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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

LUTA CONTRA O DESÂNIMO

       

(Argel,1943)

         “Senhor, dai-me a paz dos estábulos, a paz das coisas organizadas, das colheitas realizadas.
         Permiti que eu seja, tendo terminado de tornar-me, estou cansado dos lutos do meu coração, estou velho demais para recomeçar, perdi um após outro meus amigos e meus inimigos, e em meu caminho fez-se uma luz de ócios tristes.
         Meu Deus, afastei-me de vós, mas voltei, vi os homens ao redor do velocino de ouro, não interessantes, mas estúpidos, e as crianças que nascem hoje são mais estrangeiras que os jovens bárbaros. Sinto-me carregado de tesouros inúteis como de uma música que não será jamais compreendida. Comecei minha obra com o machado de lenhador na floresta, e estava embriagado com o cântico das árvores, mas, agora que vi de muito perto os homens, estou cansado.
         Aparecei perante mim, Senhor, pois tudo é duro quando se perde o gosto de Deus.
         Em que se reencontrar, lar, costumes, crenças, eis o que é tão difícil hoje e o que torna tudo tão amargo...

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Antoine de SAINT-EXUPÉRY. Cartas do Pequeno Príncipe, BH-SP: Itatiaia, 1974, p. 38.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

QUANDO EU MORRER.

Senhor, eu chego a ti, porque trabalhei em teu nome. Para ti, as sementeiras.
Construí este círio. Pertence-te acendê-lo.
Construí este templo. Cabe-te habitar o seu silêncio.
A presa não é para mim. Eu limitei-me a construir o laço.
Tome essa atitude para ser animado por ela. Construí um homem segundo as tuas divinas linhas de força, para que ele caminhe. Pertence-te usar do veículo, se vires nisso a tua glória.
Assim, do alto das muralhas, lancei um profundo suspiro. Adeus, meu povo – pensava eu. Esvaziei-me do meu amor e vou dormir. No entanto, sou tão invencível como a semente. EU não disse todos os aspectos do meu rosto. Mas criar não é enunciar. Consegui exprimir-me inteiramente, se emiti um som que é aquele e não outro. Se amei uma atitude, que é aquele e não outra. Se introduzi na massa um fermento que é tal fermento e não outro. Daqui para o futuro, todos vós nascentes de mim. Se se vos deparar um ato a escolher entre outros, haveis de encontrar o invisível declive que vos fará desenvolver a minha árvore, e vos realizardes assim de acordo comigo.
Vós vos sentireis livres, e eu morto. Com essa liberdade que o rio tem de se dirigir para o mar ou a pedra abandonada de descer.
Criai ramos. Criai flores e frutos. Hão de vos pesar na vindima.
Ó meu povo amado, se eu te aumentei a herança, sê fiel de geração em geração.
Enquanto a sentinela dava os cem passos, eu rezava e meditava.
O meu império destaca-me sentinelas que vigilam. Vi assim a atear esse fogo que, n a sentinela, se torna chama de vigilância.
Que belo é o meu soldado quando olha.
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Antoine de SAINT-EXUPÉRY. Cidadela, trad. Ruy Belo, São Paulo-Lisboa: Quadrante-Aster, CXXX p. 203-204.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

UM SENTIDO PARA A VIDA

“Só seremos felizes quando caminharmos na boa direção, na direção que tomamos desde a origem, despertando da argila. Nessa altura podemos viver em paz, porque aquilo que dá um sentido à vida dá um sentido à morte. A morte é tão doce à sombra do cemitério provençal, quando o velho camponês, no termo do seu reinado, entregou como depósito aos filhos o seu lote de cabras e de oliveiras, para que por sua vez o transmitam aos filhos dos filhos. Só se morre metade numa linhagem de camponeses. Quando chega a sua vez, cada existência estala como uma vagem e entrega as suas sementes”.


Antoine de SAINT-EXUPÉRY. Um sentido para a vida, Lisboa: Editorial Aster, 1976, p. 160.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

VIVEMOS NO VENTRE CEGO DE UMA ADMINISTRAÇÃO

Vivemos no ventre cego de uma administração. Uma administração é uma maquina. Quanto mais perfeita é uma administração, mais ela elimina o arbítrio humano. Numa administração perfeita, onde o homem desempenha o papel de uma engrenagem, a preguiça, a desonestidade, a injustiça já não podem causar estragos.
Mas, assim como a maquina é construída para administrar uma sucessão de movimentos previstos de uma vez para sempre, também a administração não cria mais do que isso. Limita-se a gerir. Aplica tal sanção a tal falta, tal solução a tal problema. Uma administração não está montada para resolver problemas novos. Se numa máquina de embutir introduzirmos bocados de madeira, nem por isso sairão móveis. Para que a máquina se adaptasse seria preciso que um homem dispusesse do direito de intervir. Mas, numa administração, montada para remediar os inconvenientes do arbítrio humano, as engrenagens recusam a intervenção do homem. Recusam o relojoeiro.


