não creio que esse mal possa jamais ser totalmente eliminado.

___ Gustave THIBON. Realidade social e miragem coletivista. Revista Hora Presente, n. 1, set/out 1968.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

ORDEM NATURAL

"Todo direito se funda no critério moral do justo e do injusto inato na razão humana. O direito natural não foi inventado pela razão, nem fabricado pelos juristas. Não é imanente mas transcendente. Está na razão, anteriormente a todo direito escrito. É uma norma de conduta tão sólida como os princípios da inteligência são uma norma da atividade especulativa e assim como não se pode pensar fora dos princípios da inteligência, assim também não se pode agir fora do princípio pelo qual devemos fazer o bem e evitar o mal. Santo Tomás elaborou uma admirável fundamentação metafísica do direito natural, que é constituído pelos princípios inerentes à natureza racional do homem; e o direito civil só é direito quando traduz o direito natural. Os Estados não são a fonte da moral e do direito e uma lei não é justa pelo simples fato de ter sido promulgada pelo Estado. Os Estados contemporâneos, oriundos do individualismo com suas raízes idealistas e do socialismo, com suas raízes materialistas, podem promulgar e promulgam muitas leis injustas, que ferem os princípios do direito natural. O Estado individualista, e o Estado socialista principalmente, já são em si mesmos violações do direito natural que repele, com a mesma energia, o individualismo e o socialismo.
O direito natural é um conjunto de preceitos transcendentes que devem reger não só o comportamento dos indivíduos, mas também a ação dos Estados. É um limite que se impõe ao poder cada vez maior do Estado, que aniquila, nega, destrói os mais invioláveis direitos naturais da personalidade humana. O Estado contemporâneo, fundando-se no incrível pressuposto de que o indivíduo vive para a espécie e o cidadão para o Estado, se converteu numa sociedade anônima de fabricação de leis em massa e em série, que não têm na menor conta o fato essencial pelo qual o Estado não é fim mas simples meio e a personalidade humana não é simples meio mas verdadeiro fim. Tudo quanto destrói os direitos e as liberdades concretas da personalidade humana atinge frontalmente o direito natural, é uma violação da lei verdadeira, que não passará impunemente porque há de reverter na maior das infelicidades sociais. Só o direito natural é justo. E um Estado só realizará a justiça social quando todas as suas leis escritas se fundarem na razão natural, em diametral oposição com as reformas atuais, que fazem do indivíduo um autômato, da sociedade, um rebanho e da liberdade, um mito. Pode-se legalizar a injustiça e a fraude; pode-se erigir em sistema a espoliação da família pelos impostos de transmissão e as partilhas obrigatórias; pode-se eliminar o direito de propriedade pelos tributos extorsivos; pode-se proletarizar o trabalhador e gravar o rendimento do trabalho com taxas excessivas e contribuições calamitosas; pode-se confundir a educação com a instrução, negando à religião o direito de educar e conferindo ao Estado o a obrigação inoperante de instruir. Pode-se em suma negar o direito natural em todos os seus graus. Mas não se pode com isso abolir um profundo senso de injustiça, nem substituir o direito natural por um direito artificial.
O Estado tem a força para garantir a execução de suas leis escritas, justas ou injustas. Mas a ordem natural tem uma sanção muito mais poderosa no fato de que toda a sua violação é punida pela desgraça geral, pela desordem, pela instabilidade, pela revolta e pelo caos”.


___ Heraldo BARBUY. In Ecos Universitários (Órgão Oficial do Centro Acadêmico "Sedes Sapientiae". Ano III, nº 13, São Paulo, setembro de 1950, p. 1).


terça-feira, 22 de julho de 2014

DESENRAIZAMENTO EXISTENCIAL E INTELECTUAL

“A negação do ‘laço nupcial’ que une o homem ao universo desde sua chegada ao mundo, acarretou a recusa desta experiência vital que lastra com um peso real todas as faculdades, ações e projetos humanos. A inteligência do homem, em particular, renuncia receber ativamente por meio deste cordão umbilical, que a une com o mundo, com a realidade dos seres e das coisas.”


