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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

VIVEMOS FORA DE NOSSA INTERIORIDADE

“Nós vivemos fora de nossa interioridade: não interiorizamos nossa vida prática, exteriorizamos nossa consciência; não recuperamos o mundo dentro de nós, nos perdemos e dispersamos a nós mesmos no mundo. Refletimos a superfície das coisas em lugar de refletir sobre as coisas a profundidade de nosso espírito”.
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Michele Federico SCIACCA. Fenomenología del hombre contemporáneo, Buenos Aires: Asoc. Dante Alighieri, 1957, p. 10.

domingo, 14 de agosto de 2016

O APOSTOLADO DO SACERDOTE E DO LEIGO

“Como disse na sua mensagem natalícia S.S. Pio XII, não existe organização do mundo que possa garantir a dignidade do homem e a soberania inviolável da pessoa, se se prescindir dos valores imortais do espírito e da verdade de Cristo; e não existe, por consequência, nem humanismos da cultura nem do trabalho. Daí o valor insubstituível da religião, que é indispensável ao homem como a sua mesma alma.
Também a vida religiosa é “trabalho”, o mais humano, o mais universal e, por isso, “católico”: trabalhar, para nós, para o próximo e para Deus, segundo a ordem da verdade natural, iluminada pela fé, que é verdade e graça sobrenatural. O apostolado do Sacerdote ou o leigo católicos, o culto religioso, a oração, etc., são trabalho e altíssimo trabalho social, mais do que social na medida em que se encontra voltado para fins supersociais, para a total realização do homem e, por isso, da liberdade plena. Não edifica casas ou outros confortos materiais, mas edifica o espirito dos homens, isto é, aqueles que habitam as casas e usam dos confortos. A técnica preocupa-se em construir as estradas, mas a Igreja de Deus assume uma empresa muito mais importante: preocupa-se com a alma dos homens que por elas passam, reza pela sua paz material e espiritual, e, quando pode, prodiga-se em toda a espécie de auxilio. Mas para que serve a oração? Para nada, se for ateu; é eficacíssima, se se crer que o homem é filho de Deus e que o Pai é também o Amor. A oração, que tem confiança na misericórdia do Criador, e o temor de Deus, por amor da sua justiça, são “trabalho”, o trabalho que eleva e santifica todas as formas da atividade humana que, no fundo, com as nossas obras honestas, quaisquer que sejam, é resposta à verdade. Resposta sempre inadequada – a do grande poeta tanto como a do camponês que ara a terra – que nunca poderá dar ao homem a sua plenitude, porque a plenitude do homem não é a sociedade (liberal ou comunista, ou o que quer que seja) ou o homem mesmo. Só o destino sobrenatural é a elevação suprema da dignidade da pessoa; só ela faz com que o trabalho de todo o indivíduo, se Deus o quer, encontre a sua plenitude na glória de Deus”.
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Michele Federico SCIACCA. A hora de Cristo, Lisboa: Aster / São Paulo: Flambyant, p. 186.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A CRISE DO MUNDO MODERNO

A crise que afeta o mundo moderno e contemporâneo é crise de fundamento, de um fundamento absoluto da verdade e dos valores humanos; “ruptura” entre Deus e o homem. A sociedade hodierna, excetuando núcleos isolados, encontra-se “desintegrada”, é uma sociedade de homens intelectual e moralmente desintegrados: falta-lhe a unidade fundamental. Esta falta é também advertida pelos responsáveis por tal desintegração. Daqui a reconhecida necessidade do absoluto, que o pensamento moderno, a começar no século XVI, pensou poder dispensar ou substituir, absolutizando os valores humanos válidos como tais, sempre necessitados de se fundarem sobre o absoluto, ou de o testemunharem. Mas este absoluto constitui o objeto próprio da metafísica; então, o mundo moderno julgou que podia dispensá-la. Àquilo que a filosofia chama absoluto, com mais gravidade e sem possibilidade de equívocos, a teologia chama Deus; ainda uma vez a ilusão do pensamento laicista se revela com o julgar poder prescindir de Deus. Perdido Deus, perdeu-se o homem, o fundamento do homem e o seu fim supremo. Sem Deus, a vida humana despedaça-se e dispersa-se, desintegra-se. A carência de absoluto, hoje, é carência de Deus, após a queda de tantos e tantos mitos.


