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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A MULTIPLICAÇÃO DOS SÓS E O TOTALITARISMO MODERNO

Uma "sociedade" com a praga que Valery chama "a multiplicação dos sós", é necessariamente coletivista. Como diria o conselheiro Acácio, para ser eu, não é preciso ser outro, na dependência de outro, Deus, homem, hierarquia, sociedade, instituições, coisas, universo, nada em suma de tudo que é. É então necessário suprimir qualquer alienação, romper todos os vínculo que ainda unissem, mesmo mentalmente, o eu ao não-eu.
Mas, para que todas as subjetividades estejam na mesma situação, é preciso compor todo um Estado proprietário de tudo que não é o próprio eu, o eu esvaziado de ser, ou , se assim podemos dizer, o eu que recebe seu vazio de ser — Monstro anônimo em cujas mínimas percepções, se vê que não passa de um Aparelho manobrado por uma "nova classe dirigente" e minoritária.The madness of the many for the gain of a few, dizia Pope. Atrás do monstro estão os maquinistas.
Para ver isso, é preciso deixar toda a subjetividade. Ao contrário, quanto mais mergulhamos na subjetividade para liberá-la do que não é ela, tanto mais nos diluímos numa coletividade imaginária, numa espécie de "teosfera" de massa humana divinizada, que outra coisa não é senão o eu indefinidamente dilatado.


Marcel DE CORTE. Sartre, filósofo da contestação.

                               Marcel DE CORTE (1905-1994)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

MASSIFICAÇÃO DE DESARRAIGO

“Como consequência de um complexo processo espiritual e político, a sociedade de nosso tempo se converteu em uma sociedade de massas, em que as quantidades não designam simplesmente números, mas revelam formas de vida. Suas notas características, estudadas profundamente pelo pensamento atual desde diversas perspectivas, são a uniformidade, a ausência de estruturas hierarquizadas naturais, a manipulação externa da massa amorfa e inorgânica, o primado da irresponsabilidade, a indiferenciação do individual, a valoração da incompetência etc.; tudo isso no marco cada vez mais rígido e regulamentado de uma sociedade mecanizada e manipulada através do Poder”.


____ Enrique ZULETA PUCEIRO. Justiça e Igualdade. Revista Verbo, Madri, n. 148-149, p. 1120

terça-feira, 22 de julho de 2014

SOCIEDADE NIVELADA DE ALMAS EM SÉRIE

 “[vivemos em uma] humanidade de homens de mentalidade amorfa, educados apenas na ideia da igualdade e da inveja; de homens empenhados em parecer mulheres, de mulheres empenhadas em parecer homens, de clérigos obstinados em parecer seculares; de humanos em dissimular sua idade, sua condição, sua hierarquia, os limites e o sentido que ainda conserva sua vida... Sociedade nivelada de almas em série que abandonam as diferenças de situação ou de inserção humana que a constituíam em verdadeira sociedade e a guardavam de converter-se em massa ou rebanho”.

___ Rafael GAMBRA. El silencio de Dios, Madrid: Prensa Española, 1968, cap. VIII, p. 143.

O HOMEM ATOMIZADO

“A grande vantagem dos bons costumes é tornar fáceis e naturais coisas muito difíceis para a moralidade pura do indivíduo. A decadência dos costumes isolou, atomizou, os indivíduos. Hoje seria necessário que cada homem suprisse com sua fraca vontade e com sua sensibilidade fugas as correntes profundas surgidas da alma animal e da alma coletiva. Isto não é possível senão para seletas grandes almas. As outras desembocam no culto exclusivo do interesse ou do amor sensível e imediato. O homem atomizado têm horror à tudo o que é penoso e, sobretudo, ao que não se reduz ao agora”  


__ Gustave THIBON. La moral y las costumbres, em “Diagnósticos de fisiología social”,  Madrid: Ed. Nacional, 1958, pp. 113 e ss.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

A CIDADE TOTALITÁRIA

A Cidade totalitária que se elabora ao redor de nós oferece-nos, efetivamente, um duplo espetáculo: de um lado, uma tendência ao nivelamento geral, que apaga as verdadeiras diferenças entre os homens e consequentemente a complexidade natural; e, de outro, uma complicação cada vez maior na administração da Cidade e nas condições de existência de seus habitantes. Todos os homens estão em vias de se reunir como carneiros de um mesmo rebanho e nada é mais inextricavelmente emaranhado do que as leis e os regulamentos que regem suas relações. Tecnocracia, burocracia, papelada - isso não tem nada a ver com a relação orgânica complexidade-unidade. E isso se parece muito pouco com aquele processo de "amorisação" (impregnação de amor) de que fala Teilhard Chardin.

