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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O PODER ARBITRÁRIO DO ESTADO E OS CORPOS INTERMEDIÁRIOS


“Há oitenta anos nos esgotamos em esforços infrutuosos para criar uma nova sociedade destruindo pela violência os hábitos e costumes que constituem as grandezas de nossos avós, inspirando-nos em quimeras condenadas pela natureza do homem. Buscamos na mudança das formas de governo as melhoras que somente podem ser conquistadas com a volta à virtude. Nessa busca esquecemos os fatos consagrados pela experiência dos povos para nos unir à palavras vazias de sentido. Por uma contradição, patente ao simples bom senso, pretendemos servi-las, e cremos criar o reino do bem com a ajuda de procedimentos que não haviam ousado usar nem sequer os poderes mais absolutos. Destruímos não somente os germes da liberdade, mas também as condições de estabilidade, exagerando fora de medida o papel do Estado em detrimento do governo local e das corporações para o bem público. Com efeito, arruinamos, com estas inovações perigosas, as instituições tradicionais que, em todos os tempos, em todos os países, tornaram suportáveis os regimes de força e benfeitores os regimes de liberdade. Nosso erro mais fatal consiste em desorganizar, com as intromissões do Estado, a autoridade do pai de família, a mais natural e fecunda das autonomias, a que conserva melhor o laço social, ao reprimir a corrupção originária, encarrilhando as jovens gerações no respeito e na obediência. Este erro é o que submete o lar, o porvir do trabalho e toda a família à autoridade dos legistas, dos burocratas e de seus agentes privilegiados. É o que, em outras palavras, retira da vida privada suas liberdades mais necessárias e mais fecundas, sem nenhuma razão de interesse público”.

___ Frederic LE PLAY, citado por André Charlier sem seu artigo “Sobre algunas palabras mágicas” publicado na Revista Verbo, de Madri, 1971.


terça-feira, 25 de março de 2014

UMA ÉPOCA DE DESFUNDAMENTAÇÃO

“A época contemporânea é uma época de desfundamentação. Isso se deve ‘à perda da realidade’. É uma época amorfa, incapaz de produzir um estilo e um tipo humano característicos. É também uma época ocasionalista caracterizada por produzir toda espécie de substituições inspiradas na boa nova da religião secular da modernidade herdada do humanismo. A substituição principal, que abre a porta para todas as demais, é a do princípio de transcendência pelo de imanência. Isto desfundamenta a anterior visão da realidade sem, no entanto, ter sido capaz de estabelecer uma nova fundamentação. Dai que seja também uma época niilista. O impulso veio, efetivamente, do humanismo, cuja fé na capacidade de conhecer e de fazer do homem, suscitou a esperança em conseguir, por fim, o estabelecimento da Cidade Perfeita. Seria uma Cidade do Homem constituída por homens novos nos quais a virtude da solidariedade, virtude do homem exterior, substitui a caridade, virtude do homem interior. Esta religião veio à luz na Revolução francesa, competindo desde então com o cristianismo: a fé no homem substitui a fé em Deus, a fé no homem novo substitui a fé em Cristo, e o Reino do Homem substitui o Reino de Deus. A moral desta religião do homem emancipado é o humanismo e sua igreja o Estado-Nação, um Estado Moral. Dizia Heinrich Heine: ‘wir wollen hier auf Erden schon das Himmelreich errichten’ (queremos alcançar já aqui na terra o Reino do Céu). Após a revolução, o humano é, miméticamente, o deus do homem (Feuerbach). O humano se diviniza como Eu romântico, sendo a humanidade o demiurgo revolucionário (C. Schmitt). Por trás disso está o mito do nostálgico estado de natureza rousseuniano”.


Dalmacio NEGRO PAVÓN. Política y facciones: la guerra de todos contra todos. Revista Verbo.


