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sexta-feira, 10 de março de 2017

RESTAURAÇÃO-INSTAURAÇÃO DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

“A tradição católica implicava costumes, instituições e ideias; da mesma forma, as transformações ideológicas revolucionárias conduziram primeiro à fratura das instituições, que por seu turno, se arrastou generalizadamente aos costumes. E a resistência à revolução progressivamente foi ficando no âmbito dos costumes, que, ao não contar com o apoio institucional, também foram se esvaindo, resistindo unicamente o reduto das ideias. Ideias, progressivamente mais depuradas quanto mais se isolavam no cenáculo dos “militantes” ou dos “tradicionalistas conscientes”. Este é o processo de conversão (desnaturalização) de um tradicionalismo cabal em uma société de pensée ou, no melhor dos casos, em um gueto de famílias em meio a ruínas.
Está claro que uma tal situação está marcada pelo equilíbrio instável. Pois o que resta de famílias com dificuldade vai resistindo à pressão exterior, ao tempo que o agregado ideológico, isolado, tende a fragmentar-se, perdendo o sinal de unidade de toda tradição, de toda civilização.
Hoje é muito frequente encontrar defensas da moral sexual e familiar mais tradicional pelos mesmos grupos que contribuem e sustentam uma política que progressivamente torna impossível a manutenção desta mesma moral. Outros defendem a tradição política. Alguns, por fim, reivindicam pedaços da cosmovisão tradicional de modo “ideológico”, às vezes “conservador”, e até mesmo “revolucionário”. A consequência é desoladora para os que querem seguir recebendo “a boa nova” no seio da civilização que esta engendrou entre nós. Porque é impossível inculturar o cristianismo na civilização moderna e seus valores atuais, seja a “forte” tecnocrática e prometeica (que podemos denominar “hipermoderna”), como a “débil” desconstrutiva e niilista (que podemos denominar propriamente “postmoderna”).
Nesta situação, a conjuntura impele muitos a salvar o que se pode de um velho navio naufragado. Enquanto outros se esforçam por recordar que os despojos que vão à deriva pertenceram a uma embarcação cujas dimensões, características, etc., sabe-se de sobejo. E tudo deve ser feito. Mas o que não se pode esquecer é que sem o acolhimento de uma civilização coerente todos os restos que se salvam, de um lado, estão mutilados, desnaturalizados, e – de outro – dificilmente podem subsistir muito tempo em sua separação. Assim, a chave não pode encontrar-se senão na incessante restauração-instauração (como não lembrar o memorável texto de São Pio X?) da civilização cristã, que, ademais, não poder ser alheia – exigência da pietas – da Cristandade”.
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Miguel AYUSO. “La Ciudad Católica en el seno de la tradición católica”. Revista Verbo n. 445-446, pp. 508-509.

Miguel Ayuso Torres

terça-feira, 22 de setembro de 2015

DEVEMOS ESTIMULAR O QUE É SOCIALMENTE BENÉFICO


A PERENE TENTAÇÃO LIBERAL

"O liberalismo encarna esse naturalismo negador de toda transcendência e sobrenaturalidade. É o que denunciou o magistério social da Igreja ao articular a contestação cristã ao mundo moderno. E é o que o pensamento político tradicional combateu no terreno dos princípios enquanto o povo cristão o selava, aqui e lá, com seu próprio sangue."

Miguel AYUSO. "A perene tentação liberal", Miguel Ayuso Torres, jurista e filósofo espanhol.


Miguel Ayuso Torres é um jurista e filósofo do direito espanhol, doutor na matéria e catedrático em Ciência Política e Direito Constitucional na Universidad Pontificia Comillas de Madrid, Espanha. É, com toda certeza, o mais eminente e destacado jurista da tradição clássica hispânica.


segunda-feira, 14 de julho de 2014

NATURALISMO POLÍTICO E DESPOTISMO

“Pode-se afirmar que o naturalismo político é a negação da política, uma vez que procura remediar a anarquia do hipotético estado de natureza com o totalitarismo do Estado moderno, que é ‘anárquico’, como persona civitatis, porque pretende ser o último e único ponto de referência inclusive para a determinação do bem e do mal; e ao mesmo tempo ‘despótico’, porque, ao ser unificador de uma multidão, imagina ser o Absoluto do qual tudo depende”.


__ Miguel AYUSO. Constitucionalismo y orden politico.Revista Verbo ns. 377-378, p. 608.