O coletivismo não reúne os homens senão para melhor os isolar. Ele os separa uns dos outros, na medida em que os amontoa uns sobre os outros. Assim, os grãos de areia no deserto formam uma imensa massa homogênea, mas os elementos que constituem essa massa não tem entre eles nenhum vínculo interno: é a própria imagem da Cidade Totalitária em que a solidão aumenta em função da promiscuidade.

A maqueta da Cidade Futura, nós a temos já nos grandes conjuntos anônimos que crescem como cogumelos ao redor de nossas cidades e dos quais transpira, para fora como para dentro, a lepra da uniformidade e do tédio; nos rebanhos humanos em que o "condutor" substitui o pastor; nesse desenraizamento geral que solta os indivíduos, como folhas mortas, ao vento da moda e da opinião; nessa fabricação em cadeia de consciências teleguiadas que são cevadas de abstrações e de quimeras ao invés de serem nutridas de realidades.
Falam-nos de bom grado da "dimensão planetária" da humanidade de hoje. Mas quem não vê que onde essa nova dimensão (que, aliás, não é nova: todos os santos conheceram essa paixão da humanidade) não tem por fundamento e por caução um apego vivido ao próximo imediato e uma experiência de responsabilidade pessoal, ela não pode ser senão ilusão e engano? É muito bonito ser cidadão do mundo, mas é preciso começar por não ser apátrida. Saint-Exupéry refere-se a este diálogo entre um homem apegado à sua terra e um desenraizado: "Você está partindo? - Sim. - Para onde? - Para Melbourne. - Como você estará longe! - Longe de onde?". Com efeito, não há distâncias para o desenraizado. Ele não está longe de nada. Mas, em contrapartida, ele não está ligado a nada: a palavra próximo não tem o menor sentido para ele.
Nessa ordem, o uso imoderado das facilidades de comunicação - quer se trate de deslocamento no espaço ou de informação - arrisca comprometer nossa capacidade de comunhão. O próximo se distância à medida que o longínquo se aproxima. E ainda não se aproxima senão em aparência: por palavras e por imagens. O que pensar, por exemplo, desse cidadão inconsciente e organizado (mecanizado caberia melhor) que se apaixona pela guerra do Vietnã e ignora os problemas e talvez mesmo a existência de seu vizinho de andar. Que ignora até o seu próprio problema, pois não se dá conta de que não entende nada das questões acerca das quais é pedido que tome partido. E esse homem, arrancado de seu próximo e de si mesmo, vive em sonho a duas mil léguas.
Diante dessa ameaça - já em parte realizada - do formigueiro futuro, Teilhard afirma com um otimismo intrépido: "não há formigueiro se as formigas aprendem a se amar". Mas como poderiam elas aprender a se amar se a própria construção do formigueiro implica na eliminação das condições de amor, na erosão do terreno social de que ele precisa germinar? É aqui que se aplica a fundo a parábola da semente e do solo: o grão divino aborta sobre um solo humano muito empobrecido.
Victor Hugo, num clarão de lucidez profética, coloca estas palavras na boca de não sei que Demos informe, construtor da Cidade coletivista e igualitária: "eu sou tudo, o inimigo misterioso de Tudo". O número, túmulo da unidade: é aí, com efeito, que desemboca a miragem coletivista. Uma cidade em que une seus habitantes enquanto cifras e não enquanto pessoas. Que faz a soma e não a síntese. E que, em última análise, se edifica sobre as ruínas do homem real. Um organismo - se isso se pode dizer! - em que a prótese substituiu os membros: no limite, os ídolos absorvendo seus adoradores – uma sociedade sem homens.