Antoine de SAINT-EXUPÉRY. Piloto de Guerra, Lisboa: Editorial Aster, 7. ed., p. 77-78.

domingo, 17 de agosto de 2014

A MATURIDADE

"A maturidade que a gente adquire vai-se fazendo lentamente. E se faz contra tantos obstáculos vencidos, contra tantas doenças graves curadas, contra tantos sofrimentos apaziguados, contra tantos desesperos superados, contra tantos riscos, cuja maior parte escapou à nossa consciência. Faz-se através de tantos desejos, tantas esperanças, tantos remorsos, tantos esquecimentos, tanto amor. A idade de um homem representa uma carga de experiências e de lembranças! Apesar das ciladas, dos tropeços, dos desvios, continuamos a avançar, de qualquer jeito, com dificuldade, como uma boa carroça... E a boa carroça, se Deus quiser, levará ainda mais longe sua carga de lembranças". 

___ Antoine de SAINT-EXUPÉRY. Cartas do Pequeno Príncipe, p. 22.



segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A AMIZADE E O OFÍCIO

“Temos, com efeito, o habito de esperar durante muito tempo os encontros... A terra, assim, é ao mesmo tempo deserta e rica. Rica desses jardins secretos, escondidos, difíceis de atingir, mas aos quais o oficio nos conduz sempre, um dia ou outro. A vida nos separa talvez dos companheiros, e nos impede de pensar muito nisso. Eles estão em algum lugar, não se sabe bem onde, silenciosos e esquecidos, mas tão fieis! E se cruzarmos seus caminhos, eles nos sacodem pelos ombros com belos lampejos de alegria. Sim, nós temos o hábito de esperar. Mas pouco a pouco descobrimos que não ouviremos nunca mais o riso claro daquele companheiro; descobriremos que aquele jardim está fechado para sempre. Então começa nosso verdadeiro luto, que não é desesperado, mas um pouco amargo. Nada, jamais, na verdade, substituirá o companheiro perdido. Ninguém pode criar velhos companheiros. Nada vale o tesouro de tantas recordações comuns, de tantas horas más vividas juntos, de tantas desavenças, de tantas reconciliações, de tantos impulsos afetivos. Não se reconstroem essas amizades. Seria inútil plantar um carvalho na esperança de ter, em breve, o abrigo de suas folhas.
Assim vai a vida. A principio, enriquecemos; plantamos durante anos, mas os anos chegam em que o tempo destrói esse trabalho, arranca essas arvores. Um a um, os companheiros nos retiram sua sombra. E aos nossos lutos mistura-se então a mágoa secreta de envelhecer. Esta moral que Mermoz e tantos outros me ensinaram. A grandeza de uma profissão é talvez, antes de tudo, unir os homens; só há um verdadeiro luxo, o das relações humanas.
Trabalhando só pelos bens materiais construímos nós mesmos nossa prisão. Encerramo-nos lá dentro, solitários, com nossa moeda de cinza que não pode ser trocada por coisa alguma que valha a pena viver. Se procuro entre minhas lembranças as que me deixaram um gosto durável, se faço o balanço das horas que valeram a pena, certamente só encontro aquelas que nenhuma fortuna do mundo ter-me-ia presenteado. Não se compra a amizade de um Mermoz, de um companheiro a quem estamos ligados para sempre pelas provas sofridas juntos”.


___ Antoine de SAINT-EXUPÉRY. Terra dos homens, Rio de Janeiro: José Olympio, 1973, pp. 24-25.
Français Mermoz, Saint-Exupéry e Guillaumet

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O AMOR É

“Assim me foi revelado progressivamente que não era preciso ouvir os homens, mas compreendê-los. Lá em baixo na cidade, sob os meus olhos, a gente pouca consciência tem da cidade. Eles julgam-se arquitetos, pedreiros, guardas, padres, tecedores de linho, julgam-se pelos seus interesses ou pela sua felicidade e não sentem o amor, da mesma maneira que o não sente aquele que vagueia pela casa, todo absorvido pelas dificuldades do dia. O dia é para eles cenas do lar. Mas, à noite, aquele que discutiu volta a encontrar o amor. E o homem assoma à janela, à luz das estrelas, de novo responsável por aqueles que dormem, pelo ganho do pão, pelo sono da esposa que está mesmo ali do lado, tão frágil e delicada e passageira. No amor não se pensa. O amor é”.