___ Marcel de CORTE. La educación política, Revista Verbo, Madri, n.54, p. 646.  

quarta-feira, 16 de julho de 2014

MINHA CÁTEDRA É MINHA PALAVRA

“Minha cátedra é minha palavra, e é também minha vida. Minha palavra compromete somente a mim: eu não falo respaldado por alguma instituição, nem por alguma força. Não tenho outro compromisso além da verdade, e sou inteiramente tributário à ela. Por isso rogo a Deus que ajude em minha debilidade para ser fiel até a morte aos princípios egrégios da filosofia ocidental. Vamos nos ocupar da religião, da pátria e da família. Três princípios de vida verdadeira, íntegra e plena; três causas intimamente próximas no desenvolvimento, na formação e atuação da pessoa humana; três instituições necessárias e imprescindíveis para que o homem possa existir em conformidade com seu ser e com o fim último de sua existência. Estas instituições são tão primordiais porque elas nos vinculam à origem e, ademais, nos outorgam a dignidade de um homem”.


____ Jordán BRUNO GENTA (1909-1974). Filósofo e mártir argentino, assassinado, tal qual ocorrera com seu amigo e compatriota Carlos ALBERTO SACHERI, com 11 tiros, pela guerrilha marxista argentina, em um domingo, dia 27 de Outubro de 1974, Festa de Cristo Rei, quando saia de sua casa para assistir a Santa Missa.

terça-feira, 15 de julho de 2014

O HOMEM ESTÁ NESTE MUNDO DE PASSAGEM

"O homem está neste mundo de passagem, destinando-se a uma finalidade transcendente e superior aos objetivos temporais daquelas sociedades [família, município, associações, estado...]. Ele é um viadante na terra, criado para amar e servir a Deus e devendo preparar-se, na vida terrena, para ganhar a eterna bem aventurança. Os meios para alcançar a salvação, encontra-os numa sociedade que estabelece o laço entre o céu e a terra: a Igreja".


___ José Pedro GALVÃO DE SOUSA. Iniciação à Teoria do Estado. São Paulo: José Buschatsky, 1967, p. 11.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

A MÃO DE DEUS: A IMPRESSIONANTE CONVERSÃO DE BERNARD NATHANSON

Este não é o relato de mudança de opinião sobre um tema controvertido de um dos protagonistas da disputa, mas a história de uma profunda conversão pessoal. O processo pode sintetizar-se em dois passos. Primeiro, o desencanto de uma atividade, a abortista, e de uma moral atomizada, baseada em um difuso sentimento do dever e um mínimo de respeitabilidade, algo que é a novidade que alguns apresentam para este fim de século; segundo, a convicção cientifica de que o objeto do aborto é um ser vivo, quer dizer, um ser humano vivo; assim, adquire a consciência do terrível genocídio que se estava cometendo e no qual ele havia participado, com singular protagonismo. A partir desta consciência do pecado, surgida do conhecimento da violação da lei natural, se dará o passo da conversão pessoal. A lei natural surge como apoio essencial, e seu obscurecimento supõem, em consequência, o maior mal do século; perdida esta mínima guia, ao menos na consciência coletiva, se dificulta extraordinariamente a consciência do mal cometido e, por conseguinte, a necessidade de redenção. É neste momento de desconcerto que Bernard NATHANSON descobre os cristãos, precisamente em sua atividade no movimento pró-vida: “A manhã da Redenção era tristemente fria… Sentaram-se em grupos na frente da clinica até o bloqueio das entradas e saídas da clínica abortista... No início me movia pela periferia, observando os rostos, conversando com um e outro participante... Foi só então quando captei a exaltação, o amor puro nas faces dessa vibrante massa de pessoas rodeadas como estavam por centenas de policiais de Nova York. Rezavam, sustentavam e animavam-se umas as outras... rezavam pelas crianças não nascidas, pelas grávidas confusas e atemorizadas, e pelos médicos e enfermeiras da clínica”.
Foi a consciência do fervor religioso no movimento pró-vida que levou Nathanson a perguntar-se seriamente por Deus e especialmente pela conversão ao catolicismo. Com efeito, nas palavras de Hilaire Belloc, citadas pelo Padre Mc Closkey no epílogo do livro: “Existe uma coisa no mundo que é diferente de todas as demais. Possui força e personalidade. É reconhecida e (quando reconhecida) amada ou odiada do modo mais violento. É a Igreja Católica. Dentro deste edifício o espírito humano encontra teto e morada. Fora existe a noite”.
Ajudar os que saem da noite exige um esforço cotidiano, é provavelmente a primeira obrigação moral. Neste caminho o exemplo de Nathanson nos mostra até que ponto é fundamental a insistência na lei natural.