Gustave THIBON. Coletivismo contra o social. Revista Hora Presente, São Paulo, set-outubro de 1968, n. 1, p. 127-128.

domingo, 6 de abril de 2014

O HOMEM SE CONVERTE EM GADO MANSO, POLIDO E TRANQUILO..

É espantoso como nos encontramos castrados a preceito. É assim que somos finalmente livres. Cortaram-nos os braços e as pernas, a seguir deram-nos liberdade para andarmos. Mas eu odeio esta época em que, sob um totalitarismo universal, o homem se converte em gado manso, polido e tranquilo. Querem que nós tomemos isso como um progresso moral! O que odeio no marxismo é o totalitarismo a que conduz... A própria substancia encontra-se ameaçada. Mas, quando ela for salva, levantar-se-á então o problema, que é o problema de nosso tempo. Que é o do sentido do homem. E não se propõe uma resposta para ele e tenho a impressão que caminho para os tempos mais obscuros do mundo.


Antoine de SAINT-EXUPÉRY. Carta ao General “X”.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

TODO HOMEM MODERNO É UM MISERÁVEL JORNAL

 “Todo homem moderno é um miserável jornal. E não só isso, um miserável jornal de um dia. De um só dia. Mas é como um jornal velho de um dia no qual, sobre o mesmo papel, todas as manhãs fosse impresso o jornal de cada dia...
O jornal, a maior invenção desde a criação do mundo e com toda a certeza desde a criação da alma. O jornal, segunda criação. Espiritual. Ou melhor, princípio, ponto de origem da descriação. Espiritual”.

Charles PÉGUY (1873-1914). Note conjointe sur M. Descartes et la philosophie cartésienne, Gallimard 1935.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A IMPRENSA IRRESPONSÁVEL

A liberdade não se desviou subitamente para o mal. A evolução foi se fazendo progressivamente. Segundo parece, o ponto de partida foi a benévola concepção humanista segundo a qual o homem, senhor do mundo, não leva em si gérmen algum de maldade, e tudo o que de viciado aparece em nossa existência é simplesmente fruto de sistemas sociais errôneos que devem ser corrigidos. Olhai, há algo que é deveras estranho: o Ocidente, aonde as condições sociais são melhores, tem uma criminalidade indiscutivelmente elevada e nitidamente mais forte que a sociedade soviética, com toda sua miséria e sua ausência de leis...

A imprensa (emprego a palavra “imprensa” para designar todos os meios massivos de comunicação) goza, naturalmente, também ela, da maior liberdade. Mas como usa esta liberdade? Já o sabemos: guardando-se bem de transgredir os marcos jurídicos, mas sem nenhuma verdadeira responsabilidade moral, se falsifica os fatos e deforma as proporções. Por acaso o jornalista e seu jornal são verdadeiramente responsáveis diante de seus leitores ou diante da história? Quando, por exemplo, ao publicar uma informação falsa ou ao tirar conclusões errôneas, enganaram a opinião pública ou fizeram que o próprio Estado desse um passo em falso, por acaso os vimos reconhecer publicamente sua culpa? Não, evidentemente, porque isso iria contra a venda… Você pode apostar que agora, com renova altivez, escreverá o contrário do que afirmou antes.

A necessidade de dar uma informação imediata com firmeza obriga a preencher os espaços em branco com conjecturas, a fazer eco de rumores e suposições que logo não serão desmentidos e permanecerão, portanto, na memória dos leitores. Todos os dias, quantos juízos apressados, temerários, presunçosos e falazes, que obscurecem o cérebro dos ouvintes, e ali se fixam! A imprensa tem o poder de falsificar a opinião publica, e também de pervertê-la. Vemos assim como coroa aos terroristas com os audazes lauréis de Eróstrato, como revela assuntos secretos ainda quando pertencentes à defesa nacional, como viola impudicamente a vida privada das celebridades ao grito de: “Todo o mundo tem direito a saber tudo”. Este é um slogan mentiroso para um século de mentira. Porque acima deste direito há outro, hoje perdido: o direito que o homem tem a não saber, o direito a que não encham sua alma criada por Deus com fofocas, falatórios e futilidades. Aquele que verdadeiramente trabalha e cuja vida está bem ocupada, não precisa para nada desta onda superabundante de informações embrutecedoras.