__ Antoine de SAINT-EXUPÉRY. Cidadela, trad. de Alípio Maia de Castro, Lisboa-São Paulo, Aster-Quadrante, p. 286.


domingo, 6 de abril de 2014

O HOMEM SE CONVERTE EM GADO MANSO, POLIDO E TRANQUILO..

É espantoso como nos encontramos castrados a preceito. É assim que somos finalmente livres. Cortaram-nos os braços e as pernas, a seguir deram-nos liberdade para andarmos. Mas eu odeio esta época em que, sob um totalitarismo universal, o homem se converte em gado manso, polido e tranquilo. Querem que nós tomemos isso como um progresso moral! O que odeio no marxismo é o totalitarismo a que conduz... A própria substancia encontra-se ameaçada. Mas, quando ela for salva, levantar-se-á então o problema, que é o problema de nosso tempo. Que é o do sentido do homem. E não se propõe uma resposta para ele e tenho a impressão que caminho para os tempos mais obscuros do mundo.


Antoine de SAINT-EXUPÉRY. Carta ao General “X”.

domingo, 23 de março de 2014

MOZART ASSASSINADO

“Sento-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher a criança, bem ou mal, havia se alojado, e dormia. Volta-se, porém, no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia nascido um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me sobre a fronte lisa, a pequena boca ingênua. E disse comigo mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa de vida. Não são diferentes dele os belos príncipes das lendas. Protegido, educado, cultivado, que não seria ele? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardineiros para os homens. Mozart criança irá para a estranha máquina de entornar homens. Mozart fará suas alegrias mais altas da música podre na sujeira dos cafés-concertos. Mozart está condenado. Voltei para o meu carro. E pensava: essa gente quase não sofre o seu destino. E o que me atormenta aqui não é a caridade. Não se trata da gente se comover com a ferida eternamente aberta. Os que a levam não a sentem. É alguma coisa como a espécie humana, e não o indivíduo, que está ferida, que está lesada. Não creio na piedade. O que atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, a gente se acomoda, como no ócio. Gerações de orientais vivem na sujeira e gostam de viver assim. O que me atormenta, as sopas populares não remedeiam. O que me atormenta não são essas faces escavadas nem essas feiúras. É Mozart assassinado, um pouco, em cada um desses homens. Só o Espírito, soprando sobre a argila, pode criar o Homem”

Antoine de SAINT-EXUPÉRY. Terra dos Homens, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 138-140.

sexta-feira, 21 de março de 2014

O HOMEM AUTÔMATO

“Sinto-me hoje profundamente triste – e triste em profundidade. Sinto-me triste por causa da minha geração, vazia de toda substância humana, geração que só conheceu o bar, as matemáticas e os Bugatti como forma de vida espiritual e se entrega hoje a uma ação estritamente gregária, que já não tem cor alguma... Não lhe parece que já não se pode viver de frigoríficos, de política, de balanços e de palavras cruzadas? Não podemos mais. Não se pode viver mais tempo sem poesia, sem cor, nem amor... Desculpe-me, mas já só nos resta a voz do autômato da propaganda. Dois milhões de homens já só ouvem o autômato, já só compreendem o autômato, convertem-se em autômato... O homem autômato, o homem térmita, oscilante entre o trabalho em cadeia segundo o sistema de Bedeau e a bisca... o homem castrado do seu poder criador e que, do fundo da sua aldeia, nem sequer já sabe criar uma dança nem uma canção. O homem que se alimenta de cultura confeccionada, de cultura ‘standard’ como os bois se alimentam de feno. O homem de hoje é isso”.

Antoine de SAINT-EXUPÉRY (1900-1944). Carta ao General “X”. 


segunda-feira, 17 de março de 2014

O HOMEM MORRE DE SEDE

“Século da publicidade, do sistema Bedeu, dos regimes totalitários e dos exércitos sem clarins nem bandeiras, nem missa pelos mortos. Odeio a minha época com todas as minhas forças. O homem morre de sede.Ah! General, só há um problema, um só problema no mundo. Restituir aos homens uma significação espiritual, inquietações espirituais. Fazer chover sobre eles qualquer coisa que se pareça com um canto gregoriano”.
Antoine de SAINT-EXUPÉRY (1900-1944). Carta ao General X.