___ José Miguel Serrano RUIZ-CALDERÓN. La mano de Dios. Autobiografía del llamado rey del aborto, Revista Verbo, ns. 355-356, p. 566.


  

terça-feira, 8 de julho de 2014

LIÇÕES DE GUSTAVE THIBON

FOME DE FELICIDADE: Santo Deus, o que ai vai de ambições! Queres isso, aquilo e mais aquilo. Muito bem. Mas já pensaste em saber se mereces que todas essas coisas te queiram a ti? Desunhas-te na recolha da felicidade. Procura antes tornar-te digno de ser escolhido pela felicidade. Quando fores suficientemente puro, verás como a felicidade te segue por toda a parte: por mais que lhe fujas, ela irá ter contigo, onde quer que te encontres.

VAZIO INTERIOR: Um homem exaure-se na medida em que não existem, para ele, seres ou coisas insubstituíveis. Faz lembrar um buraco que se cuidasse poder tapar seja com o que for, e que o essencial é tapado. Daí, e paralelamente, a maré alta do vazio interior e da paixão pelo dinheiro. Desde o instante em que se pensa que nada do que se ama é insubstituível, logo se acredita que basta ter dinheiro para tudo substituir. 

OBEDIÊNCIA E SERVIDÃO: Não se foge a obediência, senão para cair na servidão. Afliges-te, vendo de que é que os homens são escravos? Se queres a chave deste "mistério de abjeção", procura ver a quem é que eles fogem de servir. O homem não escapa à autoridade das coisas do alto, que o sustentam, senão para cair na tirania das coisas de baixo, que o devoram.

Noli judicare - etiam teipsum. - Vede estes homens. O que sofrem e porque sofrem. Ora, o azedume, de que dão provas, tem uma origem. É que passam o tempo a comparar-se com os outros. Este jogo entusiasma-os. Mas também os irrita e desmoraliza. Quando aprenderão, finalmente, a considerarem-se único, e não a julgarem-se em comparação com os outros? Seria esta a aurora da verdadeira humildade. Para que precisas tu de te confrontar com os teus irmãos? Não te basta saberes que é filho de Deus?

___ Gustave THIBON. A Escada de Jacob, Lisboa: Editorial Aster, p. 31-33.

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Como já assinalado em outras oportunidades, e nunca é demais repetir, GUSTAVE THIBON (02 de setembro de 1903 – 19 de janeiro de 2001), foi autodidata genial, nasceu em Saint-Marcel-d'Ardèche (França) onde foi sempre lavrador. Não foi um homem de diplomas e títulos. Estudou por si só o grego e o latim, os "Diálogos" de Platão e a filosofia de Aristóteles, a "Suma Teológica" de Santo Tomás. Deu-nos páginas luminosas de "Diagnósticos de Fisiologia Social", "O que Deus uniu", "A Escada de Jacob" e outros volumes de aforismos penetrantes, que são como flechas agudas atiradas para todos os lados. Poucos como ele compreenderam tão profundamente o homem e a mulher, o amor humano e o casamento. Thibon foi o testemunho que se ocultou para deixar brilhar a verdade em todo o seu esplendor. 