A imprensa é o lugar privilegiado aonde se manifesta esta precipitação e esta superficialidade que são a enfermidade do século XX. Foi proibida de ir ao coração dos problemas; não está ai para isso, senão para oferecer formulas sensacionalistas.

E, com tudo isso, a imprensa se converteu na força mais poderosa dos Estados ocidentais, mais poderosa que os poderes executivo, legislativo e judiciário. Vejamos: em virtude de que lei foi escolhida e a quem presta conta de sua atividade? No Leste comunista, um jornalista é abertamente nomeado pelo Estado, como todo funcionário. Mas, que eleitores decidiram que os jornalistas ocidentais tenham uma posição tão preponderante? Por quanto tempo a ocupam e quais são seus poderes?

Acrescentemos por fim uma peculiaridade inesperada para um homem que vem do Leste totalitário, aonde a imprensa está estritamente unificada: se se toma em conjunto a imprensa ocidental, observamos como também nela as simpatias se dirigem em bloco para o mesmo lado (para onde sopra o vento do século), juízos afirmados dentro de certos limites aceitos por todos, talvez também interesses corporativos comuns. Tudo isto tem por resultado não a competência senão certa unificação. A liberdade sem freios é para a própria imprensa, não para os leitores: uma opinião só será apresentada com certo relevo e ressonância se não está em demasiada contradição com as ideias próprias do jornal e com essa tendência geral da imprensa.

O Ocidente, que não possui censura, opera, contudo, uma seleção minuciosa separando as ideias que estão em voga daquelas que não estão, e se é certo que estas últimas não padeçam de qualquer ilegalidade ou proibição, não podem expressar-se verdadeiramente nem na imprensa periódica, nem nos livros, nem no ensino universitário. O espírito de vossos investigadores é muito livre, juridicamente falando, mas está totalmente cercado pela moda. Sem que haja, como no Leste, violência aberta, está seleção feita pela moda, esta necessidade de conformar tudo à modelos standard impede que os pensadores mais originais aportem sua contribuição à vida pública e provoca a aparição de um perigoso espírito gregário que obstaculiza o verdadeiro progresso. Desde que estou nos Estados Unidos, recebi cartas de pessoas notavelmente inteligentes, como a que mandou o professor de um “college” perdido no fundo de uma província, cujas ideias poderiam ajudar muito a rejuvenescer e salvar seu país, mas que os Estados Unidos não podem ouvir porque os meios de comunicação se negam a interessar-se por ele. Assim é que os preconceitos vão se enraizando na multidão, assim é como um país vai ficando cego, enfermidade tão perigosa em nosso dinâmico século.

Olhai a ilusão que tem tanta gente que imagina compreender a atual situação do mundo. Essa ilusão forma ao redor de suas cabeças uma couraça tão dura que nenhuma das vozes que chegam dos dezessete países do Leste europeu e da Ásia Oriental consegue atravessá-lo, na espera de que o inevitável porrete dos acontecimentos o faça voar em pedaços.

Alexander SOLJENITSIN. El suicidio de Occidente, Ediciones Mikael, 1983.

A IMPRENSA "GORDA" E A INVASÃO DOS SOFISTAS

A Imprensa. Quando o filho do povo sai do ensino primário-Gratuíto-Laico-Obrigatório, terminou sua instrução? Recém irá começar. A escolinha lhe deu apenas o órgão da instrução intelectual: saber ler e escrever. Todas as demais idiotices com que nossos grandes pedagogos se afanam em empanturrar-lhes terminaram logo após a criança operária ou colona ter ultrapassado o suporte escolar; porque não assimilaram tais bobagens de forma biológica, senão que tragaram de forma livresca. E eu sei por experiência, eu sou um filho da Laica! – gritou meu tio exaltando-se bruscamente como se alguém o contradissesse...