Michele Federico SCIACCA.  A hora de Cristo, Lisboa-São Paulo: Aster-Flamboyant, 1959, p. 49. 

terça-feira, 7 de abril de 2015

O HOMEM DECAÍDO

“Hoje o homem está a tal ponto decaído relativamente à sua humanidade, que pede a liberdade à burocracia estatal, a qual, em si mesma, enquanto “máquina”, é irresponsável e, por isso, estranha à liberdade. Parece que hoje os homens só se sentem seguros “agregando-se”, fazendo massa ou rebanho: pagam a “segurança” social com a renúncia a ser, eles próprios, pessoas; em compensação, contentam-se com isto de que a liberdade lhes seja concedida sobre um fólio de carta oficial, com selos e assinatura. O Estado, assim, em vez de ser a garantia dos direitos naturais do homem, é a “máquina” que os produz, que os dá, que os retira e suprime, os ofende e os insulta quando quer, sob pretexto da “salvação pública” e de “interesses superiores”. Superiores a que?... A despersonalização do homem, a renúncia a si mesmo, puseram o próprio homem “em discussão”, e já não há salvação pública para ele: o Estado devora-o, digere-o e excrementa-o como lhe é cômodo. É este hoje o sentido verdadeiro, brutal, desumano das chamadas “novas formas sociais”, nas quais o espírito já não tem lugar, il n’y a pas de place”.


___ Michele FEDERICO SCIACCA. A hora de Cristo, Liboa-São Paulo: Aster/Flambyant, 1959, p. 25.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O DIREITO COMO PRIVILÉGIO

Um homem sem deveres para com Deus e com seus semelhantes não se coloca mais na situação de sujeito de direito e não os pode invocá-los: são os deveres que ligam um homem aos outros homens e que sustentam uma sociedade, começando pela família. Sem deveres e apenas com direitos, o homem se “libera” a respeito de tudo e de todos; vive escondido em meio aos outros. Hoje vivemos em um contexto social no qual se reclamam todos os direitos, até os mais absurdos, e em que não pode pronunciar, ao contrário, a palavra dever, como se essa fosse uma blasfêmia e um intolerável atropelo à liberdade pessoal.


Michele FEDERICO SCIACCA. El derecho como privilegio: igualitarismo y sociedad injusta, Revista Verbo, Madri, P. 618.

domingo, 13 de julho de 2014

A VERDADEIRA LIBERDADE

“A liberdade cristã não consiste apenas na libertação dos males externos decorrentes de estruturas envelhecidas ou degeneradas, cuja renovação exigida pelo direito natural é sempre oportuna e necessária para a comunidade, mas na vitória do cristão sobre o mal que carrega em si e que escraviza a sua vontade. Enquanto a vontade humana não se converta ao bem, os males da sociedade não poderão ser eliminados... A mudança e o esforço interior, isto é, a autêntica liberdade lutando contra o mal que habita no interior de cada homem, se conquista com a ajuda da graça que aperfeiçoa, potencializa e encaminha a liberdade para o bem, embora conservando sua capacidade para o mal. Não existe sociadade livre e justa sem homens livres e justos".

__ Michele Federico SCIACCA. Revolucion, conservadurismo, tradición, Revista Verbo, Madri, n. 123, março-1974, p. 290.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A IDOLATRIA MODERNA