AUTOBIOGRAFIA DO FILHINHO QUE NÃO NASCEU


Embora não seja característica do blog a publicação de textos longos, mas sim de citações curtas ou medianas, por sua beleza e profundidade oferecemos aos amigos a primeira parte da tradução do obra livro do insigne novelista argentino Hugo WAST(1883-1962), “Autobiografía del hijito que no nasció” (Bs. As.: Theoria, 1961), que narra o empolgante diálogo entre um pequenino ser no ventre materno e o seu Anjo da guarda. Trata-se de um brado contra o horrendo crime do aborto, pecado de malícia peculiar, como a sodomia, que clama aos céus por vingança.


I – O que meu Anjo conta 

Já faz alguns instantes que sou um ser humano. Meu corpo ainda é tão pequeno que não pode ser visto pelos olhos de ninguém, mas minha alma já é tão grande como sempre será. Deus a criou para mim, no mesmo momento em que eu comecei a existir. Deus me ama como se eu fosse uma pessoa perfeita. Deus segue criando inumeráveis almas todos os dias, para todos os seres, filhos dos homens, que são chamados à vida. Meu Anjo me disse que nascerão tantos seres quanto necessários para repovoar o céu, despovoado em um terço de seus habitantes pelo Diabo.
Estas coisas profundas para uma pessoa tão pequena como eu foram as primeiras que meu Anjo da guarda ensinou. Devo explicar que tenho um Anjo da guarda escolhido entre os inumeráveis Anjos que permaneceram fiéis ao serviço de Deus.
Melhor ainda! Meu Anjo da guarda ensinou que Deus me ama desde toda a eternidade, como se não houvesse existido outro ser senão eu. E que por mim realizou infinitas maravilhas. E assim o fez para todos os seres humanos e seu Filho morreu por cada um deles, como se fossem únicos no mundo, para salvá-los da guerra que o Diabo faz aos homens.
Eu apenas entendo tudo isso, mas ele sempre me repete e trato de reter tudo. Sem embargo, confesso que fico cansado. Queria dormir.
Meu Anjo me fala sem ruído e sem palavras. É como um fluído que me penetra. Compreendo perfeitamente. Meus ouvidos, todavia não estão formados.
Ele me disse que eu sou um menininho. Ou uma menininha. Ele não sabe ou não quer me dizer. Entendo que ele sabe muitas coisas, mas que não convém me contar tudo. Ele guarda de mim uma infinidade de segredos para quando eu for maior.
Disse que se me falar demais, meu pequeno corpo vai se cansar. E é verdade, volto a sentir vontade de dormir um pouco mais.
Será minha primeira noite no seio de minha mamãe, que ainda ignora que eu existo.
Meu Anjo me disse que é melhor que ela siga ignorando.
Por que não é bom que uma mãe saiba que seu filhinho ou sua filhinha já existe?
Estou cansado. Será o primeiro sono da minha vida no suave e tíbio seio de minha mamãe. Que escuridão, meu Deus! É porque meus olhos ainda não se formaram? 

II – Meu corpo vai crescendo. 