Pois bem, quem se encarrega dessa informação - e fique constado que não falo da educação total senão apenas da intelectual – que começa ao sair o argentino-povo do primário? A Imprensa, sem sombra de dúvida, incluindo dentro desse termo também as revistas, as novelas, os espetáculos, as diversões, e popularíssima delas, o Cinema. Se a verdadeira Universidade de hoje é a biblioteca e a Natura, a verdadeira Escola de hoje é o diário e o espetáculo: e diários e espetáculos estão hoje “industrializados”, entregues ao mercado e subjugados à lei do lucro. Diga-me que te diverte e te direi quem te domina; outrora aos argentinos divertia Cervantes, agora nos diverte do Cine Ianque. Eu não quero te falar dos pasquins, que são outro dos “Crimes nacionais”, mas da “imprensa séria”! A nossa imprensa séria (chamada comumente “grande” quando só é “gorda”) apesar da boa vontade de alguma dela, não educa ao país; o deseduca, o entorpece, o esvazia, o faz pensar no que não tem importância, perder o senso comum que lhe resta....

Tampouco isto tem conserto fora do domínio político; pois sua origem está no Mito político novecentista da LIBERDADE de IMPRENSA. A liberdade de Imprensa, corrupção de uma santa verdade que poderia ser chamada “primazia do pensamento”, é na prática hodierna simplesmente a “licença ao sofista”, a liberdade do forte (intelectualmente) aproveitar-se do débil, a licença para o adulto bater na criança. Escravidão do pensar.
  
R.P Leonardo CASTELLANI. “Primero Política”, em Las ideas de mi tío el Cura, pp. 137-138.

IMPRENSA MENTIROSA E TRAPACEIRA

O que temos aqui não é imprensa livre, senão imprensa mentirosa, estrangeirizante e trapaceira... Estou inteiramente certo de que enquanto tivermos a imprensa que temos, este país não é governável.
R. P. Leonardo CASTELLANI. “La ficha escolar”, em "Cristo ¿vuelve o no vuelve?"

terça-feira, 1 de abril de 2014

DISSOCIEDADE E ESTADO TOTALITÁRIO

Para o Estado contemporâneo e seus manipuladores, a democracia não é senão uma maquiagem, um enfeite, um adorno destinado a enganar os últimos devotos de uma religião que já expirou e que entrou em sua fase convencional de rigidez ritualista. Sob esta casca do Estado, no século XX, o que o observador descobre é apenas uma sociedade que não representa nada, uma dissociedade, uma “sociedade” que já nada deve aos impulsos originários da natureza social do homem e que os sociólogos denominaram sociedade de massas, definida pela simples justaposição de seus membros, todos homogêneos como as moléculas de um mesmo corpo material, todos igualmente desvitalizados, reduzidos ao estado de insetos, ou mais exatamente ao estado de “coisas” as quais o Estado assegura uma administração. Colocado diante de uma coletividade aonde já não há comunidades naturais senão indivíduos, o Estado adquire uma extensão ilimitada. Um Estado que coroa uma dissociedade está fatalmente destinado a ser, ele sozinho, toda a sociedade e a assumir todas as funções sociais que a natureza concedeu o homem... Salta aos olhos que o crescimento do Estado totalitário é correlativo ao declive da educação política que tem seu assento nas comunidades naturais. Nestas se articular o complemento da razão e da vontade com os impulsos da natureza e se contraem hábitos, comportamentos típicos, condutas submissas a normas bem cognoscíveis que fazem com que os atos de cada um de seus membros possam ser previstos pelos demais e que reina entre elas uma certa ordem em forma permanente enquanto as relações sociais se fundam na segurança de que o associado não enganará o seu sócio. A educação engendrou costumes comuns que fazem com que o curso normal das coisas raramente seja perturbado e que a autoridade não se exerça, no pleno sentido da palavra, mais que excepcionalmente, para ordenar ou defender. Os costumes que as comunidades naturais destilam continuamente, facilitam muito o governo da sociedade política e o tornam inclusive supérfluo enquanto o curso das coisas permaneça normal. Quanto mais constantes e arraigados sejam os usos e costumes, tal como é norma nas associações aonde a natureza possui a iniciativa, menos poderá lançar-se o poder soberano na corrida para o absolutismo que lhe é característico quando abandonado às suas próprias forças. É a educação e não o poder do Estado que dita ao cidadão o que se deve ou não fazer. Todo Estado construído sobre as comunidades naturais e sobre a educação que elas difundem, vê assim reduzido seu poder à sua justa medida; e este poder é poucas vezes sentido como uma força exterior aos cidadãos. Ao contrário, todo Estado sem sociedade é automaticamente um Estado coercitivo, policial, armado com um arsenal de leis e regulamentos com os que se encarrega de dar um sentido às imprevisíveis e aberrantes condutas dos indivíduos. Sua tendência ao totalitarismo é proporcional à debilitação das comunidades naturais, à ruína dos costumes, ao desmoronamento da educação... O terrificante Leviatã social que conhecemos, substitui as autoridades moderadoras que imprudentemente foram sendo eliminadas por uma Constituição ou uma legislação insensata.