domingo, 23 de março de 2014

A SOBERANIA DO POVO É SATÂNICA

"A guerra é sem trégua e sem piedade entre a Revolução e os que permanecem fiéis a Deus sobre a terra, porque a Revolução é uma tentativa de organização do mundo sem Deus e contra Deus. É o mais formidável dos erros. É a heresia total". (Pe. Charles Maignen. "La souveraineté du Peuple est une hérésie")
Em relação ao ponto que tocamos, a heresia é flagrante e fora de dúvida. Pois a soberania do povo é incompatível com o dogma do pecado original e da mancha primitiva do homem. Se, com efeito, o mal existe no homem desde o seu nascimento, se o homem traz em si más tendências que não podem ser combatidas nem freadas senão pela graça e uma autoridade esclarecida, como ensina o cristianismo, é absurdo proclamar o homem incondicionalmente soberano e independente. É o que proclamam em alta voz Jean Jacques Rousseau e todos os filósofos ou doutrinadores da revolução. É o que, seguindo seus passos, reconhecia faz pouco tempo Edouard Herriot, como postulado fundamental: “A democracia tem por fundamento um grande ato de fé na bondade da ‘natureza humana’”.
Contra o dogma do pecado original, a soberania do povo erige, pois, o da bondade e o da retidão naturais, da “imaculada concepção” do homem, segundo a célebre expressão de Blanc de Saint-Bonnet. 
A soberania do povo permite que Lúcifer se levante novamente contra a ordem divina e satisfaça ao mesmo tempo seu espírito de vingança e sua eterna malícia. Com a reivindicação da “imaculada concepção” do homem visa descontar a decadência que seguiu a falta de nossos primeiros pais. E o Tentador evidentemente experimenta uma sutil satisfação ao renovar para nós a queda primitiva, fingindo querer nos livrar de suas conseqüências e ao fazer cada um de nós tropeçar como nosso primeiro pai e pelo mesmo motivo. Pois a causa e o estimulo da rebelião original foi a soberba: “Sereis como deuses!” A afirmação da soberania individual e popular procede da mesma tendência; está marcada intrinsecamente pelo mesmo vício; não se poderia admiti-la nem tampouco praticá-la sem dar provas de uma vaidade ao mesmo tempo criminosa e cômica e de uma insurreição deliberada contra a ordem das coisas tal como foi estabelecida por Deus em castigo a falta e, por conseqüência, sem incorrer em uma nova pena.
 A soberania do povo é satânica enquanto pretende expulsar Deus da sociedade e proclamar contra Ele os falsos Direitos do Homem, exatamente como Lúcifer pretendeu substituir a Deus no Céu e proclamar contra Ele os falsos direitos dos anjos rebeldes. É satânica enquanto nega explicita e insidiosamente os dogmas essenciais da fé cristã: o da queda original e da mancha radical do homem e o de que toda autoridade reconhece sua fonte exclusiva, sua regra e seus limites em Deus. É satânica, por conseguinte, enquanto baseia toda organização política e social na insubordinação e na soberba e faz deste pecado, pai de todos os vícios, a mola propulsora de toda atividade das nações. É a heresia de nosso tempo, dizia o Cardeal Gousset, que se fez um bom profeta. Será tão daninha e tão difícil de extirpar como o jansenismo. Será mais ainda, pois ultrapassa imensamente em malícia e extensão.
Marcel de la BIGNE DE VILLENEUVE (1889-1958). Satan en la Ciudad. Buenos Aires: Editorial Nuevo Orden, 1965, pp. 86-89.

terça-feira, 18 de março de 2014

A PRESENÇA AÇAMBARCADORA DO ESTADO

“A autoridade não nos aparece hoje a não ser sob a figura de um funcionário sentado atrás de uma escrivaninha e investido dos mais amplos direitos... Essa personagem é eterna, imutável, idêntica a si própria... Recenseia, registra, espiona. Conhece nossos rendimentos e inventaria nossas heranças. Sabe se possuímos um aparelho de rádio, um cachorro ou um automóvel. Instrui nossos filhos e fixa o preço do nosso pão. Fabrica nossos fósforos e vende-nos nosso tabaco. É industrial, armador, comerciante, corretor e médico. Tem arquivos, florestas, estradas de ferro, hospitais, bancos e usinas. Monopoliza a caridade. Se nós pertencemos ao sexo masculino, faz-nos comparecer à sua frente, pesa-nos, mede-nos, examina o funcionamento de nosso coração, de nossos pulmões e de nosso baço. Não podemos dar um passo ou fazer um gesto sem que disso se advirta e encontre um pretexto para intervir”.


Pierre GAXOTTE (1895-1982). A revolução francesa.

A DESTRUIÇÃO DOS CORPOS INTERMEDIÁRIOS E O SURGIMENTO DE UM PODER SEM LÍMITES

“Como a revolução francesa não teve somente por objeto mudar um governo antigo, mas abolir a forma antiga da sociedade, ela teve que combater a um só tempo todos os poderes estabelecidos, arruinar todas as influências reconhecidas, apagar as tradições, renovar os usos e costumes e esvaziar de certo modo o espírito humano de todas as idéias sobre as quais se haviam fundado até então o respeito e a obediência. Daí o seu caráter tão singularmente anárquico. Mas afastai estas ruínas: percebereis um poder imenso que atraiu e devorou na sua unidade todas as parcelas de autoridade e de influencia antes dispersas numa série imensa de poderes secundários, de ordens, de classes, de profissões, de famílias e de indivíduos, e como que espalhadas em todo o corpo social. Nunca se havia visto no mundo um poder semelhante desde a queda do império romano. A Revolução criou este poder novo, ou melhor, ele saiu por si mesmo das ruínas acumuladas pela Revolução” 

Alexis de TOCQUEVILLE (1805-1859). L’Ancien Régime et la Révolution. Libro I, cap. II.


UM POVO DE ADMINISTRADOS

“A Revolução não deixou de pé senão indivíduos e desta sociedade pulverizada saiu a centralização, pois onde não há senão indivíduos, todos os negócios destes são negócios públicos, negócios do Estado. É assim que viemos a nos transformar num povo de administrados”.


Royer-COLLARD (1763-1845). Discurso na Câmara de Deputados em janeiro de 1982, citado por José Pedro Galvão de Sousa em “O Estado Tecnocrático”.