Meus ouvidos recolhem alguns rumores de fora.
Quem é meu anjo? Como se chama?
A cada novo dia, meu Anjo me desperta com uma oração. Eu ainda não posso aprendê-la porque não tenho memória. No entanto parece-me que meu corpo já não é tão pequeninho e que chego a perceber alguns rumores que vem de muito longe.
Tudo o que está fora deste rincãozinho tíbio e suave aonde vou me criando é longe para mim.
O Anjo disse que um dia tudo isso me parecerá próximo e que então ele mesmo, que agora me cuida e me ensina, terá que distanciar-se de mim.
Isto me encheu de preocupações, o que significa que meu cérebro já começa a se formar.
Não me atrevo a perguntar ao meu Anjo como ele poderá estar longe de mim algum dia, se Deus lhe mandou ser sempre meu guardião companheiro, e como algum dia eu deixarei de estar onde estou agora, porque haverei me desenvolvido completamente.
Não sei como expressar estas coisas raras que me ocorrem e que fariam sorrir aos homens, se pudessem escutá-las; mas nem eles, nem sequer meu Anjo, as escutam, como se apenas eu mesmo me entendesse. A língua em que eu falo deve ser a língua dos Anjos que se aprende em um momento. Falando, sinto que sou uma pessoa. Ou seja, alguém que tem uma alma distinta das outras almas, uma alma que agora conversa com o Anjo e que depois conversará com os homens, conversará com minha mamãe, com meu papai e com meus irmãozinhos.
Meu Anjo me contou, e isto me deixou muito feliz, que eu tenho dois irmãozinhos, que muito tempo atrás viveram como eu, formando-se como eu estou me formando, de pouco a pouco, e agora são duas preciosas criaturas: ele tem seis anos e ela cinco. Disse-me também que eu poderia ter muito mais irmãozinhos, mas que todos morreram antes de nascer. Meu Anjo disse que meu papai odeia seus filhinhos pequenos.
Não compreendi o que isto significa, mas prestei atenção aos rumores de fora e percebi uma voz que me parece ser de minha irmãzinha. É o mais maravilhoso que eu senti em minha vida.
Contei isto ao meu Anjo e ele me disse que devo ter sonhado, pois meus ouvidos ainda não são aptos para escutar as coisas do mundo. Ouvira a ela, talvez, como posso ouvir aos anjos?
Tive outro sonho e não quis contar a ele, porque me parece que o ofenderia. É certo que eu não saiba meu próprio nome porque não me chamarei de nome algum até que eu seja ou um menininho ou uma menininha e me batizem, como ele me explicou. Mas o meu Anjo seguramente tem um nome, distinto do dos outros anjos. Por que não me contou? Eu apenas sei que o Anjo da guarda de minha mamãe chama-se Absalón, mas seu próprio nome ele tem me ocultado. Me ensina muito!
Disse-me que ainda que eu seja pequeníssimo e ele seja um Anjo poderosíssimo que todos os dias vê a Deus e a Santíssima Virgem face a face, ele não pode penetrar minha alma, aonde somente Deus penetra. Cada alma humana é como uma fortaleza fechada não só aos Anjos, senão também para os demônios, que não podem entrar nela se o dono dessa alma não lhe abre uma porta, ou uma janelinha, uma frestinha ao menos, para poder começar a seduzi-la com maus pensamentos.
Coisas muito difíceis de entender, mas que não esqueço quando meu Anjo me diz três vezes.
Mas por que digo meu Anjo, se não conheço o seu nome e estou começando a pensar que este Anjo não é o meu e que eu estou como que abandonado no mundo?
Estou morrendo de sono e vou dormir sem cumprimentá-lo. Não acredito que me pertença. Devo confiar meus segredos a quem possa contá-los a outra pessoa, ainda que essa pessoa seja minha mãe? 

III – Duvido que meu Anjo seja meu.