Marcel de CORTE. La educacion política. Comunicação ao Congresso de Lausanne II. Verbo, n. 59, pp. 643-644.

domingo, 23 de março de 2014

MOZART ASSASSINADO

“Sento-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher a criança, bem ou mal, havia se alojado, e dormia. Volta-se, porém, no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia nascido um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me sobre a fronte lisa, a pequena boca ingênua. E disse comigo mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa de vida. Não são diferentes dele os belos príncipes das lendas. Protegido, educado, cultivado, que não seria ele? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardineiros para os homens. Mozart criança irá para a estranha máquina de entornar homens. Mozart fará suas alegrias mais altas da música podre na sujeira dos cafés-concertos. Mozart está condenado. Voltei para o meu carro. E pensava: essa gente quase não sofre o seu destino. E o que me atormenta aqui não é a caridade. Não se trata da gente se comover com a ferida eternamente aberta. Os que a levam não a sentem. É alguma coisa como a espécie humana, e não o indivíduo, que está ferida, que está lesada. Não creio na piedade. O que atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, a gente se acomoda, como no ócio. Gerações de orientais vivem na sujeira e gostam de viver assim. O que me atormenta, as sopas populares não remedeiam. O que me atormenta não são essas faces escavadas nem essas feiúras. É Mozart assassinado, um pouco, em cada um desses homens. Só o Espírito, soprando sobre a argila, pode criar o Homem”

Antoine de SAINT-EXUPÉRY. Terra dos Homens, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 138-140.

JORNALISMO PROSTITUÍDO

“O jornalismo atual surge necessariamente do fato da massificação do povo; e digam o que quiserem sobre o ‘jornalismo católico’, tal como está agora o jornalismo é imoral. Kirk disse: ‘Se eu tivesse um filho e uma filha e os perdesse, ela se fizesse prostituta e ele jornalista, eu receberia ela em minha casa se se arrependesse, mas não a meu filho. Cinco anos de jornalismo arruínam a mente irremediavelmente...’ (menos mal que eu fiz apenas quatro). Quem não acredita este fato o fará perceber: um grande diário é um grande negócio; portanto, torna ‘negociável’ o que é por natureza NÃO-NEGOCIÁVEL; quer dizer, é uma prostituição”.      

“Nenhum homem é desprezível quando ordenado, quer dizer, em contato com o que é superior a ele e sob sua influência. Ser discípulo não é nenhuma desonra enquanto está sujeito ao mestre; o mal é quando o discípulo se crê ou quer se fazer o mestre; e pior quando não é nem sequer discípulo e ensina: como, por exemplo, o jornalista”.


Padre Leonardo CASTELLANI. De Kirkegord a Tomás de Aquino. Introducción a la Filosofía, Editorial Guadalupe, 1973.