“Quem recusa reconhecer ou amar a Deus, fatalmente reconhece ou ama a um fetiche: as épocas pouco religiosas são as mais supersticiosas e idolatras. E a idolatria leva ao fanatismo. Deus é uno, mas os ídolos podem ser infinitos, e cada homem fabrica o seu. O fanatismo implica intolerância, violência e guerra de ídolos contra ídolos, de fanáticos contra fanáticos; daí a falta de respeito recíproco e a conseguinte “impiedade” contra tudo e todos e a negação da liberdade. A sociedade moderna é idolatra – o laicismo é sempre idolatria -, é fanática e intolerante de extrema intolerância... A identificação do conhecer humano com o Absoluto, da verdade com o pensamento em seu devir, do ser com o pensar, comporta, como já se foi dito, a dissolução de Deus no homem, a divinização do homem, a absolutização do princípio da subjetividade, a redução de Deus-Homem ao Homem-Deus, a conversão da teologia em antropologia, que implica em nada dizer sobre o ser do homem e sobre o ser de Deus. Assim, a divindade do mundo moderno foi, sucessivamente, a Ciência, a Humanidade, a Filosofia, a Economia, a História etc.; sempre um ídolo; um mito mundano e laico chamado a se colocar no lugar de Deus”.


____ Michele FEDERICO SCIACCA. L'ora dì Cristo, cap. II, Milão: Marzorati, 1973, pp. 80 e ss.





segunda-feira, 7 de julho de 2014

PARA CURAR A SOCIEDADE NÃO BASTA DISTRIBUIR EQUITATIVAMENTE OS BENS

“Para curar a sociedade não basta distribuir equitativamente os bens, mas sim ensinar o seu uso; daí i que, ou a cura é moral ou qualquer remédio econômico pode resultar uma enfermidade mais grave. Trata-se de repristinar a hierarquia dos valores no interior da ordem do ser: os homens devem ser amados mais que as coisas... o fim da vida terrena não é a riqueza e o bem-estar social, mas a atuação integral da lei moral, da qual riqueza e bem-estar não devem ser senão meios: trabalhar não para a vida cômoda ou pela sociedade homogênea, senão pela vida virtuosa, não pela ganancia da riqueza, que, como fim em si mesma, é miséria extrema, mas pela conquista da perfeição...”.


___ Michele Federico SCIACCA, citado por Juan Vallet de GOYTISOLO: Cristianismo y mundo moderno, según el Professor Sciacca. Revista Verbo, ns. 201-202, Jan-fev de 1982.


quinta-feira, 22 de maio de 2014

O DIREITO COMO PRIVILÉGIO

"Uma sociedade em que todos são iguais em privilégios não é uma sociedade como tal, mas sim uma anarquia sem os ideais do anarquismo, e que, carente de governo, não pode ter outro senão o governo dos privilégios e da corrupção elevados a sistema de governo: uma sociedade que carece da existência de cidadãos e de homens, uma vez que ninguém sabe governar a si mesmos, nem agir conforme qualquer princípio. A igualação na anarquia dos privilégios: eis um modo de vida inédito, que será conhecido postumamente, após a morte de toda vida humana”.

___Michele Federico SCIACCA. O direito como privilégio: igualitarismo e sociedade injusta.

quarta-feira, 26 de março de 2014

O DIREITO COMO PRIVILÉGIO

“Se se admite que os conceitos de princípio de autoridade e autonomia individual se opõem e excluem, e que qualquer lei moral e princípio são limitativos ou negativos da liberdade e toda recompensa honestamente obtida, assim como também a inteligência, geram discriminações intoleráveis e devem ser perseguidas como inimigos públicos; se se aceita o igualitarismo absoluto, resulta que todos têm direito à tudo sem a obrigação de prestar contas a quem quer que seja do exercício de tais possíveis e impossíveis direitos. Resulta, do mesmo modo, que já não existe nada a que – ainda que violentamente – não se possa aspirar a ter direito. Se reclama, sobretudo, o direito de ter direitos, cada vez mais direitos, frente ao dever de ser o mais reto possível”. 
Michele Federico SCIACCA (1908-1975). El derecho como privilegio: igualitarismo y sociedade injusta. Revista Verbo, n. 134-136, 1975, p. 617. Último artigo do professor M. Federico Sciacca, publicado originalmente no jornal La Nación, de Buenos Aires, em fevereiro de 1975.