Já posso me mover um pouquinho.
Não esqueci nenhuma das inumeráveis lições que vem me dando o meu Anjo, melhor dizendo, este anjo. Ele afirma que sou muito inteligente, um pouquinho orgulhoso e reservado, pois não lhe conto todas as coisas que penso.
É verdade. Como vou contar que cada vez mais aumenta a minha suspeita de que ele não é meu Anjo da guarda, mas sim um intruso, e que devo tomar muito cuidado ao me comunicar com ele?
Escuto-o e aprendo. A melhor lição que me deu é a de que Deus me ama desde antes que eu existisse com um amor imenso e que a Santíssima Virgem é Mãe de Deus e também minha mãe, outra mãe que me quer mais que a que agora me leva em seu seio.
E a pior lição, que me fez estremecer de medo, é que meu papai odeia seus filhinhos não nascidos e preferiria que morressem ou que não nascessem nunca.
– Então odeia a mim? – Perguntei.
– Seu papai ignora que você existe. És tão pequeninho ainda. Ai de ti se ele soubesse! – Contestou-me o Anjo.
– E quando eu ficar maior e ele souber que eu existo, me odiará?
– Não sei; nós anjos não somos profetas. Muito temo que quando saiba que existes, ocorram coisas tremendas.
– Meu papai também tem Anjo da guarda?
– Sim, como todos os seres humanos, como a Santíssima Virgem, que teve um grande Arcanjo.
– Como se chamava esse grande Arcanjo?
– Gabriel, e foi ele quem anunciou que ela seria a mamãe do Filho de Deus, que chamamos Jesus e que é teu irmão e também irmão de todos os seres humanos que nasceram e que hão de nascer, como você.
Ao saber que eu sou nada menos que irmão de Jesus e que a Santíssima Virgem é também minha Mãe, me sinto orgulhoso e me atrevo a interrogá-lo sobre aquilo que me desperta tanta curiosidade:
– O Anjo de minha outra mamãe, a mamãe da terra, se chama Absalón. E como se chama o meu Anjo?
Então ele me responde:
– Não quero te dizer, mas você se empenha em saber tudo. Eu sou Absalón, o Anjo da guarda de sua mamãe.
– E o meu Anjo da guarda como se chama? Onde está?
– Você ainda não tem um Anjo só para ti. O de tua mamãe que sou eu cuida dela e cuida de ti. Depois, quando você vier à luz do mundo, Deus mandará um Anjo que será teu enquanto você viver e te levará ao céu quando você morrer.
– O dia em que eu vier à luz do mundo! Exclamo com desilusão. – E quando vai ser isso?
– Você é muito curioso! – Responde-me o Anjo de minha mãe.
Estou certo de que se fosse o meu próprio Anjo da guarda não acharia ruim que eu lhe perguntasse tantas coisas, porque me ensinar é seu ofício e não deve se cansar nem se negar a me responder.
Fico humilhado e triste e durmo cansadíssimo. 



... continuará.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

PANREGULAMENTAÇÃO E A ESCLEROSE PROGRESSIVA DA SOCIEDADE

“A panregulamentação é uma consequência inevitável da busca de uma justiça estrutural ligada indissoluvelmente ao monopólio estatal do direito. Significa a regulação, desde os órgãos centrais, de todas as atividades da vida até os seus mínimos detalhes: como os mestres devem ensinar; o que os alunos devem estudar; o  que o agricultor deve semear; o que, quando e quanto os comerciantes deverão exportar etc. Não se adverte que assim se mata toda a espontaneidade e toda auto-regulamentação social, se atrofiam os organismos naturais e associativos, e se satura a sociedade de aparatos ortopédicos manejados por funcionários administrativos encarregados de ativá-la mecanicamente. Com estes remédios, a sociedade vai sofrendo uma aceleração maior na esclerose progressiva a que se vê condenada”.

____Juan Vallet de GOYTISOLO. El hombre ante el totalitarismo estatal: líneas de defensa politico-juridicas. Conferência pronunciada em Roma, em 9 de abril de 1974, no II “Convegno Romano” da Fundação “Gioacchino Volpe”.

TODO ESTADO SEM SOCIEDADE É AXIOMATICAMENTE COERCITIVO

“Todo Estado edificado sobre as comunidades naturais e sobre a radicação que elas difundem, vê de tal sorte o seu poder reduzido à sua justa medida que raramente atua como uma manifestação de uma força exterior aos cidadãos. Ao contrário, todo Estado sem sociedade é axiomaticamente um Estado coercitivo, policial, armado de um arsenal de lei e regulamentos encarregados de dar sentido às condutas imprevisíveis e aberrantes dos indivíduos. Sua tendência ao totalitarismo é diretamente proporcional à desaparição das comunidades naturais, à ruína dos costumes, ao desastre da educação... Sem a proteção viva dos usos e costumes das sociedades naturais, o indivíduo não tem nenhum direito que lhe seja imediata e espontaneamente reconhecido”.

___ Marcel de CORTE. La éducation politique, 4, em Politique et loi naturelle, Atas do III Congresso de Lausanne, 1967.