A HUMILDADE PRECEDE A GLÓRIA

“Voltar a sentir a relação do homem com a terra, a natureza, a história, o universo, como algo misterioso e poético, quer dizer, de maneira criadora, apaixonadamente atrativa. Talvez seja essa a maneira mais culta e mais nobre de viver. Experimentar a cada instante a graça da vida (Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida) e não deixar-se seduzir pelo demônio da destruição que às vezes pretende mostrar uma máscara de beleza utópica. Uma última reflexão: ‘não creias inteiramente na felicidade, não temas o infortúnio’ é um velho adágio russo que Soljenítsin cita em um de seus livros, como se já vislumbrasse um destino distinto para sua querida Rússia, logo das terríveis e dolorosas circunstancias que ele e sua não padeceram... Quando se aproxima o crepúsculo da vida e se tenha experimentado a ventura da Graça, os lustros vão enchendo o coração de um elementar, quase inocente entendimento, que o liga às verdades simples e perenes contidas nos antigos adágios nascidos do aroma do povo. A alegria e o sofrimento, inseparáveis dos seres humanos em seu fugaz transito pela terra, adquire fulgores de eternidade, como se de repente, ‘o homem se tornasse contemporâneo de Cristo’, e em sonho parecesse escutar, lá... no mais fundo da alma, as palavras do Padre Castellani: ‘Isto é a Fé’; então, floresce a compreensão imensa, incomensurável... O adágio russo citado lembra alguns provérbios bíblicos, especialmente aquele que reza: ‘Antes da ruína se exalta o coração do homem; mas a humildade precede a Glória’ (Prov. 18.12).Provérbio, adágio e situação mundial, vividos com a sensibilidade que o cristão não pode perder, se enlaçam mostrando um caminho. Caminho de eterna esperança, sugerido amorosamente por mais de um pensador contemporâneo: o coração do homem se rebela em seu orgulho desafiando a Deus, provocando violência, crimes e castigos... dolorosa queda; mas na derrota de todas as suas ilusões, no sangue e nas lágrimas, seu pesar apela ao perdão e à graça, e a humildade precede a Glória”.

Alberto BOIXADÓS. Política en la cultura de masas, Buenos Aires: Editorial Areté, 1983, 97-98.

sexta-feira, 21 de março de 2014

O HOMEM AUTÔMATO

“Sinto-me hoje profundamente triste – e triste em profundidade. Sinto-me triste por causa da minha geração, vazia de toda substância humana, geração que só conheceu o bar, as matemáticas e os Bugatti como forma de vida espiritual e se entrega hoje a uma ação estritamente gregária, que já não tem cor alguma... Não lhe parece que já não se pode viver de frigoríficos, de política, de balanços e de palavras cruzadas? Não podemos mais. Não se pode viver mais tempo sem poesia, sem cor, nem amor... Desculpe-me, mas já só nos resta a voz do autômato da propaganda. Dois milhões de homens já só ouvem o autômato, já só compreendem o autômato, convertem-se em autômato... O homem autômato, o homem térmita, oscilante entre o trabalho em cadeia segundo o sistema de Bedeau e a bisca... o homem castrado do seu poder criador e que, do fundo da sua aldeia, nem sequer já sabe criar uma dança nem uma canção. O homem que se alimenta de cultura confeccionada, de cultura ‘standard’ como os bois se alimentam de feno. O homem de hoje é isso”.

Antoine de SAINT-EXUPÉRY (1900-1944). Carta ao General “X”. 


terça-feira, 18 de março de 2014

TECNOCRACIA, TOTALITARISMO E MASSIFICAÇÃO

“Com a liberação das antigas ataduras – expressão que designa a ruptura de todos os vínculos sociais do individuo, inclusive o aggionarmento antropocêntrico das crenças religiosas e o esquecimento das experiências transmitidas pela tradição – o individuo fica sozinho diante de um Estado onipotente, que se faz totalitário, embora politicamente seja uma democracia. Surge assim um ‘novo totalitarismo’, que nos mostrou Roland Huntford no denominado ‘paraíso sueco’, realização do ‘mundo novo’ vislumbrado por Aldous Huxley ... Ademais, como a desalienação das tradições – depósito vivo e sempre renovado das experiências resultantes de sua constante luta pela existência e por seu progresso – deixa o homem inerme diante de toda espécie de utopias, o torna dócil à uma opinião pública pré-fabricada pela propaganda, emitida em imagens e concretizada em slogans que, mobilizando seus desejos e ilusões, seus temores e ressentimentos, provocam nele reflexos condicionados que o priva de senso crítico em face das novidades.Ao fim e ao cabo, o Estado tecnocrático ao assumir a realização do mito de superar todas as necessidades, converte a finalidade clássica do bem comum, de ‘viver na virtude’ mediante a conquista ‘da paz, da concórdia e da tranqüila convivência na ordem’, na atual consideração como função primordial do Estado da – antes instrumental e subsidiária – de conseguir bens materiais suficientes para distribuí-los coletivamente a todos. Esta mudança radical de fins implica a centralização de um poder imenso – pois, nele, se confundem com o poder político, o econômico e o cultural -, que de fato fica nas mãos de quem detém as alavancas do poder de mando. Mas, ademais, produz o esquecimento de que a saúde da sociedade depende primordialmente da conquista da plenitude pessoal de seus membros, não só física senão também moral, intelectual e política, que requer o estímulo de seu engenho e de suas iniciativas e o incremento de seu senso de responsabilidade, de modo semelhante a como a solidez de um edifício depende da fortaleza dos materiais de que está feito, e, em especial, dos que constituem seus pilares básicos.
   