sexta-feira, 21 de março de 2014

O CAMPO E AS RAÍZES DA CIVILIZAÇÃO

"Queremos simplesmente dizer que entre os ‘sinais’ infalíveis da decadência e da morte de uma civilização encontra-se a desertização dos campos e a acumulação da gente na cidade; a passagem de uma riqueza modesta, mas sólida, que tem solidez inclusive moral e espiritual, à uma dourada miséria interior, coincidente não com o nascimento do homem novo, senão com os abortos em cadeia do homem envelhecido e decadente: massa de nascidos abortados e cúmulo de exibição da desordem, fonte de contaminação e de irreparável desequilíbrio social, tal como hoje se converteu a cidade, inobstante seus inegáveis atrativos. É necessário começar de novo a semear se se quer que nasçam homens-trigo e não homens-joio. Do campo e da solidão é a finura do sentir: o campo é ‘religioso’; do trigo toma a força do coração; da oliva, o azeite, produtor de luz, que espanta as trevas da alma. Por que, precisamente para que a civilização das máquinas e da cidade babélica não se autodestrua e para que conserve o que tem de válido, não se restitui à ‘campina divina’ de Virgílio sua dignidade e seu decoro, sua glória, seu silêncio e sua religiosidade?Religiosidade, sim; também religião. Nada de quanto se vive é mais válido, mais resistente nem mais ‘estático’ que o dinamismo que possui a árvore. A árvore tem raízes robustas, profundas, laboriosas: a árvore se arraiga; a árvore é ‘radical’ como a evidência que não se discute porque está além de toda discussão, porque além das raízes não se pode andar: a raiz é ‘princípio’; é radical no sentido de que dá raiz, disso que não se move e está sempre no mesmo lugar, irrompe a vida que se ramifica. A árvore está sempre no mesmo posto, a espera dos invernos e dos verões, das primaveras e dos outonos, da chuva e do sol, dos ventos e das neves: toda a natureza alimenta suas raízes que, por sua vez, fazem com que a natureza seja natureza. A árvore ensina que sem arraigar não se nasce e não se cresce, não operam as potencias vitais; ensina que quem se desarraiga não vive, morre; e se vai vivendo, é utópico, informe, traidor e, por isso, ‘ímpio’; é um saco vazio que se pode encher de tudo, inclusive de seu próprio vazio; é praça e não castelo, palheiro e não torre. Assim, o homem desarraigado é levado pelo vento como uma brisa de erva seca e, por falta de raízes, destina a curvar-se como as costas dos escravos e, depois, a arrastar-se, astúcia do escravo, como os repteis. A imobilidade da árvore é o símbolo das consciências sólidas precisamente porque têm raízes que lhes fixam e princípios que não se derrubam. Parece como se a árvore fosse o contrário da fé que move montanhas. E o é, seguramente; mas esta contraposição é necessária para a fé autêntica, que, como o pensamento, vive e se nutre de oposições. Sem raízes profundíssimas e vitais, como um penetrar até a profundidade da terra, como uma provocação audaciosa dirigida a alcançar a criação em sua origem imaculada; sem raízes que cravam como um mártir a sua fé, não nasce, não se alimenta a fé que move montanhas, porque as move apenas a fé arraigada, aquela que não se desarraiga e que, ao fim, precisamente quando se agarra à cruz, erradica a erva inútil. A árvore e os pássaros do céu e os lírios do campo, confiam na Providência. Não religião da natureza, senão aproximação religiosa da natureza, fonte que alimenta o espírito religioso, o amor à ordem e às coisas boas para o governo da ordem, que implica uma finalidade que a ultrapassa, a preenche: a faz perfeita".
   
 Michele FEDERICO SCIACCA (1908-1975) 

domingo, 16 de março de 2014

IGUALDADE NA ESCRAVIDÃO

 Michele Federico Sciacca (1908-1975)
"Mas cultura é liberdade, e não há liberdade sem cultura (...). Sem ela, a 'democratização' do ensino e da cultura desliza pela pendente de um igualitarismo que leva fatalmente a uma submissão das massas à um poder totalitário, seja qual for a modalidade que se configure. O igualitarismo puro, morte da inteligência, da cultura e da liberdade, é a igualdade na escravidão".

Michele Federico SCIACCA. La inteligencia planificada, Verbo (Madri), n. 153-154, 1977.