 Juan Vallet de GOYTISOLO (1917-2011). Tecnocracia, Totalitarismo y masificacion, Revista Verbo, n. 207-208, pp. 752-753.

O ESTADO PROPRIETÁRIO

“Uma 'sociedade' com a praga que Valery chama 'a multiplicação dos sós', é necessariamente coletivista. Como diria o conselheiro Acácio, para ser eu, não é preciso ser outro, na dependência de outro, Deus, homem, hierarquia, sociedade, instituições, coisas, universo, nada em suma de tudo que é. É então necessário suprimir qualquer alienação, romper todos os vínculos que ainda unissem, mesmo mentalmente, o eu ao não-eu. Mas, para que todas as subjetividades estejam na mesma situação, é preciso compor todo um Estado proprietário de tudo que não é o próprio eu, o eu esvaziado de ser, ou , se assim podemos dizer, o eu que recebe seu vazio de ser — Monstro anônimo em cujas mínimas percepções, se vê que não passa de um Aparelho manobrado por uma 'nova classe dirigente' e minoritária. The madness of the many for the gain of a few, dizia Pope. Atrás do monstro estão os maquinistas”.


Marcel DE CORTE (1905-1994). Sartre, filósofo da contestação. Trad. Gustavo Corção, publicado em Permanência, Novembro de 1970.

DO GOVERNO DAS PESSOAS À ADMINISTRAÇÃO DAS COISAS

“Mais do que nunca o governo das pessoas tende a ser deslocado pela administração das coisas, e conseqüentemente a sociedade política vai deixando de ser uma reunião de cidadãos para se transformar na massa de administrados. A automação e as modernas técnicas administrativas contribuem para acentuar tal fisionomia deste novo tipo de Estado, cujos traços são ainda mais fortes no Estado totalitário”.


José Pedro GALVÃO DE SOUSA (1912-1992). O Estado tecnocrático, São Paulo: Saraiva, 1973, p. 29. 

A DESTRUIÇÃO DOS CORPOS INTERMEDIÁRIOS E O SURGIMENTO DE UM PODER SEM LÍMITES

“Como a revolução francesa não teve somente por objeto mudar um governo antigo, mas abolir a forma antiga da sociedade, ela teve que combater a um só tempo todos os poderes estabelecidos, arruinar todas as influências reconhecidas, apagar as tradições, renovar os usos e costumes e esvaziar de certo modo o espírito humano de todas as idéias sobre as quais se haviam fundado até então o respeito e a obediência. Daí o seu caráter tão singularmente anárquico. Mas afastai estas ruínas: percebereis um poder imenso que atraiu e devorou na sua unidade todas as parcelas de autoridade e de influencia antes dispersas numa série imensa de poderes secundários, de ordens, de classes, de profissões, de famílias e de indivíduos, e como que espalhadas em todo o corpo social. Nunca se havia visto no mundo um poder semelhante desde a queda do império romano. A Revolução criou este poder novo, ou melhor, ele saiu por si mesmo das ruínas acumuladas pela Revolução” 

Alexis de TOCQUEVILLE (1805-1859). L’Ancien Régime et la Révolution. Libro I, cap. II.


ESTATIFICAÇÃO DA VIDA

“Este é o maior perigo que hoje ameaça a civilização: a estatificação da vida, o intervencionismo do Estado, a absorção de toda espontaneidade social pelo Estado; quer dizer, a anulação da espontaneidade histórica, que em definitivo sustenta, nutre e impulsiona os destinos humanos”.


José ORTEGA Y GASSET (1883-1955). A rebelião das massas. 1ª parte, XIII.